segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Publicado em 26/01/2015
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim

Grécia recomeça
com a Ley de Medios

Só depois de o desemprego entre jovens chegar a 50% o PT vai fazer a Ley de Medios​.
novo Governo grego do partido de esquerda Syriza se elegeu com os compromissos do “programa de Salônica”, lançado na cidade de Salônica em setembro passado.

É uma “Carta aos Brasileiros” do Lula, de 2002.

O líder Alexei Tsipras se comprometeu a repudiar os termos dos acordos da Grécia com os bancos – especialmente alemães: “a austeridade ficou pra trás”, disse ele ao comemorar a vitória.

A dívida grega equivale a 174% do PIB.

A tentativa de pagar a dívida provocou desemprego em massa.

Entre jovens ultrapassa 50% – assim como na Espanha, onde um Governo também conservador aplica um programa do gênero Joaquim Levy e corre o risco de perder a próxima eleição para um partido jovem, de esquerda, o Podemos.

O programa de Salônica prevê:

- um Luz para Todos, especialmente nas casas que não tem como pagar pelo aquecimento no inverno;

- construção de moradias para os sem teto;

- aumentar o salário mínimo;

- reduzir o imposto dos pobres e da classe média;

- subsidiar a compra de comida e o transporte;

- ampliação do alcance da Saúde Pública.

E um capítulo muito interessante, que deveria merecer a atenção do Ministro Berzoini:

- refundar o sistema publico de televisão e audio-visual que foi canibalizado pelos neolibelês que o antecederam.

“Para promover a defesa do pluralismo e da qualidade, o serviço aos cidadãos, e ao espírito de equidade e probidade, sob a experiência do jornalismo militante dos últimos anos.”

As empresas privadas de telecomunicação – as Globo de lá – serão submetidas à lei (porque lá como aqui, a Globo não cumpre a Constituição, a de 1988). Da mesma forma, as concessões, as mudanças de controle acionário e a fiscalização seguirão a lei do pais !

Que horror !

4c. Nous allons retracer la carte des médias d’information en Grèce.

Nous allons refonder l’audiovisuel public grec – sous le label ERT supprimé par le gouvernement actuel et qui sera rétabli – en défendant le pluralisme et la qualité, le service des citoyens, l’esprit d’équité et de probité, en nous inspirant des expériences du journalisme militant des dernières années. Nous renforcerons aussi  les médias d’information locaux.

En ce qui concerne les médias d’information privés ils seront soumis aux obligations prévues par la loi auxquelles ils ont longtemps échappé grâce aux passe-droits accordés. Il en sera ainsi des licences, des cotisations sociales, de la fiscalité.

Navalha
O Brasil vai precisar quebrar, a juventude vai ter que se submeter a um desemprego de 50% para o Governo trabalhista fazer uma Ley de Medios.
Viva o Brasil !

Paulo Henrique Amorim

Leia também:

MINO SOBRE LULA, DILMA – E LEVY.

E vote na trepidante enquete do C Af:

Qual foi o maior derrotado na Grécia?
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domingo, 25 de janeiro de 2015

JOÃO PEDRO STEDILE: “IMPRENSA É HEGEMONIZADA PELO AGRONEGÓCIO”

João Pedro Stedile: “Imprensa é hegemonizada pelo agronegócio
Ligado 22 Janeiro 2015.
Por Felipe Bianchi
Em atividade que marcou o lançamento da nova página do MST, João Pedro Stedile apontou a mídia brasileira como um dos agentes responsáveis por enterrar o projeto popular de reforma agrária no país. “A imprensa é hegemonizada pelo agronegócio”, afirmou o dirigente durante o bate papo com blogueiros e ativistas sociais, ocorrido nesta quarta-feira (21), na sede do Barão de Itararé, em São Paulo.
O evento contou com 70 participantes, além de 1200 espectadores que seguiram a transmissão online feita pela Pós-TV. Dentre os blogueiros e jornalistas convidados, marcaram presença Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Rodrigo Vianna (O Escrevinhador), Laura Capriglione (Ponte), Altamiro Borges (Barão de Itararé), Conceição Oliveira (Maria Fro), Nilton Viana (Brasil de Fato), Paulo Salvador (Rede Brasil Atual), José Reinaldo (Portal Vermelho), Antonio Martins (Outras Palavras), entre outros.
Confira, a seguir, os diversos tópicos abordados por Stedile ao longo da conversa.
REFORMA AGRÁRIA
O tema da reforma agrária mudou de sentido. No senso comum, quando falamos em reforma agrária, vem à cabeça um processo de repartir a terra - e é isso mesmo. O conceito surgiu baseado no paradigma de que, por ser um bem da natureza, a terra deve ser de quem nela trabalha, postulação feita na revolução mexicana, por Emiliano Zapata. Foi o marco que levou governos a pensarem programas de reforma agrária, que só se viabilizaram pois eram combinados com projetos de desenvolvimento nacional. A própria burguesia industrial nacionalista tinha interesse na reforma agrária, pois ao transformar camponeses sem terra em agricultores, produtores de bem, seriam também consumidores dos bens da industria. Havia um pacto entre camponeses e burguesia.
Todas as reformas agrárias feitas no sec XX levaram a um enorme processo de desenvolvimento econômico e industrial. No Brasil, porém, desde Celso Furtado em 1964, todos os intentos de reforma agrária foram derrotados. Com Lula, havia esperança, pois ele ia a nossas reuniões, pegava uma caneta velha e falava que quando fosse presidente, a primeira coisa que assinaria seria a reforma agrária. À época, dávamos risada. Quando ele ganhou a presidência, não saiu a reforma agrária, mas muito pelo fato de o cenário da reforma agrária ter mudado drasticamente. A agricultura do Brasil e do mundo está sendo dominada por forças mais poderosas que o latifúndio: empresas transnacionais que dominam o comércio e a produção agrícola internacional, em parceria com os bancos que as financiam. Esse modelo se chama agronegócio.
A reforma agrária não sair não é pura culpa do governo que não quer ou do MST, mas porque as forças que a impedem são muito mais poderosas. É uma mudança de paradigma: lutar por reforma agrária não é mais apenas um programa camponês. É lutar pelo que será feito no campo: produzir alimentos sadios e garantir a soberania alimentar do país, ou o matar a biodiversidade e envenenar os alimentos, que é o modelo do agronegócio. Um projeto popular de reforma agrária, hoje, beneficia a própria população urbana ao descentralizar a agro-indústria, gerar emprego e substituir o veneno pela agroecologia.
PAPEL DA MÍDIA
Nem o governo e nem a academia tem uma elaboração clara do tipo de reforma agrária que precisamos. Muitos enxergam apenas a ideia antiga – e a enterram, enterrando também as necessidades de mudança. A imprensa, hegemonizada pelos interesses do agronegócio, ajuda a enterrar o projeto de uma reforma agrária popular, defendida pelo MST.
A própria crise hídrica em São Paulo ilustra essa parceria. São Paulo sofre o efeito do monocultivo massivo de cana de açúcar no estado, que afetao equilíbrio climática. São temas ocultados pela mídia. Daí a importância de fazermos o contraponto na internet e nas ferramentas digitais.
A verdade é que houve uma despolitização na sociedade e o governo, que vivia de conciliação, ficou com medo de investir na disputa de ideias com as massas. O projeto da TV Brasil, de uma TV pública, deveria ser do tamanho da Rede Globo. Mas o governo teve medo de politizar as massas por meio da disputa de ideias e agora paga um preço caro.
INTERNET
Como fazer comunicação com as novas ferramentas ainda é um desafio, mas que se faz essencial na luta política. O segundo turno da eleição é prova: era uma disputa ideológica que só foi plasmada no segundo turno, através das redes sociais. Luta que se trava na internet ajuda a esclarecer e jogar luz sobre a luta de classes. É a tecnologia a serviço da classe trabalhadora.
Nossa ideia é ter uma página mais dinâmica, mais atual, para que as informações da luta de classes no campo chegue de uma forma até mais prazerosa para seu público. Sempre fomos bons de discurso, mas ruins de comunicação de massa. Ainda estamos, nós da esquerda, muito presos aos tempos idos de tribunos.
KATIA ABREU E PATRUS ANANIAS
Não devia nem perder tempo em falar de Katia Abreu [nomeada ministra da Agricultura], um dos erros que Dilma Rousseff cometeu. Ela [Katia Abreu] devia se envergonhar do fato de que, em Tocantins, seu estado, 623 mil famílias só comem por causa do Bolsa Família. Mas claro que ela não fala disso, pois para resolver o problema, só com reforma agrária, e aí talvez tivéssemos que iniciar pelas fazendas de sua família.
Já Patrus Ananias [nomeado ministro do Desenvolvimento Agrário] é meu amigo pessoal. Estamos em contato com ele. Ele sabe que defendemos o programa “Bolsa Árvore”, para reflorestar o país com o trabalho dos camponeses. Programa, inclusive, que acabaria com esse calor massacrante (risos)
VITÓRIAS DA AGRICULTURA FAMILIAR
Cinco anos atrás, fui em um assentamento no interior do Piauí e a merenda escolar do assentamento vinha de Bauru (SP). A merenda paulista era bolacha da Nestle. Uma das vitórias que tivemos foi o Programa Nacional de Alimentação Escolar: por lei, pelo menos 30% de toda a merenda escolar tem que vir da agricultura familiar.
Gilberto Kassab, quando prefeito, dizia que “em SP não havia agricultura” e seguiu comprando da Nestle ao invés de fomentar a agricultura familiar. Fernando Haddad, por sua vez, que foi um dos construtores do PNAE, aderiu e fez um acordo por arroz orgânico e suco de uva orgânico. Hoje, as crianças de São Paulo não comem mais arroz com veneno da Bayer, mas sim arroz orgânico da agricultura familiar.
Temos que ter claro que, depois que conquistamos a terra e temos o assentamento, a luta continua. A disputa contra o agronegócio segue dentro do assentamento. Mesmo o camponês conquistando terra às custas de uma árdua batalha, o agronegócio tenta cooptá-lo. Por isso nossa ênfase na agroecologia, na importância de alimentos sadios, sem agrotóxico.
A produção dos assentamentos é direcionada para o que chamamos de mercado institucional. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) garante que vai comprar. O camponês não é comerciante, é camponês. A Conab foi um programa conquistado junto ao governo federal que garante a compra de 297 tipos diferentes de alimentos produzidos em assentamentos. Nos grandes supermercados, são meia dúzia de alimentos empacotados pelas transnacionais. Nossa briga com a Dilma é para massificar essa ferramenta.
PAPA FRANCISCO
A eleição do novo papa é fruto de uma crise evidente na Igreja católica. Tivemos sorte de Bergoglio ser um personagem que viveu intensamente uma sociedade politizada como a Argentina. Dizem que, entre os amigos, ele mesmo se declara peronista. É um personagem que extrapola o meio eclesial e que tem uma ligação muito grande com os trabalhadores urbanos de Buenos Aires.
Por amigos comuns, se produziu, em Roma, no ano passado, uma reunião da qual saiu a ideia de construir um Encontro Mundial de Movimentos Populares. Independente de religião, credo, etnia, partido politico. A ideia era refletir sobre os problemas da humanidade. O encontro contou com 200 participantes, sendo 150 de movimentos populares e 50 escolhidas pelo Vaticano. Foram três dias de debate sobre os problemas da humanidade em pleno Vaticano, seguindo a metodologia do ver, julgar e agir. No primeiro dia, análise de conjuntura. No segundo dia, avaliação da conjuntura - e neste dia o Papa Francisco participou de toda a discussão. A bandeira de luta retirada do encontro foi que não deve haver, no mundo, nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra e nenhum trabalhador sem direitos.
Pela primeira vez, Evo Morales esteve presente no Vaticano. O presidente boliviano [nomeado autoridade máxima dos povos indígenas quechua e aymara] cumprimentou o papa, fez sua fala e foi convidado, em público, a jantar em companhia de Francisco. É, sem dúvidas, uma figura sui generis para o Vaticano. Imagine, um papa que se recusa a ter a mão beijada pelos fieis.

CONJUNTURA POLÍTICA
A conjuntura política do Brasil está cada vez mais complexa e anuncia necessidade de mudanças. Em rápidas pinceladas, compartilho a leitura do MST e dos movimentos sociais em gerais: Lula em oito anos e Dilma em mais dois deram certo com o programa neodesenvolvimentista, pois estava baseado em uma economia crescente, além da recuperação do papel do Estado e da indústria, que potencializou a economia e gerou a retomada do emprego e a redistribuição de renda. Por isso teve estabilidade eleitoral, inclusive.
Esse programa, no entanto, se esgotou. A economia depende do exterior e as forças do capital internacional agiram sobre a nossa economia. Os capitalistas daqui, ao invés de investirem na indústria, investiram no rentismo, deixando o governo sozinho nos investimentos produtivos. Esse é o complicado econômico.
Por outro lado, há um complicador: social: embora tenha aumentado o emprego e a renda familiar, na vida social e na perversidade do capitalismo, as cidades viraram um inferno. O transporte público é péssimo. A classe trabalhadora paga para trabalhar. É possível, sim, tarifa zero! É possível, sim, transporte público e gratuito para quem estuda e para quem trabalha.
Mais que isso, a democracia brasileira foi sequestrada. 10 empresas financiaram 70% dos parlamentares. De que adianta votar se quem elege é quem financia? Reforma política é urgente para restaurar a democracia - e estamos falando da democracia burguesa!

Em suma, o governo está em uma encruzilhada e precisa guinar à esquerda, mas até agora não deu sinais concretos de que o fará.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Evo: na Bolívia não mandam os Chicago Boys Chicago Boys são os Neolibêles do FHC

Publicado em 22/01/2015
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim

Evo: na Bolívia não
mandam os Chicago Boys

Chicago Boys são os Neolibêles do FHC


De Walber Leandro, no face do C Af


No Valor:



“NA BOLÍVIA, NÃO MANDAM OS CHICAGO BOYS”, DIZ EVO MORALES EM POSSE




LA PAZ – O presidente da Bolívia, Evo Morales, voltou a rechaçar, nesta quinta-feira, a política econômica neoliberal em seu discurso de posse. “Na Bolívia, não mandam os Chicago boys, mas sim os Chuquiago boys”, disse, após relatar longamente os avanços econômicos e sociais do país. “Aqui, mandam os índios”.

No fim do ano passado, em um evento em Cochabamba, o presidente usou a mesma expressão para criticar as economias ditas neoliberais, como a norte-americana. A afirmação, desta vez, foi feita na presença da presidente Dilma Rousseff, que em seu segundo mandato parece ter dado uma guinada na política econômica, nomeando para o Ministério da Fazenda, um economista considerado um Chicago boy, Joaquim Levy.

(…)
Veja o vídeo:

Navalha
Os Chicago Boys, neolibêles da Universidade de Chicago, primeiro assumiram o poder com Pinochet no Chile.
Depois, se espalharam pelo México, Bolívia e Argentina e governaram o Brasil nos oito anos do Farol de Alexandria.
Acabam de ser enxotados da Europa pelo Draghi.
E tentam botar as manguinhas de fora por aqui, se o PT deixar.
Paulo Henrique Amorim

Leia também:

NOGUEIRA: POR QUE DILMA PREFERIU A BOLÍVIA A DAVOS?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Onde se passa o “Leviatã”? Em Minas ! Foi tudo dominado: a Política, o Judiciário, a Polícia e a Religião (e o PiG).

Publicado em 21/01/2015
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim

Onde se passa o “Leviatã”?
Em Minas !

Foi tudo dominado: a Política, o Judiciário, a Polícia e a Religião (e o PiG).
Na foto, um campo de pouso no interior do Espírito Santo


Além de ler Sermões de Vieira e o Piketty, o ansioso blogueiro também vai ao cinema.

E assistiu ao magnífico “Leviatã”, do russo Andrey Zvyagintsev, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes do ano passado.

É tanto o “Leviatã” de Jó quanto o “Leviatã” de Hobbes.

É a história do controle de uma pequena cidade russa por um prefeito corrupto, que serve aos poderosos com a descarada cumplicidade do Judiciário, da Policia e da Religião.

O prefeito Vadim cobiça a propriedade do personagem principal, Kolia, para, ali, em nome de um ricaço, instalar um resort.

Kolia resiste, mas Vadim consegue o que quer: Kolia vai preso, a mulher dele se desestrutura psicologicamente e o melhor amigo e advogado o trai miseravelmente.

Ninguém escapa.

Nenhuma instituição, nenhuma !

A foto de Putin aparece na parede do gabinete do prefeito safado.

Assim como há menções a Yeltsin, o presidente bêbado, e os líderes da União Soviética.

Mas, a política aparece lá atrás, sutil.

O murro na cara é a descrição de um fenômeno universal, que os brasileiros do Maranhão conheceram.

E os de Minas Gerais também.

Quer assistir ao Leviatã ? 

Procure conhecer os detalhes da história do helicoca.

Minas Gerais fica (ou ficava …) numa península próxima ao Mar de Barents: o Espírito Santo !

Clique aqui para ver que os delegados da Polícia Federal, que enterraram o helicoca na Rússia, foram pra cima do Eduardo Cunha.

Parece o Samba do Crioulo Doido, mas não é.

É a Rússia.

É o Brasil !

Em tempo: 
meditação inútil, à saída do “Leviatã”. Quando o cinema brasileiro vai fazer um filme assim? Quando tiver um romancista como Dostoievski, Tolstoi? E quando se livrar da submissão à Globo Filmes!


Paulo Henrique Amorim


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Boaventura de Sousa Santos Charlie Hebdo: Uma reflexão difícil

13/01/2015
Charlie Hebdo: Uma reflexão difícil

Esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas e as nossas instituições.

O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo torna muito difícil uma análise serena do que está envolvido neste ato bárbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercussões futuras. No entanto, esta análise é urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanhã pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas, as nossas instituições e as nossas consciências. Eis algumas das pistas para tal análise.

A luta contra o terrorismo, tortura e democracia. Não se podem estabelecer ligações diretas entre a tragédia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados têm vindo a travar desde o 11 de setembro de 2001. Mas é sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muito milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e têm sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório presente ao Congresso norte-americano. E também é sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune.

Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de violência é continuar a seguir as mesmas políticas que a têm alimentado como é agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela na Europa? Certamente não o partido Podemos em Espanha ou o Syriza na Grécia.

A liberdade de expressão. É um bem precioso mas tem limites, e a verdade é que a esmagadora maioria deles são impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que é a "sua" liberdade a sofrê-los. Exemplos de limites são imensos: se em Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas mãos, pode ser preso; em Franças, as mulheres islâmicas não podem usar o hijab; em 2008 o cartoonista Maurice Siné foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma crónica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas são diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na América Latina, os grandes media, controlados por famílias oligárquicas e pelo grande capital, são os que mais clamam pela liberdade de expressão sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos têm feito pelo bem-estar dos mais pobres.

Aparentemente, o Charlie Hebdo não reconhecia limites para insultar os muçulmanos, mesmo que muitos dos cartoons fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamofóbica e anti-imigrante que avassala a França e a Europa em geral. Para além de muitos cartoons com o Profeta em poses pornográficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres muçulmanas grávidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram que, apontando para a barriga, pediam que não lhes fosse retirado o apoio social à gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o islão, as mulheres e o estado de bem-estar social. Obviamente, que, ao longo dos anos, a maior comunidade islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas foi igualmente imediato o seu repúdio por este crime bárbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradições e assimetrias na vida vivida dos valores que alguns creem ser universais.

A tolerância e os "valores ocidentais".  O contexto em que o crime ocorreu é dominado por duas correntes de opinião, nenhuma delas favorável à construção de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical é frontalmente islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da extrema direita em toda a Europa e da direita, sempre que se vê ameaçada por eleições próximas (o caso de Antonis Samara na Grécia). Para esta corrente, os inimigos da civilização europeia estão entre "nós", odeiam-nos, têm os nossos passaportes, e a situação só se resolve vendo-nos nós livres deles. A pulsão anti-imigrante é evidente. A outra corrente é a da tolerância. Estas populações são muito distintas de nós, são um fardo, mas temos de as "aguentar", até porque nos são uteis; no entanto, só o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que são os "valores ocidentais"?

Depois de muitos séculos de atrocidades cometidas em nome destes valores dentro e fora da Europa--da violência colonial às duas guerras mundiais--exige-se algum cuidado e muita reflexão sobre o que são esses valores e por que razão, consoante os contextos, ora se afirmam uns ora se afirmam outros. Por exemplo, ninguém põe hoje em causa o valor da liberdade, mas já o mesmo não se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democrática depois de segunda guerra mundial. No entanto, nos últimos anos, a proteção social, que garantia níveis mais altos de integração social, começou a ser posta em causa pelos políticos conservadores e é hoje concebida como um luxo inacessível para os partidos do chamado "arco da governabilidade". A crise social causada pela erosão da proteção social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, não será lenha para o fogo do radicalismo por parte dos jovens que, além do desemprego, sofrem a discriminação étnico-religiosa?

O choque de fanatismos, não de civilizações. Não estamos perante um choque de civilizações, até porque a cristã tem as mesmas raízes que a islâmica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles não apareçam como tal por nos serem mais próximos. A história mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses económicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas áreas de influência é o caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização das populações coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religião tão pacífica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as populações muçulmanas de Gujarat em 2003 e o eventual maior acesso ao poder que terão conquistado recentemente com a vitória do Presidente Modi faz prever o  pior; é também em nome da religião que Israel continua a impune limpeza étnica da Palestina e que o chamado califado massacra populações muçulmanas na Síria e no Iraque.

A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas populações não se reconhecem em tal valor, será afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos opõem-se ou articulam-se? Quais as relações entre os jihadistas e os serviços secretos ocidentais? Por que é que os jihadistas do Emirato Islâmico, que são agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirato Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa é certa, pelo menos na última década, a esmagadora maioria das vítimas de todos os fanatismos (incluindo o islâmico) são populações muçulmanas não fanáticas.

O valor da vida. A repulsa total e incondicional que os europeus sentem  perante estas mortes devem-nos fazer pensar por que razão  não sentem a mesma repulsa perante um número igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a tragédia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Yemen num atentado bombista. No verão passado, a invasão israelita causou a morte de 2000 palestinianos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças. No México, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferença na reação não pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale mais que a vida de não europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religiões ou regiões. Será então porque estes últimos estão mais longe dos europeus ou são pior conhecidos por eles? Mas o mandato cristão de amar o próximo permite tais distinções? Será porque os grande media e os líderes políticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando não os demonizam ao ponto de fazerem pensar que eles não merecem outra coisa?








sábado, 17 de janeiro de 2015

Partidos e movimentos sociais planejam formar frente de esquerda

Partidos e movimentos sociais planejam formar frente de esquerda
6 janeiro, 2015 - 11:25 — Simone

Reprodução
Partidos e movimentos sociais planejam formar frente de esquerda O primeiro encontro está programado para o início de janeiro, com atos pedindo a convocação de uma constituinte exclusiva para a reforma política
06/01/2015
O ano de 2015, além das mudanças no Executivo e Legislativo, será marcado também pela formalização de umanova frente de esquerda, de caráter nacional, a ser formada por movimentos sociais diversos, centrais sindicais e partidos políticos. As articulações, que já estão adiantadas, têm sido realizadas entre algumas das principais centrais, lideranças de ao menos sete entidades e os partidos PCdoB, PT, PSOL e PSTU, conforme informaram organizadores. 
A ideia é trabalhar de forma conjunta por objetivos em comumcomo a reforma política, por exemplo, e o combate a agressões que envolvam qualquer tipo de discriminação ou atentado a direitos humanos e projetos como a democratização da mídia. Por conta disso, uma das mobilizações que já está sendo organizada é para pedir que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) seja punido por quebra de decoro parlamentar. Em pronunciamento no plenário da Câmara, Bolsonaro – que em 2015 dará início ao seu sétimo mandato – disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) "porque ela não merece”.
Contraposição
A frente prepara uma série de atos públicos a serem realizados em vários estados. E o trabalho tem o intuito, também, de se contrapor ao avanço de grupos conservadores e de direita não só nas ruas, mas no Congresso e no governo federal.
A primeira reunião realizada para discutir a formação do grupo contou com a participação de diversas entidades, entre elas Unegro, UJS, UBM, UNE, Ubes, Levante Popular da Juventude, MST, MTST, Fora do Eixo, CUT, CMP, Consulta PopularIntersindicalConlutasVia Campesina e outros. Também estiveram presentes representantes do PCdoB, PT, Psol e PSTU. 
Constituinte
O primeiro encontro está programado para o início de janeiro, com atos pedindo a convocação de uma constituinte exclusiva para a reforma política. Também está sendo organizado para fevereiro ato no Congresso Nacional para pedir pela cassação de Bolsonaro pelas ofensas verbais proferidas contra Maria do Rosário, que se configuraram como quebra de decoro parlamentar.