quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Tales Faria: PF teria áudios de Delcídio falando com Ministros do STF. É o estado policial POR FERNANDO BRITO · 26/11/2015 - Tijolaço

Tales Faria: PF teria áudios de Delcídio falando com Ministros do STF. É o estado policial

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O colega Tales Faria, que conheci quando ainda trabalhava do Rio, no JB e na Folha, publica uma nota em sua coluna no site Fato Online. Sempre o tive na conta de bom repórter o que torna gravíssimo o que ele diz: que a Polícia Federal tem gravações de conversas entre Delcídio Amaral e ministros do Supremo Tribunal Federal:
Além da gravação da reunião de Delcídio com Bernardo Cerveró mencionando encontros com ministros do Supremo, a Polícia Federal também tem escutas telefônicas do senador, um material que permanece secreto. Nesses telefonemas, Delcídio estaria de fato conversando com os ministros do Supremo Tribunal Federal.Ironicamente, o teor dessas conversas foi obtido por escuta autorizada pelo próprio STF, que investigava Delcídio.
Se é verdade ou não, não se pode afirmar. Mas se pode afirmar que, a esta altura, ninguém mais duvida que isso possa ter acontecido.
E que, gravada, qualquer conversa, mesmo que não tenha nada de extraordinário, como um pedido de atenção maior a um processo ou um argumento ou ponderação, ainda que em tese, presta-se a colocar sob suspeita qualquer decisão de um ou mais ministros grampeados.
Bastaria que um policial ou um promotor se revolvesse a vazá-la.
E, de novo, já ninguém duvida que haveria vários capazes de fazê-lo, e a prova é que a minuta da delação premiada de Nestor Cerveró foi encontrada nos escaninhos do banqueiro André Esteves.
Talvez seja esta a razão de o Supremo estar agindo da maneira que está fazendo.
O Estado policial faz várias  vítimas, entre elas a independência do Judiciário, que deu, como diz o povão, “asa a cobras”.
Se fossem só seus integrantes os picados por elas, menos mal. Mas isso é veneno mortal para a democracia.
Delcídio Amaral é um rato, isto está claro.
Mas parece que o “chumbinho” envenenou mais gente.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Como uma gravação ajudou os Ministros do STF a não serem acusados na Lava-Jato POR FERNANDO BRITO · 25/11/2015 - Tijolaço

Como uma gravação ajudou os Ministros do STF a não serem acusados na Lava-Jato

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Se não houvesse a providencial gravação feita pelo filho de Nestor Cerveró das conversas do advogado seu pai com Delcídio Amaral e André Esteves (gravação que, aliás, podem ter sido sugeridas pelos que negociaram sua delação premiada) poderíamos estar vivendo uma situação absolutamente esdrúxula.
Afinal, se a delação fosse de tudo o que sabia, Cerveró poderia ter dito que seu advogado ouviu de ambos que os ministros Teori Zavascki e Dias Toffoli já tinham sido “conversados”, que Luiz Fachin seria e o mesmo ocorreria com Gilmar Mendes, por obra de Renan Calheiros e Michel Temer.
No método do “ouvi dizer”, seria o suficiente para a Veja, por exemplo, publicasse uma capa escandalosa, com a foto dos dois ministros, na base do “Eles Sabiam de Tudo”.
A sorte de Suas Excelências é que havia a fita, ela não “vazou” para a imprensa e eles tiveram condições e poder para mandar prender os envolvidos.
Mas se nem eles escapariam da soma de vazamentos seletivos e acusações na base do “fulano falou que”, imagine os meros mortais estão sujeitos?
Agora, imaginem que isso fosse colocado dentro de um contexto que envolvesse a decisão de Teori Zavascki em “fatiar” a Lava Jato.
“Delator diz que Ministro que fatiou Lava-Jato teria prometido habeas-copus a Cerveró”.
Exemplo prático de como a jurisprudência do  “o delator falou” é perigosíssima.
O que vale são as provas, como a gravação. Que ainda carece de informações sobre como e por sugestão de quem foi feita, embora ainda assim siga sendo prova contundente.

Com prisão de senador, Judiciário amplia poderes na república 25/11/2015 Miguel do Rosário para O Cafezinho

Com prisão de senador, Judiciário amplia poderes na república

Delcidio-Amaral
A prisão do senador Delcídio Amaral, líder do governo na Casa, tem implicações políticas e jurídicas gravíssimas.
A principal implicação política é reacender a instabilidade parlamentar que o governo havia conseguido resolver.
A situação na Câmara caminhava para a normalidade. No Senado, nunca fora tão tranquila. Até o Direito de Resposta passou, para desespero da mídia, que passou a usar seus fantoches, incluindo o próprio juiz Sergio Moro, para atacá-la.
Houve ao menos um avanço. Pela primeira vez, uma prisão da Lava Jato é feita com base em provas. Há gravações contra ele. E gravações que mostram o senador tentando sabotar a investigação para salvar a pele.
Mas não deixa de ser um golpe: porque o certo seria chamar o senador para depor e fazer primeiramente uma acusação formal.
De qualquer maneira, nenhum ministro do STF tem coragem de se opor a este novo Leviatã: a mídia perdeu audiência, mas ampliou seu poder político, porque o seu poder de destruir reputações, neste mundo fortemente midiatizado, nunca foi tão forte.
O governo Dilma, desde o início da primeira gestão, em 2010, abandonou qualquer esforço para criar uma plataforma de comunicação minimamente independente.
Dilma não falava e não tinha porta-voz. E todas as crises eram resolvidas com demissões sumárias de ministros. Era o tempo da "faxina".
O silêncio oficial foi se agravando e pode ter sido um dos motrizes das chamadas "jornadas de junho" de 2013.
As pessoas queriam ouvir o governo.
O diálogo com a população foi recriado artificialmente durante a campanha de 2014, mas apenas para ser novamente abandonado, de maneira brusca, logo após as eleições.
Resultado: um declínio brutal da aprovação da presidenta, que resultou em fragilidade política do governo, com reflexos negativos sobre a economia.
Com o avanço das conspirações judiciais, que encontram fatos verdadeiros de corrupção e tem um terreno fértil para trabalhar (seu problema é o seletivismo que promove), o governo novamente optou pelo silêncio e pelo recuo político sistemático.
O governo permaneceu sem porta-voz. Dilma desistiu de falar no dia do trabalhador, alegando que iria se comunicar mais pela internet. Não fez uma coisa nem outra.
O discurso político do governo não trouxe nenhuma inovação, ignorando a mudança do cenário e do clima político. Dilma apenas aparece em inaugurações de casas populares, sem promover nada de novo em matéria de investimento em pesquisa, em novas tecnologias, em comunicação, em educação superior.
A presidenta decidiu dar uma entrevista ao Jô Soares, que ninguém mais assiste, às três horas da manhã, onde se recusou a falar de mídia, o assunto mais importante em política hoje em dia.
O ambiente político foi se deteriorando de maneira avassaladora ao longo do ano.
Nas últimas duas semanas, contudo, houve uma trégua. O governo passou a ganhar quase todas as votações. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, caiu em desgraça, dificultando as articulações para o impeachment.
Mas o governo, sem um discurso político, ainda vive situação de risco. Não há uma estratégia de comunicação eficiente, o que deixa a administração com uma pele muito fina e frágil. Qualquer fato pode deteriorar a crise política.
O governo não dialoga sequer com sua própria base parlamentar, nem com seu partido.
Foi salvo do impeachment por manifestações duras de agentes econômicos, inclusive estrangeiros, preocupados com o cenário de instabilidade e descontrole que poderia advir de uma ruptura.
O golpe então se transladou para a Operação Lava Jato, onde o juiz Sergio Moro ganhou superpoderes, provados agora com a prisão de um senador da república.
Não vou entrar no mérito da prisão. Delcídio Amaral é um político do PSDB, que migrou para o PT no momento em que o PT vivia o auge de sua glória, em algum momento dos anos 2000. Deve estar profundamente arrependido desta decisão. Se continuasse no PSDB, dificilmente estaria preso.
Se aceitarmos que as acusações contra Delcídio são baseadas em provas, ele deveria ser sofrer um processo justo, conduzido com serenidade, por um juiz isento, com direito a todos os recursos.
A mesma coisa vale para o dono do BTG, o banqueiro Andre Esteves. Se há provas contra ele, que seja processado e condenado. Sua prisão preventiva, porém, também é política: ajuda a consumar do processo de destruição da Sete Brasil, o sonho brasileiro de ser independente em matéria de produção de sondas para o pré-sal.
Falta agora terminar de destruir a Odebrecht e a Petrobrás.
Se pudessem, os artífices do golpe hondurenho destruiriam todas as grandes empresas nacionais estratégicas, com exceção dos bancos, intocáveis por razões óbvias.
O importante é destruir a soberania.
A implicação jurídica - que também é política - mais importante da prisão do senador é que o Judiciário no Brasil assumiu o poder de facto da república - e trabalha com incrível competência para nos transformar novamente em colônia norte-americana.
O STF não tem força moral, nem vontade, de impedir esse processo de empoderamento do Judiciário, nem de arrostar a avalanche linchatória que vem da mídia e da manipulação do sentimento de vendetta do população contra a classe política.
As esperanças de que o STF pusesse um freio nos arbítrios da Lava Jato acabam de levar um balde de água fria.
Em The Federalist, escrito por alguns dos fundadores da democracia americana, um deles explica a importância do conceito de check and balances. A característica principal do poder é o "encrouchment". Ou seja, ele tende a crescer, indefinidamente, até ser impedido por outro poder.
É o que acontece com o Judiciário brasileiro. Em virtude das circunstâncias históricas nacionais, o aumento do poder do Judiciário beneficia o conservadorismo, porque o Judiciário é um poder essencialmente conservador, herdeiro do autoritarismo típico das elites brasileiras.
A prisão de Delcídio coroa o golpe hondurenho.
Em Honduras, o STF prendeu o presidente. No Brasil, o STF prendeu um senador, líder do governo. É o que puderam fazer aqui.
A prisão de Delcídio tem o sentido de um atentado terrorista do Estado Islâmico de Sérgio Moro: visa intimidar os partidos e as forças políticas, jogando-os contra o governo e contra o PT, até mesmo por desejo de sobrevivência.
Delcídio Amaral é uma figura politicamente desprezível. Mas é um senador, que poderia ser preso apenas em flagrante. O STF se reuniu há pouco e chancelou a decisão de mantê-lo preso, mesmo sem a prisão em flagrante. Ou seja, houve uma violação da constituição, praticada por aqueles mesmos que deveriam ser o último bastião em sua defesa!
Os seres humanos são cobaias de seu próprio destino histórico. A debilidade política do poder executivo, incapaz de vir à público para fazer o embate político diário, permitindo que a mídia promova, livre e desimpedida, um massacre diário em todos os campos da política e da economia, deixa o campo aberto para que os adversários avancem.
É um tanto chocante ainda a ausência, por parte do governo, de qualquer sistema de inteligência, que pudesse evitar esse tipo de crise.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi sucateada no governo Dilma. Se houvesse um pouco de inteligência, a presidência poderia ser alertada da prisão iminente do senador, e trocado a liderança do governo, evitando este desgastante processo de instabilidade, que deverá durar até o fim do ano.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

FECHAMENTO DE ESCOLAS 'Reorganização é parte de plano privatista', diz diretor da Faculdade de Educação da Unicamp - Rede Brasil Atual

FECHAMENTO DE ESCOLAS

'Reorganização é parte de plano privatista', diz diretor da Faculdade de Educação da Unicamp

Luiz Carlos Freitas diz que, longe de ser 'trapalhada impensada' do secretário da Educação, Herman Voorwald, projeto de Geraldo Alckmin (PSDB) destrói a escola pública e não vai trazer avanço
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 24/11/2015 19:47, última modificação 24/11/2015 19:54
ROBERTO PARIZOTTI/CUT/FOTOS PÚBLICAS
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São Paulo – Com o argumento de melhorar a qualidade da educação, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) vai fechar mais de 90 escolas, reorganizar em ciclos metade da rede e implementar escolas de tempo integral na outra metade. Tais objetivos, que constam do Plano Estadual de Educação, nada têm de pedagógico, segundo o professor Luiz Carlos de Freitas, diretor da Faculdade de Educação da Unicamp.
De acordo com ele, a estratégia 6.7, que trata do Ensino em Tempo Integral, indica as intenções privatistas do governo: estimular, em regime de colaboração, a apropriação dos espaços e equipamentos públicos e privados, articulando ações entre esses e as escolas, de forma a viabilizar a extensão do tempo de permanência do aluno em atividades correlacionadas ao currículo – daí a necessidade de escolas de ciclo único.
Para Freitas, que juntamente com outros professores da Unicamp assinou moção de repúdio contra a reorganização, Alckmin aposta na privatização da educação como algo inovador, capaz de resolver os problemas, com vistas a 2018, quando pretende disputar a Presidência da República.
"No entanto, políticas semelhantes adotadas em outros países pelos reformadores empresariais da educação não resolveram a questão da educação por lá", afirma Freitas. Nos Estados Unidos, conforme diz, há dez anos as médias dos estudantes americanos patinam em avaliações internacionais como o Pisa (sigla em inglês paraPrograma Internacional de Avaliação de Estudantes), uma avaliação aplicada a alunos na faixa dos 15 anos, em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
"Do mesmo modo, a Suécia e a Austrália, que privatizaram, caíram no Pisa. O Chile está dando marcha a ré nessas políticas que destroem a escola pública e não produzem avanço. Portanto, não resolverá aqui também."
Por que privatização requer escolas reorganizadas? Não é possível terceirizar sem reorganizar?
Não é só pela terceirização que a privatização pode ser conduzida. A experiência norte-americana mostra que pode ser pela terceirização da gestão propriamente dita, via concessões, passando pela oferta de vouchers (recursos dados diretamente aos pais para que escolham as escolas de seus filhos), sistemas de ensino apostilados, pagamento por bonificação, redução do tamanho das escolas (downsizing) maiores em escolas menores, fechamento e reorganização.
Em São Paulo, a privatização já vem sendo implementada há algum tempo no ensino médio através do modelo de escola de tempo integral do Instituto de Corresponsabilidade Educacional, que conduziu método semelhante em Pernambuco. Quem paga esta conta são empresários paulistas. Agora, há a segunda etapa de reorganização das escolas. A primeira foi em 1995, que fechou cerca de 150 escolas. Processo semelhante foi conduzido pela prefeitura da Cidade de Nova York no início dos anos 2000 associado à crescente terceirização das escolas, com financiamento de Bill Gates. O empresário investiu US$ 2 bilhões na ideia do "downsizing" de escolas. Como os resultados não corresponderam ao esperado, ele cessou a linha de apoio.
E aqui?
Nas atuais condições do estado, com o sistema empacado há mais de uma década, o governo Alckmin vai caminhar nesta direção. Afinal, o governador é candidato à Presidência da República em 2018 e tem de chegar lá com algum diferencial na área. O governo chegou a divulgar um documento simplório que seria a base do processo de reorganização. Apesar de o documento ter a ver com a reorganização, entendo que não revela todo o plano que está em curso. Quem tem o plano são as consultorias privadas Mckinsey e Falconi, que assessoram o governo e são pagas por empresários.
O ensino integral de Alckmin teria intenção meramente privatista?
O projeto escola integral é um processo de privatização apoiado pelo empresariado sob condução do Instituto de Corresponsabilidade Educacional que cuidou da implantação de uma experiência de escolas charters em Pernambuco. Ele está no Ceará também. Reorganizar as escolas é alicerçar a casa para novos passos, como “escolha da escola pelo aluno”, apoiado em vouchers, terceirização de gestão via charters, ou ambos.
É possível ainda que as escolas que o governo diz que são sediar escolas técnicas venham a ser transferidos para a iniciativa privada ou ONGs, para cursos de qualificação profissional, muito semelhante à Magnet School, dos Estados Unidos. Elas nasceram para tentar reduzir a brecha entre estudantes ricos e pobres. No entanto, esta linha seria paralela à privatização do ensino médio em si.
Essa articulação com o setor privado precisa de espaço para ser concretizada, já que esses atores não vão construir escolas. Daí a reorganização, que combina municipalização com “fechamento” de escola, ou seja, mudança da finalidade da ocupação do prédio. As escolas “fechadas” acolheriam os cursos técnicos de ONGs.
É comum fechar escolas?
Nos Estados Unidos as escolas são fechadas às dezenas, por não atingirem metas especificadas. Não vejo como ser feito isso neste momento em São Paulo. Mas a médio prazo isso também poderia ser um dos desdobramentos que alimentaria tanto a terceirização via charters (escolas públicas administradas por entidades privadas), como a própria eliminação de escolas, com venda de prédios e redução de custos. Em Nova York, as escolas charters ocupam prédios de escolas que foram “fechadas”. Somente agora, o atual prefeito está obrigando-as a pagar aluguel. E lá, como o mercado já está constituído, há ONGs com fins lucrativos – ganham duas vezes, primeiro cobram o custo-aluno do governo e segundo não pagam aluguel.
Até onde vai o domínio das empresas sobre a educação?
No currículo. A flexibilização curricular é também proposta, pois abre mais espaço para as parcerias com o setor privado, que passam a atingir diretamente as atividades correlacionadas ao currículo. A lógica empresarial passa a orientar ainda mais a organização da escola. Não à toa, a meta 22, do Plano Estadual de Educação apresentado pelo governo, que dispõe sobre a implementação do “novo modelo de ensino médio, com organização curricular flexível e diversificada” assume todo o linguajar empresarial, colocando como meta para o ensino médio, garantir “acesso ao conhecimento como instrumento para a cidadania, o desenvolvimento de competências e habilidades, necessárias ao prosseguimento de estudos e que favoreçam a empregabilidade”.
Existe a possibilidade de professores da rede paulista virem a ser contratados por meio de OSs?
A questão dos professores deverá passar por uma completa reformulação nos próximos anos, na esteira dos processos de privatização. Primeiro, há o fator terceirização, ou seja, a contratação passaria a ser feita pela terceirizada e com isso o estado se desentende do assunto. Depois, o próprio estado deverá caminhar para a criação de uma carreira paralela e talvez optativa que seria oferecida aos professores, mas com contrato CLT e portanto sem estabilidade. Essas políticas acreditam que a estabilidade no emprego é nefasta, pois contraria a lógica do mercado baseada no mérito.
O governo não vê os professores como parte da solução. Para ele, os professores são o problema. Portanto, acredito que serão duramente atingidos por essas políticas. Com a contratação de sistemas de ensino privados para as escolas públicas, a tarefa do professor tenderá a ser redesenhada para menos, como uma espécie de um “instrutor” de sala de aula, seguidor de apostilas. Para esta função, você não precisará de professores superformados. Na outra ponta, é possível que se caminhe no Brasil para o formato de certificação de professores via provas do tipo OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Isso flexibilizaria as agências formadoras de professores que hoje se encontram concentradas nas faculdades e universidades. É um processo lento de destruição do magistério e da escola pública.
O fechamento é, então, a ponta do iceberg. Que futuro o sr. vislumbra caso prevaleça esse projeto?
Toda esta política já foi utilizada em outros países pelos reformadores empresariais da educação e não resolveu a questão da educação por lá. Os Estados Unidos estão na média do Pisa há dez anos e não saem daí. Na "Prova Brasil" deles, pela primeira vez em muitos anos, as médias caíram em quase todas as avaliações e anos. A Suécia privatizou e caiu no Pisa. A adoção de políticas similares na Austrália resultou em queda no PISA. O Chile está dando marcha ré nestas políticas. Essas políticas destroem a escola pública e não produzem avanço. Portanto, não resolverá aqui também. Perderemos uma ou mais décadas para depois voltarmos ao ponto inicial, ou seja, ao que temos hoje piorado, pois teremos deixado de apostar em outras vias que poderiam nos levar mais longe.
O que acha de haver resistência?
No início, não creio que haverá uma resistência organizada dos professores e alunos a essas políticas, embora possamos nos surpreender. É o que está ocorrendo com a reorganização nas escolas hoje, que já conta com mais de 100 ocupadas. Mas à medida que essas políticas vão sendo implantadas, elas vão produzir efeitos (conhecidos) que gerarão a própria reação a elas. Esta reação virá dos estudantes, pais, professores e até mesmo de gestores. Elas abrirão novas contradições nas redes às quais mobilizarão as pessoas em defesa da escola pública de gestão pública. Uma dessas reações é o boicote que só neste ano no estado de Nova York levou mais de 200 mil pais a retirarem seus filhos das avaliações de larga escala.
Então as chances de recuo do governo frente às ocupações são mínimas?
Tenho dúvidas se o governo vai recuar. Está em jogo 2018. Alckmin não pode chegar lá sem nada. Além disso, a Secretaria de Educação está cercada pelos empresários que querem a adoção dessas políticas. Note que na negociação com os estudantes, Herman (Voorwald), o secretário de Educação, disse que levaria a demanda dos alunos “para o governador”. Ou seja, a questão é de Estado para Alckmin e só ele poderia ordenar um recuo. Já não é o secretário que está conduzindo a implantação. Tudo depende do crescimento do movimento estudantil e do desgaste imposto ao governo.
Qual será o destino das ocupações?
Uma das maneiras que o governo poderá usar é enfrentar os estudantes e deixar que se desgastem nas escolas ocupadas e ir fazer a reorganização com aquelas cidades que não tenham ocupação de escolas. A tentativa de reintegração de posse parece que não está funcionando junto aos Tribunais e geraria um custo político muito grande, penso.
As consultorias que estão assessorando o governo devem tê-lo alertado de como este processo foi feito em outros países e das reações que apareceriam. Nada do que está acontecendo está sendo exatamente uma surpresa para o governo. Não deve ser visto como uma “trapalhada” do secretário de Educação, impensada. Há um plano, e ele é organizado pelas consultorias privadas que assessoram a secretaria, pagas por empresários.

O que precedeu os ataques do estado islâmico na França por Moon of Alabama

O que precedeu os ataques do estado islâmico na França por Moon of Alabama

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Marcia D'Angelo

Marcia D'Angelo marcia.dangelo19@gmail.com

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O que precedeu os ataques do estado islâmico na França


por Moon of Alabama


Eis o que aconteceu dia 13 à noite: pelo menos 120 mortos nos ataques em Paris, Hollande decretou o estado de emergência.

Homens armados e bombistas atacaram restaurantes, uma sala de concertos e um estádio desportivo, em vários locais em Paris, sexta-feira, fazendo pelo menos 120 mortos, num ímpeto assassino que o presidente François Hollande, muito comovido, qualificou como um ataque terrorista sem precedentes. 

O estado islâmico reivindicou o ataque .

Mas quem tem fornecido armas e financiado o Estado islâmico ou as organizações precedentes que na Síria e no Iraque lhe deram origem? Vejam vós mesmos.

Em 2012 - Hollande admite que armou os rebeldes sírios em violação do embargo existente .



"O Presidente francês reconheceu ter entregado armas aos rebeldes sírios durante o embargo da UE, segundo um livro que será lançado em breve em França.

As entregas tiveram lugar em 2012, antes de se ter posto fim ao embargo em maio de 2013, admitiu François Hollande aquando a sua última entrevista desse ano com o jornalista e escritor Xavier Panon. "Começámos a entregar (as armas) quando tínhamos a certeza de que iam parar a boas mãos. Quanto às armas letais, foram os nossos serviços que as entregaram", disse Hollande ao escritor...



Outubro de 2012 - Na Síria, parece serem os jihadistas que se aproveitam das armas entreges aos rebeldes


"WASHINGTON - A maior parte das armas enviadas a pedido da Arábia Saudita e do Qatar para grupos de rebeldes sírios que lutam contra o governo de Bashar al-Assad acabam nas mãos de jihadistas islâmicos radicais , e não nos grupos de oposição laicos, que o Ocidente quer reforçar, de acordo com responsáveis americanos e diplomatas do Médio Oriente.


Dezembro de 2012 - A França financia os rebeldes sírios num renovado esforço para expulsar Assad .


"A França se tornou-se o mais importante financiador da oposição armada síria e financia diretamente os grupos rebeldes em torno de Alepo, no quadro de um esforço renovado para derrubar o assediado regime de Assad. No mês passado grandes somas de dinheiro foram transferidas por representantes do governo francês, através da fronteira com a Turquia, para os comandantes rebeldes, de acordo com fontes diplomáticas. O dinheiro foi usado para comprar armas para o interior da Síria e financiar operações contra as forças lealistas.


Agosto de 2014 - Hollande confirma que a França entregou armas aos rebeldes sírios .


"O Presidente que Francois Hollande declarou quinta-feira que a França tinha entregado armas aos rebeldes que lutam contra o regime sírio de Bashar al-Assad, "há alguns meses."


Novembro de 2015 - Murad Gazdiev @MuradoRT


"O lançador de rockets francês APILAS fornecido para aos rebeldes sírios cai nas mãos do ISIS. Fotos de Deraa, no sul da Síria. 12h09, 6 novembro 2015


Junho de 2014 - 'Graças a Deus pelos sauditas': ISIS, Iraque e a volta no enredo .


"As duas fações que obtêm melhores resultados contra as forças de Assad, são dois grupos extremistas islâmicos: Jabhat al-Nusra e o estado islâmico no Iraque e Síria (ISIS), este último ganha atualmente terreno no Iraque e ameaça desestabilizar ainda mais toda a região. E este sucesso é, em parte, devido ao apoio que estes dois grupos receberam de dois países do Golfo: o Qatar e Arábia Saudita. 
Jabhat al-Nusra tem beneficiado de tal maneira das generosidades militares e económicas do Qatar que um importante oficial do Qatar disse-me que podia reconhecer os comandantes al-Nusra pelos blocos de casas que controlam nas várias cidades sírias. Mas ISIS, é outra coisa, como afirmou um importante responsável do Qatar: "ISIS é desde o início um projeto saudita."
A França aproveitou-se desse apoio ao projeto dos EUA e wahhabita de mudança de regime na Síria e no Iraque:



Abril de 2015 - A França e o Qatar fecham um acordo no montante de 7 mil milhões de dólares para caças Rafale .


"O Qatar concordou em comprar 24 caças Rafale construídos pela Dassault por 6,3 mil milhões de euros, anunciou, quinta-feira, o governo francês. Este estado do Golfo Pérsico visa aumentar o seu poder militar numa região que se torna cada vez mais instável.


http://resistir.info/franca/imagens/hollande_asaudita.jpgJunho de 2015 – A Arábia Saudita e a França concluem um contrato de 12 mil milhões de dólares


Arábia Saudita e a França assinaram quarta-feira, um acordo de comércio de 12 mil milhões de dólares, disse o Ministro dos negócios estrangeiros Saudita, Adel Al-Jubair durante a histórica visita do vice-príncipe herdeiro Salman bin Mohammed a Paris. Mesmo depois de se ter tornado evidente para todos que o projeto de mudar o regime na Síria favoreceria a expansão do terrorismo, Hollande continuou a exigir o fim do Estado sírio .


Septembre 2015 - François Hollande diz que Assad deve partir


"O Presidente Francois Hollande disse segunda-feira na Assembleia Geral das Nações Unidas, que o seu país iria "assumir as suas responsabilidades" no esforço mundial para acabar com os combates na Síria, mas que o conflito não poderia ser resolvido sem o presidente Bachar al-Assad ser destituído do poder.


Irá agora Holland mudar de discurso?


Ver também:








·  Exploiting Emotions About Paris to Blame Snowden, Distract from Actual Culprits Who Empowered ISIS

O original encontra-se em 
www.moonofalabama.org/... 
e a versão em francês em www.legrandsoir.info/... . Tradução de DVC. 

Esta compilação encontra-se em http://resistir.info/ .
Clique aqui para Responder ou Encaminhar

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Argentina ensina a legitimidade da eleição aos nossos golpistas - Fernando Brito para Tijolaço

A Argentina ensina a legitimidade da eleição aos nossos golpistas

amanha
O candidato da direita, Mauricio Macri ganhou a eleição argentina.
O seu competidor governista, Carlos Scioli, não esperou o final da apuração para reconhecer a derrota, embora esta ainda não fosse matematicamente irreversível, mas politicamente definida.
Muito menos o esperou a Presidenta Cristina Kirchner para cumprimentar o vitorioso e convida-lo a uma reunião de trabalho, amanhã.
Tudo normal, civilizado, democrático, apesar de dizerem que o governo argentino era autoritário, antidemocrático, bolivariano y otras cositas más.
Mesmo que a vitória de Macri tenha sido por meros 1,8% de diferença, ou 700 mil votos, e e ninguém questiona por isso a sua legitimidade.
Aqui, há um ano, a diferença foi quase o dobro, percentualmente: 3,28% dos votos. Numericamente, quase 3,4 milhões de eleitores, cinco vezes aquela diferença.
Obvio que haverá disputa política entre o novo regime e o peronismo, derrotado.
Mas não tem ninguém se proclamando “presidente da metade dos argentinos”.
Aliás, só quem está reclamando de fraude é quem ganhou, como a ex-deputada Elisa Carrió, uma das líderes do “macrismo”.
A horas que se seguem a uma eleição não são de debate político, mas de reverência à vontade dos eleitores.
Quem sabe, embora haja poucas esperanças disso, a direita brasileira possa aprender com a esquerda argentina – aquela, peronista, bolivariana, antidemocrática, arcaica – como se respeita a maior das instituições democráticas: o voto da população.
Ps. Gosto de ter esperanças na inteligência humana, mas anda difícil. O furor dos coxinhas nacionais, que não conseguem enxergar um milímetro além do ódio, mostra isso em vários comentários. O negócio é seguir em frente e mostrar como essa turma se afoga em sua própria bílis. A minha geração sabe o quanto esperamos por eleições livres e o valor que damos a elas. O “democratas” da direita, ao contrário, nem mesmo conseguem comemorar suas vitórias, preferem falar da derrota alheia.

Justiça nega liminar a Alckmin para desocupar escolas. Sem a força, resta o diálogo - Fernando Brito para Tijolaço

Justiça nega liminar a Alckmin para desocupar escolas. Sem a força, resta o diálogo

escolas
O Tribunal de Justiça de São Paulo recusou o pedido do Governador Geraldo Alckmin para ser reintegrado na posse das 100 escolas  ocupadas por estudantes paulistas em protesto contra a decisão de fecha-las.
A pergunta é: porque o Governo paulista não abre uma discussão sobre a racionalização da rede?
É evidente que nem alunos nem professores serão contra um avanço no funcionamento das escolas, separando-as por ciclos – fundamental e médio – ou a irem para outros prédios, em condições melhores e com mais equipamentos.
Quem sabe, até, com o remanejamento, abrindo a possibilidade para que algumas passem a funcionar em horário integral, como são as melhores escolas do mundo rico?
Agora, quando um governo que é tão pródigo em anunciar a construção de novos e modernos presídios não se dispõe a fazer um programa de reorganização da educação que não preveja ampliação, melhorias ou mesmo construção de novos prédios escolares, mais adequados a uma atenção integral às crianças e jovens não dá para dizer que o protesto é um exagero.
Não é preciso ter nada, senão um mínimo de bom-senso, para saber que não se pode fazer “no tranco”, e de uma só vez, mudanças que implicam no remanejamento de 311 mil alunos e 74 mil professores. E sem oferecer nada em melhorias para isso, além do mais.
Sem ordem judicial para enfiar a PM nas escolas, o Governo Alckmin terá de partir, depois de radicalizados os ânimos, para o lugar onde deveria ter começado: o diálogo.
Um contrassenso, a menos que seja algo deliberado, para avançar na privatização do ensino, porque é esperado que, com a transformação em caos da escola pública, a “organização” do ensino privado acaba por atrair pais que “podem” (enforcando suas contas, claro) pagar pela educação de seus filhos.
Porque é uma incrível coincidência que o problema de São Paulo esteja se repetindo no Paraná e, de outra forma, em Goiás, que pretende entregar a “organizações sociais” a administração de parte de sua rede escolar. Todos governos do PSDB.
É insano, mas neste país de tanta insanidade, não é impossível.