domingo, 14 de setembro de 2014

Entrevista com Leonardo Boff

Entrevista com Leonardo Boff



Aos 75 anos, Leonardo Boff possui a biografia rara de líder religioso, intelectual respeitado e militante




das causas do povo. Em 1959, aos 24 anos, ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos.

Diplomado em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique, na Alemanha, foi um dos pioneiros

na formulação da Teologia da Libertação, que procurava combinar a indignação diante da miséria e da

exclusão na América Latina com a fé cristã. Em 1985, quando o Vaticano encontrava-se sob de ideias

conservadores, Boff foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" pela Sagrada Congregação para

a Defesa da Fé, sucessora do Santo Ofício, que na saída da Idade Média, organizava os tribunais da

Inquisição.


A reportagem e a entrevista é de Paulo Moreira Leite, jornalista, publicada por Brasil 247, 02-09-2014.




Embora tenha conseguido retomar algumas de suas atividades, auxiliado pelo apoio de uma formidável


pressão, quando foi ameaçado de nova punição, em 1992, Boff decidiu se auto promover ao estado leigo.




No ano seguinte, foi aprovado, por concurso, para a cadeira de Filosofia da Religião, Ética e Ecologia da

Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. Autor de mais de 60 livros sobre Teologia, Antropologia,


Espiritualidade e Mística, entre outros assuntos, até hoje Boff também realiza palestras para estudantes,




para o Movimento Sem-Terra e as comunidades da Igreja.


Eis a entrevista.

O senhor tem contatos com pessoas mais diversas do povo brasileiro. Eu gostaria que contasse

como estes cidadãos estão vendo a eleição de 2014. Há grandes mudanças em relação a 2010,

2006, 2002?



Há um mal estar generalizado no mundo como Freud constatava nos anos 30 do século passado. Todos




têm a sensação de que assim como o mundo está não pode continuar. Tem que haver mudanças. É

o efeito da crise de nossa civilização que não dispõe mais de recursos próprios para dar conta de sua


própria crise interna. Bem diziaEinstein: "o pensamento que criou a crise não pode ser o mesmo que nos




tira dela". Devemos pensar diferente e agir diferente.


No Brasil as manifestações de junho de 2013 no fundo queriam dizer: "não queremos mais um Brasil dos




negócios e das negociatas. Queremos um Brasil de cidadãos que participam". Há ainda um fator novo:

as políticas públicas do PT que tiraram 36 milhões da pobreza foram incorporadas como coisa natural,

um direito do cidadão. Ora, o cidadão não tem apenas fome de pão, de casa, de luz elétrica. Tem outras

fomes: de ensino, de cultura, de transporte minimamente digno, de saúde razoável e de lazer. A falta de

tais coisas suscita uma insatisfação generalizada que faz com que esta eleição de 2014 seja diferente de


todas as anteriores e a mais difícil para o PT. Precisamos de mudança.

Mas dentre os partidos que podem fazer mudanças na linha do povo, apenas vejo o PT, desde que




consolide o que fez e avance e aprofunde as mudanças novas atendendo as demandas da rua. Dilma é

ainda a melhor para o povo brasileiro.


Por que?



Os fatos falam por si. Até hoje nenhum governo fez políticas públicas cuja centralidade era o povo


marginalizado, os invisíveis, considerados óleo gasto e zeros econômicos. Lula e Dilma introduziram




políticas republicanas, vale dizer, que têm as grandes maiorias em seu foco. Importa consolidar


estes avanços: Bolsa Família, Luz para todos, Minha casa minha vida, crédito consignado, mais




escolas técnicas e mais universidades e correção do salário em 70% da inflação diminuindo em 17%

a desigualdade social. Quem fez isso com sucesso deve poder continuar a fazê-lo e de forma mais

profunda e abrangente. Dilma é ainda a melhor opção para esta tarefa messiânica.


O senhor conheceu Marina Silva no Acre, onde ela foi sua aluna. Também tem acompanhado sua

campanha em 2014, como candidata a presidente pelo PSB. O que mudou?



Primeiro ela mudou de religião. De um cristianismo de libertação, ligado aos povos da floresta e aos

pobres, passou para um cristianismo pietista e fundamentalista que tira o vigor do engajamento e se


basta com orações e leituras literalistas da Bíblia. Isso transformou a Marina numa fundamentalista com




a mentalidade de alguns líderes muçulmanos: ler a vontade de Deus não na história e no povo, mas nas

páginas da Bíblia de 3-4 mil anos atrás. Isso enrijece a mente e a torna ingênua face à realidade política.

Agora como candidata pelo PSB representa uma volta ao velho e ao atrasado da política, ligada aos

bancos e ao sistema financeiro. Seu discurso de sustentabilidade se tornou apenas retórico. Ela não

encontrou aquilo que é a essência da verdadeira ecologia: uma nova relação para com a Terra e a

natureza: respeitando seus direitos e organizando um modo de produção que respeita os ritmos naturais.


Para mim é uma espécie de Jânio de saia.





Marina participou da luta popular contra empresários e fazendeiros que tentavam destruir a

Amazônia. Também esteve ao lado de Chico Mendes até seu assassinato, em 1988. Como entender

que, hoje, ela possa dizer que Chico Mendes fez parte da mesma elite a que pertence, por exemplo,

uma das herdeiras do maior banco privado do país?



Esta visão de Marina mostra o quanto é fraca teoricamente e revela a contaminação que já sofreu




de seus aliados e conselheiros, todos neoliberais e submissos à lógica do mercado que não é nada

cooperativo, mas estritamente competitivo. Ela não está construindo no canteiro do povo, dos pobres e

marginalizados, mas levando tijolo, cimento e água para o canteiro das elites opulentas e conservadoras

de nosso país.


De que forma essa visão dogmática, fundamentalista, da religião, pode afetar a postura de

uma pessoa que pretende governar um país onde uma sociedade complexa e plural, como a

brasileira?



As consequências são ruins. Ela viverá permanentemente em crise de consciência entre a lógica da

realidade e a lógica religiosa, fundada numa leitura velhista, errônea e anti-histórica da Bíblia. A Bíblia não

é um fetiche de soluções, mas uma fonte de inspiração para que nós achemos as soluções adequadas

para o tempo presente. Um fundamentalista não serve para governar, pois cria continuamente conflitos.

O governante deve ser alguém de síntese, que saiba dos conflitos e das diferentes posições e tenha a


habilidade de conduzir para uma certa convergência no ganha-ganha. Marina não possui esta habilidade.

Se vencer, oxalá não tenha o mesmo destino político que teveCollor de Mello.





No último debate presidencial, Marina recusou-se a revelar quem paga palestras que lhe rendem

mais de R$ 50 000 por mês. Disse que era uma exigência dos clientes. Como analisar isso?



Acho que como cidadã e militante da causa ecológica ela pode e deve aceitar palestras sobre temas de

ecologia, pois o analfabetismo ecológico é grande, especialmente, entre os empresários. Achei que a

pergunta a ela não foi pertinente, porque invade a esfera do privado de forma indevida. Outra coisa seria

se ela como candidata cobrasse por suas falas. Aí poderia surgir um compromisso tácito entre a empresa

que a convidou, criando um problema político, pois a empresa pode se valer deste fato para conseguir

vantagens ilegítimas.


No Brasil de hoje, o desemprego está baixo. Os salários crescem mais do que a inflação. Mesmo

assim, há um grande pessimismo. Por que?



Grande parte do pessimismo é induzido por aqueles que querem a todo custo e por todos os


meios tirar o PT do poder. Aqui se trata de uma luta de classe selvagem. Nossas elites que Darcy

Riberiro considerava as mais reacionárias do mundo e Antônio Ermirio de Morais dizia com




frequência: "as elites só pensam nelas mesmas" junto com a grande mídia promoveram esse pessimismo.


Mas o povo lá em baixo sabe que sua vida melhorou tem esperança de melhorar ainda mais. Vê no PT a




comprovação de que pode realizar esse sonho viável. No fundo as elites de distintas ordens pensam:


aquele lugar lá no Planalto é nosso e não de um trabalhador. Lula pode estar no Planalto mas como




serviçal e faxineiro. Ocorre que se realizou a maior revolução pacífica e democrática de nossa história:

um outro sujeito de poder, alguém, sobrevivente da grande tribulação, chegou lá e deu outra direção ao


país rumo ao povo e sua inclusão social: Luiz Inácio Lula da Silva, continuado pela Dilma Rousseff.





Uma explicação comum para as dificuldades de Aécio Neves é o fracasso histórico do PSDB em

oferecer uma perspectiva de melhoria para a maioria da população. Por essa razão, seu candidato

parece caminhar para a quarta derrota em quatro eleições presidenciais. O senhor concorda?



O PSDB não possui base popular nem está ligado organicamente aos movimentos sociais. Ele nasceu




com a mentalidade da socialdemocracia européia, feita em grande parte pela classe média. Aqui o

problema é como resolver os problemas atávicos do povo, de sua fome, de sua falta de escolas, de saúde

e moradia. O PSDB não colocou isso no centro de sua agenda, mas o desenvolvimento econômico,

alinhando-se ao curso da macroeconomia capitalista, especulativa e feroz. Por isso há uma afinidade

natural entre este partido e os que "estão bem na sociedade". Ocorre que o desafio é atender aqueles

que "estão mal". Isso eles fizeram muito pouco. Nem sabe fazê-lo, pois se exige uma pedagogia tipo

Paulo Freire na qual o pobre entra como sujeito da superação de sua pobreza.


Como o senhor avalia o papel da mídia em 2014?



Eu creio que a grande mídia seja de jornais, rádios ou televisão mostrou seu caráter nitidamente de

classe. Muitos desses meios foram concedidos (esquecemos que não são donos, mas concessionados)


a algumas famílias opulentas. Usam seu poder para fazer a cabeça do brasileiro. A TV Globo faz mais a




cabeça dos brasileiros na linha do sistema vigente capitalista e consumista mais que todas as escolas e

universidades juntas. Isso é anti-democrático e no nível de outros países mais civilizados, uma vergonha.


Com que direito a família Marinho pode assumir esta pretensão? Na verdade, hoje, com a oposição

fraca, eles se constituíram a grande oposição ao governo do PT. Erro do PT foi não ter construído uma




mídia alternativa para tensionar as opiniões e oferecer uma alternativa ao povo na leitura da realidade. A


mais manipuladora e até mentirosa revista de opinião deste país é sem dúvida a revista VEJA.

sábado, 6 de setembro de 2014

Votem pela Constituinte Exclusiva para Reforma Política

Votem no Plebiscito pela Constituinte Exclusiva para ser realizada uma Reforma Política no Brasil. O prazo é só até amanhã( 07/09/2014). O site é: www.plebiscitoconstituinte.org.br

Clube Militar fecha com Marina

Agremiação de generais da reserva lança manifesto de apoio à candidata do PSB; "Esperança de algo novo e diferente"; com sede no Rio de Janeiro, agremiação de generais da reserva é considerada uma das entidades mais conservadoras do...
brasil247.com|Por Brasil 24/7

Chico Buarque, artistas e Boff apóiam Dilma para presidente

O APOIO DE LEONARDO BOFF À DILMA ROUSSEFF


O APOIO DE LEONARDO BOFF À DILMA ROUSSEFF
Um dos maiores escritores e pensadores do Brasil declara seu apoio à reeleição de Dilma Rousseff. O filósofo Leonardo ...Boff gravou um vídeo em que fala da sua opção pelo projeto político que tem o verdadeiro cuidado com as coisas do povo.
"Eu apoio a reeleição de Dilma Rousseff para confirmar a maior revolução democrática pacífica feita na história do Brasil", declara.
http://youtu.be/lVKhRCl9LTE

Indigência de espírito político - Leonardo Boff

A FAVOR DO BRASIL

O ilustre catarinense Leonardo Boff exprime em poucas palavras a falta de proposições dos partidos nas eleições deste ano. O governo do PT, com a presidenta Dilma tem projeto nacional de inclusão econômica, social e cultural para tod@s.

Dia 05 de outubro é 13 na cabeça.

Luci Choinacki 1333
Coragem de conquistar um futuro melhor.

[assessoria]
A FAVOR DO BRASIL
O ilustre catarinense Leonardo Boff exprime em poucas palavras a falta de proposições dos partidos nas eleições deste ano. O governo do PT, co...m a presidenta Dilma tem projeto nacional de inclusão econômica, social e cultural para tod@s.
Dia 05 de outubro é 13 na cabeça.
Luci Choinacki 1333
Coragem de conquistar um futuro melhor.
[assessoria]
 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A comoção popular e as eleições no Brasil

A comoção popular e as eleições no Brasil

Márcia D`Angelo
segunda -feira 18/08/2014

É deveras interessante e não surpreendente o papel que a mídia tem na formação da cultura brasileira. Os grandes meios de comunicação, fiéis representantes do grande capital nacional e internacional transformam em notícias espetaculares, intermitentes e verdadeiros bombardeios ideológicos até as tragédias ocorridas no país de forma que suas verdadeiras intenções ficam camufladas. O desastre aéreo que provocou a morte da comitiva do candidato à presidência da República Eduardo Campos (PSB) e do próprio, foi assunto recorrente durante vários dias e hoje já podemos perceber os resultados de tamanha divulgação. A candidata Marina Silva, evangélica, conservadora em muitos aspectos e com um programa de governo que não prevê mudanças profundas, haja vista sua política de alianças e suas divergências até com o próprio PSB (partido que escolheu porque não conseguiu efetivar sua Rede de Sustentabilidade), pode chegar a disputar o 2.o. turno das eleições presidenciais em condição de empate técnico com a atual presidenta Dilma Rousseff.
Considerando-se que o candidato Eduardo Campos tinha 8% de intenções de voto, enquanto Dilma contava com 36%, o falecimento do candidato rendeu à sua vice Marina Silva um crescimento espetacular. É constrangedor que esse crescimento se deu através da exploração emocional dos brasileiros que sentiram a tragédia e foram vítimas de tamanho assédio midiático dia e noite. Até podemos induzir que o candidato falecido é mais importante morto do que vivo, pois as intenções de voto  em torno de sua vice cresceram desproporcionalmente provocando um segundo turno e tornando até insegura a reeleição de Dilma.
As entrevistas  com  pessoas que individualmente foram beneficiadas pelo  candidato foram amplamente divulgadas (todas elogiando e considerando-o um homem quase perfeito, boníssimo, um suposto salvador da pátria) como se o programa político de um país pudesse ser efetuado por candidatos que beneficiam pessoas conhecidas e não por partidos que devem pensar o país e apresentar propostas consistentes para determinadas classes sociais, uma vez que os partidos diferem em suas escolhas sociais e econômicas. Governar o Brasil não é governar Pernambuco e também não é ter apenas propostas ecológicas descoladas de políticas públicas que assegurem a distribuição de renda, a reforma agrária, tributária, administrativa, política, urbana, universitária, etc.
Infelizmente o povo brasileiro até por falta de consciência política e escolaridade enxerga a política e os presidenciáveis através dos olhos da mídia que como sua maior representante, a Rede Globo ganha cabeças e corações através da emoção que suas novelas de péssima qualidade provocam, iludindo as mentes dos brasileiros menos avisados.
Deve-se também considerar que os grandes bancos (leia-se em primeiro lugar o Banco Santander) e seus correspondentes da imprensa,  amplamente interessados em aumentar ainda mais seus lucros no país, não vêm com bons olhos a reeleição de Dilma e já estavam espalhando notícias falsas de grande inflação e colapso econômico do país com a reeleição da presidenta. A morte de Eduardo Campos e a subida de Marina Silva nas intenções de voto (aliada em sua última  disputa eleitoral do candidato Serra do PSDB) vieram a calhar.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Teologia é Séria - Leonardo Boff

A TEOLOGIA É SÉRIA
Leonardo Boff

Os intelectuais que têm algum sentido ético precisam falar sobre a Terra ameaçada.

Entrevista especial com Leonardo Boff

“Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes,

indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de

forma libertadora”, defende o teólogo.

“A Teologia é séria quando toma a sério o testemunho dos invisíveis, dos desprezados,

daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no mundo, tem algo a dizer, a

mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é ignorante. O povo sabe muito da
vida, da sua luta”, afirmou Leonardo Boff em entrevista concedida, pessoalmente, à

IHU On-Line.

Para Boff, “nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas honestas,


humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se conseguirmos

isso é o sonho de Jesus realizado”. E continua: “há um dito que diz: onde estão os

pobres está Cristo, e onde está Cristo está a Igreja. Só que não é verdade que onde está
o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do palácio de Herodes do que da gruta de

Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na sociedade”.

Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor é professor emérito de Ética, Filosofia da


Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autor de

mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia e mística,
entre os quais citamos Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo: Ática,

1990); São Francisco de Assis. Ternura e vigor (8. ed. Petrópolis: Vozes, 2000); Ética

da vida (Rio de Janeiro: Sextante, 2006); e Virtudes para outro mundo possível II:

convivência, respeito e tolerância (Petrópolis: Vozes, 2006).



Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a diferença da Teologia da Libertação das décadas de 1970 e

1980 e hoje, com a globalização neoliberal? Ela é capaz de responder aos desafios

contemporâneos?

Leonardo Boff – A Teologia da Libertação parte do grito dos oprimidos, que hoje


são os pobres. Há mais de 900 milhões de pobres no mundo e a crise econômica e

financeira elevou esse número a um bilhão e 200 milhões. Os gritos viraram um clamor.

Enquanto houver alguém gritando no mundo, sejam mulheres, afrodescendentes,

indígenas, pessoas discriminadas, sempre têm sentido, a partir da fé, falar e atuar de

forma libertadora. Então, é uma teologia permanente, porque, pela condição humana,

todos, até os mais ricos e equilibrados, carregam suas cruzes: é o medo da morte, a

exposição a acidentes, a perda do filho ou da esposa; não temos uma vida assegurada. A

condição humana é assim e deve ser construída a cada dia, com sua angústia e opressão.

Nesse sentido, a fé cristã oferece um caminho para a pessoa se liberar, colocando a
vida mesmo uma vida que fracassou na palma da mão de Deus, obtendo assim uma


libertação espiritual. A mensagem de Jesus é libertadora por isso. E uma teologia que

não produz esse efeito humanizador não pode ser chamada herdeira ou que está no

legado de Jesus.
IHU On-Line – Como compreender que o cristianismo, que nasceu no primeiro

mundo, hoje não faça parte deste universo europeu, ou ao menos não tenha tanta

relevância entre ele, e se demonstre mais vivo no terceiro mundo?

Leonardo Boff – Primeiro, há um problema de estatística. Mais da metade dos cristãos


e católicos vive no terceiro mundo. De fato, é uma religião do terceiro mundo, embora

as origens sejam no primeiro. E se falarmos em termos de criatividade, de presença,

veremos que a criatividade não está no primeiro mundo, onde temos culturas agônicas,

que lentamente estão “descendo a rampa” da vida; são civilizações que não cultivam a

esperança porque não veem qual é a esperança para elas. No fundo, conquistaram tudo o

que queriam, dominaram o mundo, impuseram suas ideias, suas filosofias, seus valores,

sua música, e agora dizem que são infelizes. Isso significa que o ser humano não só

tem fome de pão, de bens materiais, mas também tem fome de beleza, de comunicação,

de amor, de solidariedade. E esses valores estão presentes principalmente entre os

pobres. Se há uma coisa que os pobres guardam é a cultura da solidariedade, a alegria

de viver com o pouco que têm. Nesses lugares da Ásia, da África, da América Latina,

o cristianismo se mostra criativo. Ele se encarna nas culturas locais, e então passa a

ter um rosto diferente, músicas e símbolos diferentes. Agora estão aparecendo novos

santos e mártires que são nossos. E tem a questão das mulheres daqui também. E não é

só o fato de serem mulheres fazendo teologia, porque a mulher americana rica também

a faz. Aqui temos a mulher pobre que não quer ingressar no mundo dos ricos, mas

quer ser solidária. Então, faz uma teologia feminina diferente. Elas até brigam com

as americanas, por exemplo, fazendo a crítica a elas, dizendo que não adianta fazer

teologia só para integrar as mulheres, pois estarão apenas contribuindo para engrossar o

mundo dos opressores. As latino-americanas pedem solidariedade a elas como mulheres
e como oprimidas. Se não for isso, não será uma verdadeira Teologia da Libertação.



IHU On-Line – A partir da vivência, na prática da Teologia da Libertação, como o

senhor define que deveria ser uma teologia séria?

Leonardo Boff – A Teologia é séria quando ela toma a sério o testemunho dos


invisíveis, dos desprezados, daqueles que ninguém conta. Cada pessoa é única no

mundo, tem algo a dizer, a mostrar. Ignorante é aquele que pensa que o povo é
ignorante. O povo sabe muito da vida, da sua luta. É um saber, como diz Camões, “de


experiências feito”. Somos sérios quando damos valor ao que o povo diz, que não são

palavras, mas dramas e gritos. Em segundo lugar, é preciso saber formular isso de uma

maneira rigorosa e universal, de forma que todos possam entender.
IHU On-Line – Quais os limites da Teologia no mundo hoje? Que desafios ela

tem a enfrentar no século XXI, considerando a contribuição que pode oferecer à

sociedade contemporânea, principalmente à crise ecológica e ambiental?

Leonardo Boff – A primeira tarefa da Teologia e das igrejas é elas assumirem que são


cúmplices do mundo a que chegamos hoje. Isso significa que houve algum erro na nossa

transmissão da fé, na nossa vivência bíblica, pelo qual não conseguimos evitar a crise

ecológica e a crise econômica mundial. Não temos a chave da salvação, somos parte

do problema. E com muita humildade, precisamos renunciar a toda a arrogância de que

“temos a palavra da revelação e então sabemos”. Nós não sabemos. Temos que nos unir
a todos os grupos, começando pelos pobres – que têm sua sabedoria , e depois com


o discurso das ciências, das outras igrejas, com todos os discursos que criam sentido.

Além disso, é muito importante sentir-se um discurso junto com os demais, não tendo

exclusividade, afirmando que “nós temos a revelação; nós temos a chave”, porque, na

verdade, não a temos. Quando a Igreja teve essa arrogância e assumiu o poder, foi um

fiasco. Governou mal, até 1890 ainda havia pena de morte nos estados do Vaticano,

além de cometer grandes erros históricos contra a modernidade e os direitos humanos.

Então, ela não pode apresentar títulos de credibilidade. Primeiro, precisa reconhecer

que pode aprender no diálogo e que pode dar uma contribuição a partir do que vem

do exemplo de Jesus. Nosso desafio não é o de criar cristãos, mas de criar pessoas

honestas, humanas, solidárias, compassivas, respeitosas da natureza dos outros. Se

conseguirmos isso é o sonho de Jesus realizado.
IHU On-Line – Quais as principais ameaças que pesam sobre nosso futuro?

Leonardo Boff – São dois blocos de ameaças. Um vem pela máquina de morte, que é


nossa cultura militarista, que criou um tal número de armas nucleares, químicas e

biológicas que pode destruir muitas vezes toda a vida do planeta. São armas muito

deletérias, que estão em segurança, mas nunca segurança em absoluto. Além disso,

temos as nanotecnologias. A guerra cibernética pode ser de alta destruição. Trata-se de

uma guerra não declarada, de extrema violência e que pune os inocentes. O segundo

bloco de ameaças é aquilo que nosso processo industrialista fez nos últimos 300, 400

anos, com a sistemática agressão à Terra, aos seus bens, seus recursos. Chegamos a um

ponto em que desestabilizamos totalmente o sistema Terra, e a manifestação disso é o

aquecimento global. Para repor o que tiramos da Terra em um ano, ela precisa de um

ano e meio. Então, a Terra já está exterminada. Estamos alcançando uma temperatura

perto de 2º C e a comunidade científica norte-americana alertou para o fato de que, com

a entrada do metano, do degelo das camadas polares e outros fatores, a Terra vai se

aquecendo devagar e, de repente, a febre de 37º C pula para 45º C. Com esse

aquecimento abrupto, a vida que conhecemos hoje não vai subsistir, nem animal, nem

vegetal, nem humana. Como temos tecnologia, podemos criar pequenos oásis

refrigerados para grupos de seres humanos que, seguramente, vão invejar quem morreu

antes, tão miserável será a vida. Isso pesa sobre a humanidade nos próximos decênios e

ninguém acredita nisso, porque vai contra o sistema da acumulação, contra o

capitalismo, contra as grandes empresas. Os intelectuais que têm algum sentido ético

precisam falar sobre isso.
IHU On-Line – Em que situações de nossa sociedade mais se pode ver o Cristo

Crucificado?

Leonardo Boff – Há um velho dito da tradição cristã que diz: onde está o pobre,


aí está Cristo. Hoje temos que olhar em cada cidade do terceiro mundo, os grandes

cinturões de miséria, as favelas. O cristão que toma a sério a percepção de que Cristo

está onde o pobre está tem que visitá-lo. Não basta identificar que lá tem uma favela. É

preciso ir até lá, conversar com as pessoas, ver como é possível ajudá-las a se organizar

melhor. Há outro dito que diz: onde estão os pobres está Cristo, e onde está Cristo está a

Igreja. Só que não é verdade que onde está o pobre está a Igreja. Ela está mais perto do

palácio de Herodes do que da gruta de Belém. A Igreja precisa ver qual é o seu lugar na

sociedade.
IHU On-Line – Em que sentido o capitalismo pode ser apontado como anticristão?

Leonardo Boff – Em primeiro lugar, o capitalismo é antivida. Ele assassina as vidas


humanas para acumular. Para que alguns tenham qualidade de vida, muitos devem

ter péssima qualidade de vida. E isso é injusto. E tudo o que vai contra a vida acaba

sendo contra aquele que disse: “Eu vim trazer vida e vida em abundância”. Por isso

é anticristão. E isso custou muito aos cristãos reconhecerem, porque as igrejas se

instalaram muito bem dentro do sistema capitalista. A Igreja teve dificuldade de

condenar, pois o capitalismo não nega a Igreja, nem a religião. Pelo contrário, defende

a Igreja e a moral. Só que, na prática, nega tudo isso. E essa é a grande ilusão da Igreja,

pois o capitalismo passa por cima de todo mundo, sem solidariedade. Nele, só o forte

ganha.
IHU On-Line – Baseado em que o senhor afirma que os Estados Unidos é o grande

terrorista mundial?

Leonardo Boff – Na prática ele é o grande terrorista porque, na América Latina,


apoiou todas as ditaduras e participou ativamente de atentados, sequestros de pessoas,

fornecendo informações. E continua com essa estratégia, que é a estratégia do império.

Onde há uma oposição, ele vai e destrói. Os Estados Unidos sempre usam a violência

militar para se impor.
IHU On-Line – O senhor disse que reconhecer a Igreja de Roma como a única

verdadeira é um erro teológico. Por quê?

Leonardo Boff – É um erro teológico porque supõe o conceito reducionista de Deus,


como se Ele dissesse: “Esses são meus filhos e aqueles não são; essas são minhas

criaturas queridas e aquelas são filhos abandonados”. Isso não existe para Deus. Todos

nasceram do seu coração. Deus acredita em todos os seres humanos. Todos são filhos e

filhas, não só os batizados, que por acaso nasceram no Ocidente. Então, uma Igreja que

não faz isso se opõe a Deus.
(Por Graziela Wolfart)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Reforma Política ignora silêncio da mídia e cresce, segundo portal da CUT

Sexta, 25 de julho de 2014


Campanha do Plebiscito pela

Reforma Política ignora silêncio

da mídia e cresce, segundo

portal da CUT



A campanha do Plebiscito Popular pela Reforma Política continua se espraiando pelos quatro cantos




do Brasil. Por meio da organização de grandes comitês organizadores e da fundamental discussão

em pequenos locais ou comunidades, a ideia de que é necessário e urgente convocar e eleger uma

assembleia constituinte exclusiva para mudar o sistema político nacional vai ganhando a opinião popular.


A reportagem é de Isaías Dalle e publicado pelo portal da CUT, 24-07-2014.




Isso tudo apesar de os meios de comunicação tradicionais agirem como se a campanha não existisse.

“Esse é o poder da mobilização popular, do trabalho de base, do corpo-a-corpo na defesa das ideias e do


debate político”, afirma o presidente da CUT, Vagner Freitas.




Até quinta, dia 24 de julho, a campanha já somava 800 comitês. A tarefa desses grupos é mobilizar a

militância e a população para realizar a votação em favor do Plebiscito entre os dias 1º e 7 de setembro.

Semana da Pátria, Semana do Plebiscito.

Um deles foi lançado pelo Sindicato dos Bancários de Pernambuco, na última terça, dia 22, mesma


semana em que o Sindsep-PE (Sindicato dos Servidores Federais) organizou o seu. Duas semanas

antes, também no Recife, a Marcha Mundial das Mulheres fez atividade pública de lançamento de




comitê próprio.


Em Itapeva, a 300 km da capital São Paulo, o MST organizou mais um comitê, por intermédio de




sua Regional Sudeste. Na cidade existem sete assentamentos plenamente produtivos, onde vivem e

trabalham 400 famílias. O debate já chegou até elas, através de assembleias e do constante trabalho

da rádio comunitária Camponesa FM, construída e mantida pelos próprios assentados, e que leva sua

mensagem para os assentamentos e as comunidades, com raio de alcance de 60 km.

As escolas públicas da cidade também sediaram debates sobre a Reforma Política organizados pelo


MST. No Acampamento Boa Esperança, montado em terras devolutas no mesmo município, as barracas




de lona preta e as luzes dos lampiões embalaram os debates, acompanhados pela maioria das 500

famílias que estão à espera da desapropriação.

“Nossa meta é refletir com as pessoas sobre a relação entre a necessidade de reforma política e a


qualidade de vida delas”, comenta Douglas Taffarel Cordeiro, coordenador do comitê local. Ele conta




que, nas abordagens iniciais, o tema é confundido, por muitos, com eleições. “Até mesmo dentro do

movimento isso ocorre por vezes. E o que queremos é debater política como elemento cotidiano. Refletir

como, por exemplo, comprar um saco de feijão produzido pela reforma agrária é também uma posição

política, um posicionamento ideológico”.


No próximo sábado, dia 26, a Regional Sudeste do MST realiza em Itapeva o chamado Encontro dos 100,




destinado a formar novos multiplicadores para difundir a proposta de reforma política.

Já na última terça, a Câmara Municipal de Ferraz de Vasconcelos, região metropolitana de São Paulo,

sediou o debate e o ato político que lançaram o comitê municipal. Mais de 100 pessoas compareceram ao


debate conduzido por Alex Capuano, assessor da CUT que mora na cidade, por Nilton Del Valle Ribas,

da Central de Movimentos Populares, e pelo professor Alexandre Linares, editor do jornal “O Trabalho”.




Para acompanhar todas as mobilizações que estão preparando o Plebiscito, acesse a página da

campanha.



quarta-feira, 9 de julho de 2014

Agora devemos torcer pela Argentina/América Latina

Agora devemos torcer pela Argentina/América Latina

Márcia D`Angelo
09/07/2014 20:35h.

Agora todos os brasileiros deveriam torcer pela Argentina já que não deu o Brasil. Entretanto, a falta de conhecimento da História do capitalismo e da América Latina (esta conquistada e explorada pelos países europeus) faz com que muitos brasileiros torçam para os países europeus contra nossa irmã e companheira até de forte ditadura contra o povo como a Argentina. Que vença a Argentina!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E a Argentina venceu mesmo a Holanda. Estou de alma lavada! Agora a Argentina, em nome da América Latina e do Brasil enfrenta sábado a Alemanha e se Deus quiser derrotará o time que nos derrotou. Viva a Argentina! Viva a América Latina! Viva o Brasil! Senso comum à parte de muitos brasileiros que não se consideram latino americanos é justo que a Argentina demonstre a força da América Latina no futebol apesar de todas as contradições e traumas.

O Brasil foi derrotado pela Alemanha porque não temos uma equipe que treina há 6 anos para os mundiais

 
O Brasil foi derrotado pela Alemanha porque não temos uma equipe que treina há 6 anos para os mundiais

Márcia D`Angelo
09/07/2014

A vitória da Alemanha  sobre o Brasil de 7x1 de ontem (08/07/2014) representa somente jogo de futebol sim. A Alemanha jogou com um time que treina e joga há 6 anos juntos e o Brasil jogou com um time que nunca tinha jogado antes. Onde está a malandragem? (afirmação daqueles que pouco entendem de Brasil, Alemanha e futebol e que suscitam que foi a "vitória da competência sobre a malandragem" numa atitude de puro preconceito com relação ao Brasil e subserviência a um país capitalista central como a Alemanha) Na cabeça da direita fascista e do povo desinformado? Na incompetência do Filipão desabastecendo a defesa e só jogando no ataque? Nas pessoas que sem conhecimento histórico querem achar um bode expiatório para o vexame? Devemos aprender com os erros e foi um erro técnico e estratégico. O Brasil deve treinar jogadores aqui no Brasil vários anos formando uma equipe coletiva ( e não craques individuais) para disputar mundiais, senão nem deve disputar porque é covardia para times de países centrais capitalistas que exibem competência técnica e frieza baseadas em treinos de muitos anos com a mesma equipe e isso é questão estratégica. O Brasil é o país que tem a maior criatividade para o futebol e a Alemanha ex-nazista? aprendeu conosco. Agora temos que aprender com ela a técnica e estratégia no futebol porque não dá para comparar nunca a História dos países e julgar um melhor que outro. Sou doutora em História e conheço muito bem a História da Alemanha e do Brasil.
Para aqueles brasileiros que dizem que o que faltou foi saúde, educação, transporte público e demais reformas que o país necessita fazer, a começar pela reforma política que o Congresso Nacional em sua maioria composta de partidos comprometidos com a direita latifundiária, representante do grande capital comercial, industrial e financeiro diria que:  mesmo que o Brasil tivesse efetivado essas Reformas de Base já propaladas desde o governo João Goulart (1961-1964) não teríamos chance de vitória se não houvesse os pressupostos anteriores mencionados para o futebol brasileiro, tais como: formação de uma equipe nacional que treinasse durante anos jogando no coletivo (e não com a preocupação de criar craques individuais  vendidos para o exterior considerados insubstituíveis) e que fosse destinada a competir em mundiais. Se unirmos nossa capacidade criativa em futebol com essa preocupação técnica e estratégica seremos sim imbatíveis.