sábado, 29 de junho de 2013

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2013/06/29/datafalha-dilma-nao-caiu-reforma-ja/


Publicado em 29/06/2013

DATAFALHA: DILMA NÃO CAIU !
REFORMA, JÁ !

Quem manda mandar usar o controle remoto ?
O primeiro Golpe já houve: “aprovação de Dilma despenca de 57% a 30% em três semanas, diz o Datafalha”.

Não há margem de erro – uma especialidade  dessas duas pesquisas brasileiras – que desminta o óbvio: o primeiro Golpe já houve.

A Dilma não caiu, porém.

Quem caiu foi o Governo Dilma que havia: o da gerente, da técnica, da “mãe do PAC”, da campeã da gestão.

Isso é espuma de sabão que se desfaz no primeiro jato d’água.

Ela deve escolher um lado.

Recompor o núcleo político.

Reformar o ministério.

Não dá para enfrentar um Golpe com Helena Chagas, ze Cardozo, Bernardão, Gleisi etc etc etc.

A Globo é o maior partido da Oposição.

A Globo não ganha eleição.

Mas a Globo dá Golpe.

Ela deu um, quando ignorou o desastre da Gol e fez um jornal nacional na véspera da eleição em 2006 e levou a eleição ao segundo turno.

Deu esse, agora, a partir das manifestações apartidárias e horizontais !!!

E ela não se defende.

Manda usar o controle remoto.

No Brasil, não existe controle remoto: a concentração na mídia brasileira é inaceitável numa Democracia.

Ela não caiu.

Mas, pôs lenha na fogueira da candidatura de Joaquim Barbosa.

E, possivelmente, de Bláblárina.

Aécio e Eduardo Campriles tem a sua conta a pagar, também, nas manifestações.

O Lula já esteve tão baixo nas pequisas e ganhou eleição.

O Fernando Henrique, também.

O Lula está quieto.

Qualquer coisa que ele disser pode ser pior para ela.

Quieto e vivo !

Paulo Henrique Amorim


http://www.youtube.com/watch?v=OaMu9oK9aeA

http://www.youtube.com/watch?v=OaMu9oK9aeA


Ouçam a maravilhosa música do Filme Esposa Amante  - filme de 1977 com Marcello Mastroianni e Laura Antonelli

http://www.youtube.com/watch?v=OaMu9oK9aeA

Armando Trovaioli Tema di Laura Mogliamante ost

revolta popular e revolta burguesa

Até agora o que vi foi algo semelhante à  "revolta burguesa" aplaudida e amparada e recrutada pelo grande capital, ou seja, a grande mídia(Globo, Folha de S. Paulo. Estadão, Revista Veja e outros canais televisivos, radiofônicos e impressos.O facebook continua recrutando os "indignados" "apartidários" despolitizados ou até fascistóides e a pequena burguesia sai nas ruas alucinada ou simplesmente passeando com seus filhos que não se contentam em ver o espetáculo pela televisão. O que eu quero ver é a Revolta Popular com os traballhadores nas ruas e os partidos de esquerda, Centrais Sindicais,  e demais movimentos populares (Sem Terra, Sem Teto, ecologistas, movimento de mulheres, de negros, indígenas) se manifestando não para dar um golpe no PT COMO QUER A BURGUESIA "APARTIDÁRIA" do PSDB, DEM. PFL, PPS, mas com reivindicações e propostas que requerem reformas de base e com cara do povo (jovens pobres de escola pública estadual, operários, operadores de telemarketing, garis, camponeses, empregados de supermercados, entregadores). Esses ainda não sairam às ruas e quando o fizerem com suas bandeiras de luta e requerendo dos governos estaduais, municipais e até federal uma atenção às suas demandas de POVO que trabalha, possivelmente não serão cobertos pela rede globo porque não cooptados. Aí sim será o início de um processo verdadeiramente democrático. O problema é saber como conscientizá-los historicamente e politicamente para não servirem de massa de manobra para a extrema direita dar um golpe. A tarefa é de quem? Partidos de esquerda unidos? Sindicatos? Movimento de moradores da periferia? Teologia da Libertação? Comunidades de Base? Grupos de discussão? Escolas? Comissões de Fábricas? 
Esse é o grande desafio para darmos um salto em direção à democracia. Não basta o protesto alienado e sem nome e sem proposta.A proposta de reforma política colocada pela presidenta e outras propostas devem também ser analisadas e até mesmo aplaudidas nessas manifestações que devem discernir quem são os inimigos dos trabalhadores, ou seja: os banqueiros, latifundiários, empresários, classe média tucanada. Esse pessoal, inimigo do povo tem seus representantes no Congresso, mas nem todos os congressistas os representam. Propor como o grande capital quer e a mobilização da classe média nas ruas repete sem raciocinar o fim das instituições democráticas como o Congresso é dar espaço para que os despolitizados e neofascistas proponham até uma ditadura civil, dependendo de quem coloquem no poder. 

Márcia D´angelo historiadora 28/06/2013

revolta popular e revolta burguesa

Até agora o que vi foi algo semelhante à  "revolta burguesa" aplaudida e amparada e recrutada pelo grande capital, ou seja, a grande mídia(Globo, Folha de S. Paulo. Estadão, Revista Veja e outros canais televisivos, radiofônicos e impressos.O facebook continua recrutando os "indignados" "apartidários" despolitizados ou até fascistóides e a pequena burguesia sai nas ruas alucinada ou simplesmente passeando com seus filhos que não se contentam em ver o espetáculo pela televisão. O que eu quero ver é a revolta popular com os traballhadores nas ruas e os partidos de esquerda, Centrais Sindicais,  e demais movimentos populares (Sem Terra, Sem Teto, ecologistas, movimento de mulheres, de negros, indígenas) se manifestando não para dar um golpe no PT COMO QUER A BURGUESIA "APARTIDÁRIA" do PSDB, DEM, PPS, mas com reivindicações e propostas que requerem reformas de base e com cara do povo (jovens pobres de escola pública estadual, operários, operadores de telemarketing, garis, camponeses, empregados de supermercados, entregadores). Esses ainda não sairam às ruas e quando o fizerem com suas bandeiras de luta e requerendo dos governos estaduais, municipais e até federal uma atenção às suas demandas de POVO que trabalha, possivelmente não serão cobertos pela rede globo porque não cooptados. Aí sim será o início de um processo verdadeiramente democrático. O problema é saber como conscientizá-los historicamente e politicamente para não servirem de massa de manobra para a extrema direita dar um golpe. A tarefa é de quem? Partidos de esquerda unidos? Sindicatos? Movimento de moradores da periferia? Teologia da Libertação? Comunidades de Base? Grupos de discussão? Escolas? Comissões de Fábricas? 
Esse é o grande desafio para darmos um salto em direção à democracia. Não basta o protesto alienado e sem nome e sem proposta.A proposta de reforma política colocada pela presidenta e outras propostas devem também ser analisadas e até mesmo aplaudidas nessas manifestações que devem discernir quem são os inimigos dos trabalhadores, ou seja: os banqueiros, latifundiários, empresários, classe média tucanada. Esse pessoal, inimigo do povo tem seus representantes no Congresso, mas nem todos os congressistas os representam. Propor como o grande capital quer e a mobilização da classe média nas ruas repete sem raciocinar o fim das instituições democráticas como o Congresso é dar espaço para que os despolitizados e neofascistas proponham até uma ditadura civil, dependendo de quem coloquem no poder. 

Márcia D´angelo historiadora 28/06/2013

Reforma do Judiciário só se houver controle dos meios de comunicação

Reforma do Judiciário só se houver controle dos meios de comunicação

O juiz Rubens Casara acredita que só será possível democratizar o Judiciário se houver a regulação da mídia no Brasil
24/06/2013

Sheila Jacob,
do Rio de Janeiro (RJ)

O juiz Rubens Casara, da 43ª Vara Criminal do Estado do Rio de Janeiro, investe na aproximação entre a sociedade civil e o poder Judiciário. Ele faz parte da Associação de Juízes pela Democracia (AJD), instituição que tem como objetivo “dar voz a quem normalmente não tem espaço nas decisões da Justiça, pois esta está vinculada a uma tradição e uma prática conservadoras”, explica em entrevista ao Brasil de Fato.
Em maio, ele organizou o evento “Resistência Democrática: Diálogos entre Política e Justiça”, com o objetivo de aproximar militantes sociais a atores jurídicos que possuem uma visão progressista.
Casara acredita que só será possível democratizar o Judiciário se houver a regulação da mídia no Brasil. Segundo ele, muitas das decisões da Justiça são tomadas para agradar a opinião pública, “que muitas das vezes é a opinião publicada pela chamada grande mídia”. Na opinião dele, um exemplo a ser seguido é a Lei de Medios da Argentina, aprovada após um amplo processo de mobilização social.


   
   Juiz Rubens Casara - Foto: Pablo Vergara
Brasil de Fato – O senhor organizou recentemente o seminário “Resistência Democrática: diálogos entre política e justiça”. Qual o objetivo?
Rubens Casara – O evento foi feito para mostrar que existe um pensamento contramajoritário dentro do poder Judiciário, um pensamento que se identifica com as tradicionais bandeiras da esquerda e com o respeito aos direitos fundamentais. O objetivo, em resumo, foi unir esses atores jurídicos mais comprometidos com a sociedade e os militantes de movimentos sociais que lutam por melhorias na vida do povo.

Esta foi a primeira edição. Por que realizá-la hoje?
Acredito que o momento que estamos vivendo é bem complicado, um tempo de “fascismo societal”, como diz o jurista e sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. A defesa dos direitos humanos e as ideias mais progressistas têm perdido espaço, e isso é algo que me assusta bastante. Pessoas que antes tinham vergonha de assumir certas posturas autoritárias hoje o fazem com muita naturalidade. Um exemplo é a transformação do Capitão Nascimento, personagem do Tropa de Elite, em herói nacional. O ídolo é o policial que, embora honesto, é um torturador, um criminoso.

Como o senhor avalia o Judiciário em relação à sociedade?
O Judiciário é um reflexo das contradições da sociedade. A sociedade é autoritária e, portanto, o poder Judiciário é autoritário. A maioria acredita – e é levada a acreditar – no uso da força para resolver os mais variados problemas sociais. A população que sofre a violência policial muitas vezes aceita e naturaliza essa violência, como, por exemplo, o “toque de recolher” que existe em diversas comunidades. No Brasil, as pessoas se acostumaram com autoritarismo, talvez porque a história do nosso país não é marcada por fortes rupturas históricas; sempre que o povo em movimento começava a se mobilizar e criar condições efetivas para transformações, surgiam soluções impostas de cima para baixo, e isso repercute no poder judiciário.

Ainda hoje?
Este é um momento de crise do Judiciário, que se encontra em uma encruzilhada. Garapon [jusfilósofo francês] aponta que o Judiciário está entre sua origem aristocrática, comprometida com a manutenção das coisas do jeito que estão, e o que se convencionou chamar de “tentação populista”, que também é perigosa, pois é uma tendência de agradar a “opinião pública”, que muitas vezes não passa da opinião publicada pelos meios de comunicação de massa, em especial os da chamada “grande mídia”. Não raramente, os juízes julgam para agradar a essa grande mídia. Isso é extremamente complicado, pois o poder Judiciário por defi nição tem que ser contramajoritário, isto é, tem que julgar contra maiorias e até mesmo contra a unanimidade se isso for necessário para defender os direitos fundamentais. Se a sociedade é autoritária, machista ou racista, o Judiciário tem o dever de se afastar dessas concepções opressoras, pois elas desrespeitam os direitos fundamentais e violam o projeto constitucional de vida digna para todos.

O debate sobre a redução da maioridade penal é uma dessas questões que a mídia toma a dianteira?
Exatamente. Dentro do poder Judiciário muita gente defende a redução da maioridade penal, isso em contrariedade a todas as pesquisas sérias já feitas sobre o tema. Os dados produzidos no Brasil apontam que é altíssimo o índice de reincidência no sistema prisional, ou seja, muitos que ficaram presos acabam retornando ao cárcere por cometerem novos crimes. Já no sistema socioeducativo, a prática de novos atos infracionais após a imposição de medidas socioeducativas é muito inferior. Ou seja, a opinião veiculada e naturalizada pela classe média brasileira contraria todos os dados concretos sobre o assunto. Muita gente defende a ideia da redução da idade penal, mas o faz a partir das lições do William Bonner ou de outros “especialistas”.

E por que é tão difícil combater o conservadorismo do poder Judiciário?
Existem várias razões. Um problema é o seguinte: os juízes que atuavam no período da ditadura civil-militar continuaram a atuar após a redemocratização. Muitos desses juízes, que fechavam os olhos para a tortura e a violação aos direitos humanos, tornaram-se desembargadores, e novos juízes, para ter facilidades na carreira, acabavam reproduzindo as opiniões e decisões daqueles velhos juízes. O professor Raúl Zaffaroni, da Suprema Corte Argentina, diz exatamente isso: que a maneira mais fácil de se fazer carreira é reproduzir a opinião de quem já está dentro da instituição. É o que ele chama de “comodismo crônico”. Isso faz com que o Judiciário continue sendo conservador. Ou seja: novos juízes, que poderiam representar elementos de ruptura com esse sistema, reproduzem o autoritarismo que encontram dentro do Poder Judiciário.

É interessante citar a ditadura, pois os crimes daquele tempo continuam ocorrendo...
A ditadura produziu um fenômeno interessante: a “democratização da tortura”. A tortura sempre existiu no Brasil, mas antes era voltada exclusivamente para o pobre, para o capoeira ou o negro fujão. Na época da ditadura militar, essa violência foi democratizada para a parcela da classe média que se opôs ao regime, o que deu visibilidade para a tortura. O que mais choca é que, quando ocorre a abertura política, a tortura volta a ser direcionada ao seu público preferencial, ressurgindo também o silêncio em torno do tema. A tortura é naturalizada sempre que é usada contra o pobre, contra aquele que não interessa à sociedade de consumo. Da mesma maneira, o tiro que atinge um menino da favela ou da periferia tem repercussão diferente do tiro dado na Zona Sul.

E essa diferenciação também está presente nas decisões judiciais?
Infelizmente sim. Por exemplo, isso ocorre na desqualificação do espaço público historicamente destinado às camadas populares. Já vi colegas emitirem mandados de busca e apreensão coletiva que autorizam a polícia a entrar, inclusive com o uso de força, em qualquer casa de uma favela, mesmo que nada exista de concreto contra os moradores da grande maioria dessas residências. Nunca vi um mandado desse tipo ser cumprido na Avenida Vieira Souto.

O conservadorismo da “grande mídia” contribui para o conservadorismo do poder Judiciário?
Não raro se julga para agradar a cham ada “grande mídia”, ou seja, para agradar interesses econômicos, sociais e de classe muito bem definidos. Só se pode falar em uma reforma efetiva do Judiciário se houver também o controle social dos meios de comunicação de massa, por causa dessa interferência direta de um no outro. Sobre o tema, há também muitos mitos; muitas vezes a garantia da liberdade de imprensa é distorcida para justificar crimes praticados através dos meios de comunicação de massa. Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente o processo de mobilização social na Argentina que resultou na Lei de Medios, por exemplo, sabe que o controle dos meios de comunicação proposto nada tem de censura. No Brasil, hoje, em qualquer horário do dia, tem gente defendendo tortura e violações aos direitos fundamentais na televisão, e isso é inadmissível. Os meios de comunicação de massa produzem subjetividades e cultura. Se você quer uma cultura comprometida com a democracia, não há como defender a legitimidade de programas que incentivam o ódio, a violação de direitos e a eliminação das diferenças.

E muitas vezes essas formas de controle e participação são divulgadas como censura...
A concentração da mídia é absurda no Brasil. São poucas famílias controlando muitos meios e produzindo muitas subjetividades. As grandes corporações de mídia têm as falas autorizadas: escolhem determinados “especialistas” para falar aquilo que querem que seja dito. Por mais que as novas mídias tenham disputado um pouco de espaço, ainda há um poder absurdo e sem controle nas mãos de poucos. Os meios alternativos são o espaço para se produzir um discurso contra-hegemônico. Existem blogs criteriosos, sérios, e também outros com posturas questionáveis. Mas já é positivo o simples fato de existirem espaços que divulguem essa pluralidade de ideias. O Marcelo Semer, ex-presidente da Associação de Juízes pela Democracia (AJD), foi um dos primeiros juízes a ter um blog (Sem Juízo) e a corajosamente se lançar nessa batalha por corações e mentes. Ele era um dos meus candidatos a ministro do Supremo Tribunal Federal, pois possui uma visão progressista no campo do direito e é extremamente comprometido com as lutas populares.

Como o senhor avalia a indicação do novo ministro do STF?
O [professor Luis Roberto] Barroso é um bom nome, excelente intelectual e acadêmico, mas não sei se é o homem ideal para incorporar a resistência necessária às posturas opressoras que estão em toda a sociedade, inclusive no próprio Supremo. Não sei até que ponto ele será capaz de resistir às pressões da grande mídia, por exemplo. Circula o boato de que a presidenta Dilma se convenceu de que o ministro ideal deve ser um técnico e não deve se manifestar, do ponto de vista político, sobre variados assuntos de interesse da sociedade. Para mim, isso é um tremendo equívoco, pois em nome da melhor técnica se produziram as maiores barbaridades da história do Poder Judiciário.

Um exemplo?
A decisão que não impediu a deportação da Olga Benário. Foi um caso em que o recurso à técnica foi utilizado para permitir a barbárie. Para mim, o ideal é que a sociedade conheça e que se levem em conta as posições políticas de quem vai ser indicado ao STF.

Comentários

O significado e as perspectivas das mobilizações de rua

O significado e as perspectivas das mobilizações de rua

Para João Pedro Stedile, a juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica. Assim, estão sendo disputados pelas ideias da direita e da esquerda
25/06/2013

Nilton Viana
da Redação

É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro. Essa é uma das avaliações de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre as recentes mobilizações em todo o país. Segundo ele, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. “As pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais”, afirma. Para o dirigente do MST, a redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, que soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo.
Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Stedile fala sobre o caráter dessas mobilizações, e faz um chamamento: devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil”, constata. E faz uma alerta: o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. As forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas as suas energias para ir para a rua, pois está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. “Precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo”.

Brasil de Fato – Como você analisa as recentes manifestações que vêm sacudindo o Brasil nas últimas semanas? Qual é a base econômica para elas terem acontecido?

   
   João Pedro Stedile, da coordenação do MST - Foto: José Cruz/ABr
João Pedro Stedile – Há muitas avaliações sobre por que estão ocorrendo estas manifestações. Me somo à análise da professora Ermínia Maricato, que é nossa maior especialista em temas urbanos e já atuou no Ministério das Cidades na gestão Olívio Dutra. Ela defende a tese de que há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. Houve uma enorme especulação imobiliária que elevou os preços dos aluguéis e dos terrenos em 150% nos últimos três anos. O capital financiou – sem nenhum controle governamental – a venda de automóveis para enviar dinheiro para o exterior e transformou nosso trânsito um caos. E, nos últimos dez anos, não houve investimento em transporte público. O programa habitacional Minha casa, minha vida empurrou os pobres para as periferias, sem condições de infraestrutura. Tudo isso gerou uma crise estrutural, em que as pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais. Somado a isso, a péssima qualidade dos serviços públicos, em especial na saúde e mesmo na educação, desde a escola fundamental, ensino médio, em que os estudantes saem sem saber fazer uma redação. E o ensino superior virou loja de vendas de diplomas a prestações, onde estão 70% dos estudantes universitários.

Do ponto de vista político, por que isso aconteceu?
Os 15 anos de neoliberalismo e mais os últimos dez anos de um governo de composição de classes transformou a forma de fazer política em refém apenas dos interesses do capital. Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses. Toda a juventude nascida depois das Diretas Já não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo, por exemplo, o de vereador, o sujeito precisa ter mais de um milhão de reais. O de deputado custa ao redor de dez milhões de reais. Os capitalistas pagam e depois os políticos os obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil. Mas o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. E, portanto, gerou na juventude uma ojeriza à forma dos partidos atuarem. E eles têm razão. A juventude não é apolítica, ao contrário, tanto é que levou a política para as ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado. Mas está dizendo que não aguenta mais assistir na televisão essas práticas políticas que sequestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na manipulação. E os partidos de esquerda precisam reapreender que seu papel é organizar a luta social e politizar a classe trabalhadora. Senão cairão na vala comum da história.

E por que as manifestações eclodiram somente agora?
Provavelmente tenha sido mais pela soma de diversos fatores de caráter da psicologia de massas, do que por alguma decisão política planejada. Somou-se todo o clima que comentei, mais as denúncias de superfaturamento das obras dos estádios, que é são um acinte ao povo. Vejam alguns episódios. A Rede Globo recebeu do governo do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura R$ 20 milhões do dinheiro público para organizar o showzinho de apenas duas horas do sorteio dos jogos da Copa das Confederações. O estádio de Brasília custou R$ 1,4 bilhão e não tem ônibus na cidade! A ditadura explícita e as maracutaias que a Fifa/CBF impuseram e que os governos se submeteram. A reinauguração do Maracanã foi um tapa no povo brasileiro. As fotos eram claras, no maior templo do futebol mundial não havia nenhum negro ou mestiço! E aí o aumento das tarifas de ônibus foi apenas a faísca para acender o sentimento generalizado de revolta, de indignação. A gasolina para a faísca veio do governo tucano Geraldo Alckmin, que protegido pela mídia paulista que ele financia, e acostumado a bater no povo impunemente – como fez no Pinheirinho e em outros despejos rurais e urbanos – jogou sua polícia para a barbárie. Aí todo mundo reagiu. Ainda bem que a juventude acordou. E nisso houve o mérito do Movimento Passe Livre, que soube capitalizar essa insatisfação popular e organizou os protestos na hora certa.

Por que a classe trabalhadora ainda não foi à rua?
É verdade, a classe trabalhadora ainda não foi para a rua. Quem está na rua são os filhos da classe média, da classe media baixa, e também alguns jovens do que o Andre Singer chamaria de subproletariado, que estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo, mas querem ser ouvidos. Esses últimos apareceram mais em outras capitais e nas periferias. A redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo. E o povo apoiou as manifestações. Isso está expresso nos índices de popularidade dos jovens, sobretudo quando foram reprimidos. A classe trabalhadora demora a se mover, mas quando se move afeta diretamente o capital. Coisa que ainda não começou acontecer. Acho que as organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e estão um pouco tímidas. Mas a classe, como classe, acho que está disposta a também lutar. Veja que o número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 1980. Acho que é apenas uma questão de tempo, é só as mediações acertarem nas bandeiras que possam motivar a classe a se mexer. Nos últimos dias já se percebe que em algumas cidades menores e nas periferias das grandes cidades já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas. E isso é muito importante.

Vocês do MST e dos camponeses também não se mexeram ainda...
É verdade. Nas capitais onde temos assentamentos e agricultores familiares mais próximos já estamos participando. Inclusive, sou testemunha de que fomos muito bem recebidos com nossa bandeira vermelha e com nossa reivindicação de reforma agrária, alimentos saudáveis e baratos para todo o povo. Acho que nas próximas semanas poderá haver uma adesão maior, inclusive realizando manifestações dos camponeses nas rodovias e municípios do interior. Na nossa militância está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar. Espero que também se mexam logo.

Na sua opinião, qual é a origem da violência que tem acontecido em algumas manifestações?
Primeiro vamos relativizar. A burguesia, através de suas televisões, tem usado a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra. São minoritários e insignificantes diante das milhares de pessoas que se mobilizaram. Para a direita, interessa colocar no imaginário da população que isso é apenas bagunça e no final, se tiver caos, colocar a culpa no governo e exigir a presença das Forças Armadas. Espero que o governo não cometa essa besteira de chamar a guarda nacional e as Forças Armadas para reprimir as manifestações. É tudo o que a direita sonha! Quem está provocando as cenas de violência é a forma de intervenção da Policia Militar. A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade. Há grupos direitistas organizados com orientação de fazer provocações e saques. Em são Paulo, atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro, atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja, tentando tirar seus proveitos.

PM reprime manifestação em frente ao estádio Mané Garrincha, em Brasília (DF) - Foto: Felipe Canova
Há, então, uma luta de classes nas ruas ou é apenas a juventude manifestando sua indignação?
É claro que há uma luta de classes na rua. Embora ainda concentrada na disputa ideológica. E o que é mais grave, a própria juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica. Eles estão fazendo política da melhor forma possível, nas ruas. E aí escrevem nos cartazes: somos contra os partidos e a política? Por isso têm sido tão difusas as mensagens nos cartazes. Está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. Os jovens estão sendo disputados pelas ideias da direita e pela esquerda. Pelos capitalistas e pela classe trabalhadora. Por outro lado, são evidentes os sinais da direita muito bem articulada e de seus serviços de inteligência, que usam a internet, se escondem atrás das máscaras e procuram criar ondas de boatos e opiniões pela internet. De repente, uma mensagem estranha alcança milhares de mensagens. E aí se passa a difundir o resultado como se ela fosse a expressão da maioria. Esses mecanismos de manipulação foram usados pela CIA e pelo Departamento de Estado Estadunidense, na Primavera Árabe, na tentativa de desestabilização da Venezuela, na guerra da Síria. É claro que eles estão operando aqui também para alcançar os seus objetivos.

E quais são os objetivos da direita e suas propostas?
A classe dominante, os capitalistas, os interesses do império Estadunidense e seus porta-vozes ideológicos, que aparecem na televisão todos os dias, têm um grande objetivo: desgastar ao máximo o governo Dilma, enfraquecer as formas organizativas da classe trabalhadora, derrotar quaisquer propostas de mudanças estruturais na sociedade brasileira e ganhar as eleições de 2014, para recompor uma hegemonia total no comando do Estado brasileiro, que agora está em disputa. Para alcançar esses objetivos, eles estão ainda tateando, alternando suas táticas. Às vezes, provocam a violência para desfocar os objetivos dos jovens.
Às vezes, colocam nos cartazes dos jovens a sua mensagem. Por exemplo, a manifestação do sábado (22), embora pequena, em São Paulo, foi totalmente manipulada por setores direitistas que pautaram apenas a luta contra a PEC 37, com cartazes estranhamente iguais e palavras de ordem iguais. Certamente, a maioria dos jovens nem sabem do que se trata. E é um tema secundário para o povo, mas a direita está tentando levantar as bandeiras da moralidade, como fez a UDN em tempos passados. Isso que já estão fazendo no Congresso, logo, logo vão levar às ruas. Tenho visto nas redes sociais controladas pela direita, que suas bandeiras, além da PEC 37 são: saída do Renan do Senado; CPI e transparência dos gastos da Copa; declarar a corrupção crime hediondo e fim do foro especial para os políticos. Já os grupos mais fascistas ensaiam Fora Dilma e abaixo-assinados pelo impeachment. Felizmente, essas bandeiras não têm nada a ver com as condições de vida das massas, ainda que elas possam ser manipuladas pela mídia. E, objetivamente podem ser um tiro no pé. Afinal, é a burguesia brasileira, seus empresários e políticos que são os maiores corruptos e corruptores. Quem se apropriou dos gastos exagerados da copa? A Rede Globo e as empreiteiras!

Nesse cenário, quais os desafios que estão colocados para a classe trabalhadora e as organizações populares e partidos de esquerda?
Os desafios são muitos. Primeiro devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência na luta de classes. Segundo, a classe trabalhadora precisa se mover, ir para a rua, manifestar-se nas fábricas, campos e construções, como diria Geraldo Vandré. Levantar suas demandas para resolver os problemas concretos da classe, do ponto de vista econômico e político. Terceiro, precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo. E agora são os bancos, as empresas transnacionais que tomaram conta de nossa economia, os latifundiários do agronegócio e os especuladores. Precisamos tomar a iniciativa de pautar o debate na sociedade e exigir a aprovação do projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas; exigir que a prioridade de investimentos públicos seja em saúde, educação, reforma agrária. Mas para isso, o governo precisa cortar juros e deslocar os recursos do superávit primário, aqueles R$ 200 bilhões que todo ano vão para apenas 20 mil ricos, rentistas, credores de uma dívida interna que nunca fizemos, deslocar para investimentos produtivos e sociais. É isso que a luta de classes coloca para o governo Dilma: os recursos públicos irão para a burguesia rentista ou para resolver os problemas do povo? Aprovar em regime de urgência para que vigore nas próximas eleições uma reforma política de fôlego, que, no mínimo institua o financiamento publico exclusivo da campanha. Direito a revogação de mandatos e plebiscitos populares autoconvocados. Precisamos de uma reforma tributaria que volte a cobrar ICMS das exportações primárias e penalize a riqueza dos ricos, e amenize os impostos dos pobres, que são os que mais pagam. Precisamos que o governo suspenda os leilões do petróleo e todas as concessões privatizantes de minérios e outras áreas publicas. De nada adianta aplicar todo os royalties do petróleo em educação, se os royalties representarão apenas 8% da renda petroleira, e os 92% irão para as empresas transnacionais que vão ficar com o petróleo nos leilões! Uma reforma urbana estrutural, que volte a priorizar o transporte público, de qualidade e com tarifa zero. Já está provado que não é caro, e nem difícil instituir transporte gratuito para as massas das capitais. E controlar a especulação imobiliária. E, finalmente, precisamos aproveitar e aprovar o projeto da Conferência Nacional de Comunicação, amplamente representativa, de democratização dos meios de comunicação. Assim, acabar com o monopólio da Globo, para que o povo e suas organizações populares tenham amplo acesso a se comunicar, criar seus próprios meios de comunicação, com recursos públicos. Ouvi de diversos movimentos da juventude que estão articulando as marchas que talvez essa seja a única bandeira que unifica a todos: abaixo o monopólio da Globo! Mas, para que essas bandeiras tenham ressonância na sociedade e pressionem o governo e os políticos, é imprescindível a classe trabalhadora se mover.

O que o governo deveria fazer agora?
Espero que o governo tenha a sensibilidade e a inteligência de aproveitar esse apoio, esse clamor que vem das ruas, que é apenas uma síntese de uma consciência difusa na sociedade, que é hora de mudar. E mudar a favor do povo. Para isso o governo precisa enfrentar a classe dominante, em todos os aspectos. Enfrentar a burguesia rentista, deslocando os pagamentos de juros para investimentos em áreas que resolvam os problemas do povo. Promover logo as reformas políticas, tributárias. Encaminhar a aprovação do projeto de democratização dos meios de comunicação. Criar mecanismos para investimento pesados em transporte público, que encaminhem para a tarifa zero. Acelerar a reforma agrária e um plano de produção de alimentos sadios para o mercado interno. Garantir logo a aplicação de 10% do PIB em recursos públicos para a educação em todos os níveis, desde as cirandas infantis nas grandes cidades, ensino fundamental de qualidade até a universalização do acesso dos jovens a universidade pública. Sem isso, haverá uma decepção e o governo entregará para a direita a iniciativa das bandeiras, que levarão a novas manifestações, visando desgastar o governo até as eleições de 2014. É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro.

E que perspectivas essas mobilizações podem levar para o país nos próximos meses?
Tudo ainda é uma incógnita, porque os jovens e as massas estão em disputa. Por isso que as forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas suas energias, para ir para a rua. Manifestar-se, colocar as bandeiras de luta de reformas que interessam ao povo. Porque a direita vai fazer a mesma coisa e colocar as suas bandeiras conservadoras, atrasadas, de criminalização e estigmatização das ideias de mudanças sociais. Estamos em plena batalha ideológica, que ninguém sabe ainda qual será o resultado. Em cada cidade, em cada manifestação, precisamos disputar corações e mentes. E quem ficar de fora, ficará de fora da historia.
Foto: Marcelo Camargo/ABr

Alerta Urgente 2: sugestão de reformas estruturais

O Brasil só emergirá como democracia sólida quando o governo federal (no caso Dilma Rousseff) fizer as reformas estruturais necessárias elencadas a seguir. Para tanto é necessário que haja a união e presença das esquerdas e dos movimentos populares em torno desses objetivos. Essa união deve aproveitar o momento em que a presidenta se compromete em conversar com os organizadores do Movimento Passe Livre e discutir uma agenda para melhorar os serviços públicos. As reformas são as seguintes: 1) democratização dos meios de comunicação: rever as concessões efetuadas na ditadura civil-militar que concedeu à Rede Globo e outras 3 famílias o monopólio das comunicações via jornal, tv, rádio, revistas (Veja dos Civita, por exemplo),etc. Abrir espaço para as mídias alternativas que representam os trabalhadores brasileiros e não o grande capital e parar de encaminhar dinheiro do governo federal a essas grandes mídias que não representam interesses populares e são golpistas (PIG); 2) Reforma Agrária; 3) Demarcação das terras indígenas; 4) Reforma Tributária; 4) Reforma do Judiciário cujos juízes possuem poderes vitalícios; 4)Reforma Política; 5) Sistema de cotas em todas as universidades; 6)Reforma Urbana; 7) Destinar os lucros do Pré Sal para a Educação e discutir se o investimento da Saúde sairá também daí.
Elenquei as principais reformas. Outras com objetivos verdadeiramente democráticos devem ser discutidas e colocadas em ação também. A questão da sonegação e a questão da corrupção deve ser investigada considerando o periodo de privatização do governo FHC no qual as empresas estatias foram vendidas e o dinheiro não se investiga onde está, embora saibamos que está nos offshores das Ilhas Virgens.

Márcia D´Angelo  historiadora FFLCH - USP

Solução é voltar às bases (Patrícia Benvenuti)

Solução é voltar às bases

Protestos mostram distanciamento entre partidos políticos e população

28/06/2013

Patrícia Benvenuti,
da Redação

Entender o turbilhão de manifestações que tomaram conta do país nas últimas semanas não será uma tarefa fácil. Para os partidos de esquerda, o desafio deverá passar pela elucidação das novas formas de organização, que têm na internet seu principal catalisador.
Para o professor de Literatura Latino-americana da Universidade de Tulane (EUA) Idelber Avelar, os recentes acontecimentos mostraram que há um descompasso entre a realidade das ruas e a burocracias partidárias. Segundo ele, os partidos falharam em perceber a força do movimento que surgia junto com as mobilizações do Movimento Passe Livre (MPL). “As burocracias partidárias, principalmente a do PT, erraram no cálculo, e aí depois começaram a bater cabeça e tentar correr atrás do prejuízo”, afirma.
No caso específico do Partido dos Trabalhadores, o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Laurindo Leal Filho analisa que um dos principais erros é a falta de diálogo com a sociedade. De acordo com ele, a solução para esse problema passa pelo retorno dos partidos a suas bases. “É fundamental que os partidos políticos de esquerda voltem para suas bases, abram canais de participação e estimulem o debate político. E que também pressionem o governo a abrir esse debate com a sociedade”, propõe.
O membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) Valter Pomar compartilha das críticas. Para ele, o distanciamento das organizações com o cotidiano da população potencializa um sentimento antipartidário, que se tornou comum durante os protestos das últimas semanas. Mais do que combatida, essa rejeição precisa ser analisada em seus significados. “No caso do PT, é um alerta: ou mudamos de política e de conduta ou parcelas crescentes da população vão nos jogar na vala comum”, garante.
Não basta, porém, levar aos jovens à estrutura burocrática dos partidos, como adverte o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador de redes digitais Sérgio Amadeu. “É um movimento de microlideranças, de solidariedade de vários grupos. Não adianta ter apelo de autoridade”, avisa o especialista, que vai além: “O que precisa é ter disposição de diálogo, conversar em rede, inclusive sinalizar com propostas que possam atender aos interesses desses jovens”.
Preocupado com o avanço dos setores de direita nas manifestações, o jornalista e presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, acredita que os partidos podem, agora, ajudar a combater a ameaça conservadora. Segundo ele, o momento é oportuno para que as siglas de esquerda e o governo se unam em prol de reformas estruturais. “As manifestações mostraram um descontentamento da sociedade brasileira? Sim, então vamos mais à esquerda, vamos promover mais mudanças no Brasil”, recomenda.
Foto: Marcelo Camargo/ABr