quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Infância latino-americana pede socorro

Infância latino-americana pede socorro

Jornal Brasil de Fato

Reprodução
 A partir do que vivem as crianças e adolescentes, compreende-se melhor a tônica debate que precisa ser feito na região
 15/01/2014
Roberta Traspadini

O ano de 2013 foi mais um ano comemorativo para o capital transnacional atuante na América Latina, em contrapartida ao cenário de acirramento da precarização e intensificação da superexploração da força de trabalho na região.
Com um crescimento econômico de 2,6% em 2013, uma taxa de desemprego de 6,9% e um investimento direto estrangeiro da ordem de 173 bilhões de dólares, dados da CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a América Latina amarga trágicos efeitos em sua histórica dependência enquanto processo inerente ao desenvolvimento desigual capitalista.
Os 20% mais pobres se apropriam somente de 5% da riqueza produzida, enquanto os 20% mais ricos ficam com 47% de toda a riqueza produzida no continente. Lembrando que parte substantiva dessa riqueza é transferida para as economias centrais como remessa líquida de lucro, transferência de valor, através das operações das empresas transnacionais.
A América Latina possui uma população aproximada de 610 milhões de pessoas, segundo a CEPAL. Na distribuição por grupos de idade: 27,9% (0-14 anos); 34,1% (15-34 anos); 19,2% (35- 49 anos): 11,9% (50-64 anos) e 6,9% (mais de 65 anos).
Destas, 164 milhões se encontram em situação de pobreza e 68 milhões em pobreza extrema. Entendida a pobreza como um processo histórico-social, resultado do modelo de desenvolvimento capitalista consolidado no continente nos últimos seis séculos, cujo pressuposto é o pagamento de salários abaixo da condição de sobrevivência cotidiana.
E quanto às crianças?
São quase 180 milhões de pessoas na faixa etária de até 14 anos. Cerca de 70 milhões delas vivem na pobreza e quase 30 milhões na pobreza intensa. Esta é a concreta realidade do mundo do trabalho na próxima década. Expropriados, oprimidos e miseráveis de hoje, para uma futura utilização ainda mais intensa na superexploração da força de trabalho.
A condição de pobreza e miséria é proporcional, no mundo do trabalho, à intensificação da superexploração. E esta é uma das facetas mais perversas do capitalismo, em particular na atual fase histórica de suas crises estruturais.
Pode haver escolha entre miséria, fome e um salário de sobrevivência indigno? Essa seleção entre um cenário ruim versus um menos pior tira a centralidade da necessidade de consolidação de um outro cenário diferente para a classe trabalhadora.
Existem no mundo, segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho –, 168 milhões de crianças trabalhando. Destas, 120 milhões trabalham em tempo integral e quase 70 milhões estão expostas a trabalhos considerados perigosos. Estima-se que na América Latina aproximadamente 20 milhões de crianças estejam nesta situação.
Além disto, 132 milhões de crianças nascem no mundo, inseridas no universo da desigualdade social e 53 milhões sequer são registradas.
É central entender que enquanto lutamos para que nosso cotidiano seja o da garantia de direitos numa sociedade que não os têm na prática como pilares, uma vez que é estruturalmente desigual, o capital investe na condição de intensificação da miséria na infância.
Enquanto nós lutamos contra a superexploração da força de trabalho que parte expressiva do nosso povo vive, o capital intensifica sua condição de morte da infância para ganhos abusivos no futuro.
Ainda sobre a realidade da infância na América Latina, 72,6% das crianças em situação de pobreza e miséria vivem um tipo de privação no universo dos direitos, ou seja, não têm acesso à escola, à saúde ou aos demais direitos sociais. Privação que pode virar, no mínimo, uma assistência social com baixos gastos públicos pelos governos da ordem burguesa e, no máximo, a intensificação da superexploração no mercado de trabalho no presente- futuro.
A estrada do capital é a estrada do sangue do trabalho latino-americano. Esta estrada, se tem uma moral, é a do lucro sobre a vida. A ordem neoliberal trouxe para a América Latina a histórica recondução da dependência, entendida como vínculos de subordinação entre nossas economias e as economias centrais, seja no âmbito externo do mercado internacional, seja na situação interna das economias do continente.
É nessa dinâmica geral que deve ser entendido mais do que o trabalho infantil, o sentido da vida na ordem imperante do capital. Diferenças de cor, de sexo e de idade são todas demarcadas no cenário dos planos superiores de maiores lucros, em detrimento à inferiorização na condição de vida e do ser dos trabalhadores latinos.
As explorações da infância não são um problema moral na era do capital. São inerentes ao cenário da condição desumana gerado pelo mesmo sistema. Meninas e meninos condicionados à ordem da morte sobre a vida são sujeitados à situação mais severa da condição histórica da humanidade: escravos do capital, servos do trabalho, mercadorias a serviço do dinheiro. E isto é uma imposição. Uma forma de ser condicionadora de outros universos possíveis.
A infância e o capital
Portanto, há que se responder a outras perguntas: o que é a infância? Qual o sentido de se ser criança? Quem educa, quem cria, quem auxilia a criança nos seus processos de desenvolvimento na bárbara era do capital?
Para o capital, a infância foi, é e será o tempo histórico para o adestramento para o trabalho. Espaço de educação para a concorrência, para o sucesso monetário, para o êxito individual, e, sobretudo, para a conformação ideológica incontestável deste processo como único e inquestionável.
Algumas crianças sendo educadas para serem trabalhadoras superexploradas no futuro, outras vivendo a superexploração na infância como processo natural e um grupo seleto de crianças bem aventuradas vivendo a orgia de serem dominantes na era do capital.
A infância, enquanto estágio ou manutenção do processo de desenvolvimento capitalista é a fase da produção material e ideológica da suposta oportunidade burguesa. Portanto, não é infância. É venda de uma ideia de inclusão na infância.
Assim, a partir do que vivem as crianças e adolescentes na atualidade de nossa América Latina, entendemos que a dependência e o desenvolvimento seguem como a principal tônica do debate sobre os projetos que temos em detrimento ao que precisamos construir.
É possível sonhar com algo que se deseja para o futuro, contemplando a realidade. Mas é imprescindível sonhar com os pés no chão, materializando a organização consciente da luta de classes.
Resolver o problema da exploração e opressão dos trabalhadores na sociedade capitalista é sinônimo de superar a estrutura do desenvolvimento desigual inerente à mesma, tanto no âmbito mundial quanto no continental. Um problema que exige muitas contestações à ordem somadas à conformação de um projeto de classe que seja antagônico ao do capital e aglutinador da esquerda latina e mundial. Um projeto de classe capaz de conduzir suas ações contra o verdadeiro inimigo, o capital em todas as suas facetas, em um sentido real de produção do contra-poder à ordem dominante.
Somente um projeto de poder popular é capaz de libertar as crianças da classe trabalhadora da condição miserável do histórico sistema de exploração e opressão que recai sobre ela e seus pares da classe.

Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da organização Consulta Popular.
 

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Rede Globo é expulsa de evento dos jovens camponeses

Rede Globo é expulsa de evento dos jovens camponeses

Jornal Brasil de Fato

Joka Madruga
Com palavras de ordem, os jovens gritavam e protestavam contra a emissora: “a realidade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”
15/01/2014
Da Redação
Jovens rurais, reunidos no III Congresso Nacional da Juventude Camponesa, em Recife, na tarde desta quarta-feira (15), expulsaram a equipe local de reportagem da Rede Globo que foi até o evento. Com palavras de ordem, os jovens gritavam e protestavam contra a emissora: “a realidade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”.
Cerca de 2 mil jovens da área rural de 17 estados brasileiros estão reunidos desde ontem (14) para debater questões relacionadas ao campo e à juventude. Com o tema “Terra, Pão e Dignidade – Na Caminhada pela Terra Livre Brasil”, essa é a primeira edição do evento realizada em Pernambuco. O encontro é promovido pela Pastoral da Juventude Rural com o apoio da Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária do Estado e vai até o próximo domingo (19), no Parque de Exposições do Cordeiro.
Na programação, serão debatidos temas como a conjuntura da realidade brasileira, a questão agrária, agricultura familiar e produção agroecológica, Plebiscito Nacional de Reforma Política e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos. Além disso, o evento promoverá uma marcha e um ato político com o mote “Juventude do Campo e da Cidade na luta pelo projeto popular”.
 
 

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Fórum Social Temático debaterá crise capitalista, democracia, justiça social e ambiental

Fórum Social Temático debaterá crise capitalista, democracia, justiça social e ambiental

Jornal Brasil de Fato

Divulgação
Crise capitalista, democracia, justiça social e ambiental: estes serão os temas do encontro que será realizado na capital gaúcha, de 21 a 26 de janeiro
 
 
 
15/01/2014

De Marco Aurélio Weissheimer

Na Carta Maior
Crise capitalista, democracia, justiça social e ambiental: estes serão os temas do Fórum Social Temático 2014, que será realizado na capital gaúcha, de 21 a 26 de janeiro. O evento está sendo organizado por um grupo de centrais sindicais,  movimentos e organizações sociais brasileiras e internacionais em articulação com o Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

O território do Fórum Social Temático 2014 abrangerá Usina do Gasômetro, Parque Harmonia, Câmara dos Vereadores, Largo Zumbi dos Palmares, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Assembleia Legislativa, Memorial do Rio Grande do Sul e Casa de Cultura Mário Quintana. A Marcha de Abertura será realizada no dia 23 de janeiro de 2014, com concentração a partir das 13h30m no Largo Glênio Peres e saída prevista às 15h30m. O itinerário será definido pelo Comitê de Organização e distribuído aos participantes antes do início da Marcha.

No mesmo período, estão programados outros eventos, com identidade própria, mas associados ao tema geral do Fórum. Entre eles destacam-se: o Fórum Mundial de Educação, que será realizado em Canoas; o Projeto Conexões Globais, que promove debates com participação à distância por meio de telões instalados na Casa de Cultura Mário Quintana; o Seminário Internacional do Fórum Mundial de Mídia Livre; o Espaço Mundo do Trabalho, que reúne entidades sindicais de todo o mundo, no mezanino da Usina do Gasômetro; o Espaço Ubuntu, no Largo Zumbi dos Palmares, o Acampamento Intercontinental da Juventude, no Parque da Harmonia, além da tradicional Feira da Economia Solidária.

Na nota convocatória do evento, o comitê organizador justifica a escolha do tema para o encontro deste ano, destacando a continuidade da crise econômica iniciada em 2008:

“A crise internacional do sistema capitalista chega ao seu auge com a desestruturação das economias dos países europeus e norte-americanos e da retirada constante de direitos sociais de seus trabalhadores e trabalhadoras. Como parte deste processo de crise mundial há uma profunda crítica à capacidade de representação dos anseios políticos por parte dos partidos, inclusive dos partidos de esquerda. Este dois fatores colocam a sociedade civil internacional em alerta para possíveis retrocessos da agenda democrática mundial. A crise política e social não se arrefeceu desde 2012, justamente por isso, é fundamental refletirmos sobre o mundo que queremos”.

Fórum Mundial de Educação

Parte integrante do processo do Fórum Social Mundial desde 2001, o Fórum Mundial de Educação 2014 ocorrerá em Canoas nos dias 21, 22 e 23 de janeiro, nas dependências da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra/Canoas). O tema deste ano será Pedagogia, Região Metropolitana e Periferia. Até dezembro, mais de 1,5 mil pessoas já estavam inscritas no Fórum Mundial de Educação, representando a Argentina, Uruguai, Colômbia, Cuba, Cabo Verde, Marrocos, Jordânia, Zâmbia, Espanha, Itália.

O Fórum oferece a possibilidade de acesso gratuito em palestras da área de educação, bem como nas salas de debate dos grupos de trabalho. O objetivo é possibilitar um amplo debate para a elaboração de alternativas, nas quais participem os diferentes setores sociais da comunidade educativa e os que se relacionem com ela. O evento é uma promoção conjunta do Comitê Organizador Internacional e da Prefeitura Municipal de Canoas, com o apoio da UNDIME-RS, Instituto Integrar, Ulbra, Canoas parque Hotel e Ministério da Educação.

A abertura oficial do Fórum ocorrerá no dia 21 de janeiro, às 9 horas, no Ginásio Poliesportivo da Ulbra (Prédio 17), com um debate sobre os 50 anos do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura mediante o uso do sistema Paulo Freire. A programação completa do evento está disponível na página do encontro.

Hospedagem solidária

O Fórum Social oferece a possibilidade de hospedagem solidária para quem não tem condições de arcar com despesas de hoteis. Quem desejar ser acolhido pela hospedagem solidária pode se inscrever em um formulário disponível na página do evento. Moradores de Porto Alegre que quiserem receber em sua casa, para uma hospedagem solidária, um ou mais participantes do Fórum também podem se inscrever no mesmo endereço linkado acima.

Para maiores informações sobre os eventos, basta acompanhar as atualizações de suas respectivas páginas na internet:

Fórum Social Temático Porto Alegre
Fórum Mundial de Educação Canoas


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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Shopping barra jovens da periferia, mas libera 'rolezinho' de alunos da USP

Shopping barra jovens da periferia, mas libera 'rolezinho' de alunos da USP

Jornal Brasil de Fato

Foto: Reprodução
Sem repressão ou proibição, estudantes de Economia da Universidade de São Paulo promovem manifestações em centro de compras desde 2010
13/01/2014
por Diego Sartorato,
Da Rede Brasil Atual
Pelo menos desde 2007, centenas de “bichos” da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA) reúnem-se no Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo, para celebrar o ingresso na universidade: em grupos grandes e barulhentos, sempre entoando os gritos de torcida da atlética da faculdade, eles ocupam o hall de entrada e os corredores, marcham até a praça de alimentação e, lá, seguem pulando, cantando e usando as mesas como instrumentos de percussão. A manifestação, similar à aglomeração causada pelos “rolezinhos” marcado pelas redes sociais para o sábado passado (11) no Shopping Itaquera, na zona leste, administrado pelo mesmo grupo empresarial, é permitida e conta até com patrocínio oficial de lojas; em Itaquera, uma liminar proibiu o encontro dos jovens e causou forte repressão da Polícia Militar.
Em vídeos publicados por alunos da FEA no youtube, é possível acompanhar a aglomeração dos jovens entre 2010 e 2013. Segundo João Meireles, atual presidente da Atlética, deve haver “invasão” no shopping também este ano.
“Para confirmar, só com o Centro Acadêmico, eles é que organizam os pedágios (trote que leva os novos alunos da faculdade para pedir dinheiro nos semáforos)”, afirmou.
As invasões ao shopping ocorrem logo após o fim da coleta dos pedágios, e contam até com apoio de lanchonetes na praça de alimentação: depois de decorar os gritos de guerra da torcida da FEA para os jogos universitários, os estudantes almoçam nos restaurantes parceiros. “Se há acordo com o shopping, eu não sei. Isso é com o CA”, completou Meireles. A RBA tentou contato com diretores do Centro Acadêmico da FEA, mas não obteve resposta.
A assessoria de comunicação do grupo brasileiro-canadense Ancar-Ivanhoe, que administra os shoppings Itaquera e Eldorado, foi procurada para comentar a diferença de tratamento dedicada aos dois eventos, mas não respondeu até o fechamento desta matéria.
Dois pesos, duas medidas
Para Kazuo Nakano, professor de Desenvolvimento Urbano e Direito Imobiliário da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a diferença de tratamento dedicada pelos shoppings ao “rolezinho” e à “invasão” promovida por alunos da USP é sintomática da falta de regulamentação do setor. “Não existem critérios claros para o uso do espaço do shopping, que é uma empresa privada, mas de uso coletivo. Hoje, vale a lógica da propriedade e o direito do proprietário de filtrar quem circula em seu estabelecimento”, aponta.
“Agora, se tudo bem quando é aluno da USP, mas o cidadão da periferia gera temor de arrastões, está claro o preconceito. O shopping já é um espaço excludente por conta dos preços para desfrutar dos seus produtos e serviços, e, dessa maneira, segrega ainda mais”, completa.
O professor acredita que é necessário debater a diferença entre os espaços públicos dedicados ao consumo e aqueles dedicados à vida cívica dos cidadãos. “O que vemos em São Paulo, por exemplo, é que praticamente só existem dois tipos de espaços públicos: o de consumo e o de deslocamento, as vias da cidade. Quando vamos falar dos espaços para a vida cívica, estão quase todos deteriorados. Temos lutado para recuperar esses espaços e reverter essa lógica de privatização dos espaços dedicados ao lazer”, pondera Nakano. “Até lá, será comum que as pessoas façam a opção pelo shopping e outros estabelecimentos privados para suprir essa carência.”
Preconceito nos shoppings
Nos últimos anos, uma série de episódios revelam que a discriminação é comum nos corredores dos shoppings brasileiros. Em 2010, o músico cubano Pedro Bandera, 39, foi impedido por seguranças de entrar no shopping Cidade Jardim, na zona oeste, onde tinha uma apresentação marcada em uma livraria – segundo ele, os demais músicos entraram no shopping sem problemas. Já o cubano chegou a ser imobilizado e encaminhado a um táxi que o retiraria do local. Bandera, que é negro, processou o shopping por racismo e foi indenizado em R$ 7 mil após decisão favorável da justiça em dezembro passado.
Já no shopping Center 3, na avenida Paulista, em janeiro deste ano, a transsexual Aline Freitas afirmou que foi abordada por seguranças que tentaram impedi-la de usar o banheiro feminino: ela chegou a entrar no lavabo, mas foi abordada por uma funcionária e retirada por um grupo de oito seguranças.
Na Bahia, à mesma época do episódio em São Paulo, um grupo de 21 funcionárias do shopping Barra, em Salvador, tentou impedir uma lojista transsexual de usar o banheiro feminino, alegando sentirem-se “constrangidas” pela presença da funcionária. Nesse caso, o shopping manifestou respeito pela diversidade e afirmou que não restringiria o acesso da funcionária ao banheiro por uma questão de “dignidade humana”.


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A quantas anda a crise?

A quantas anda a crise?

Jornal Brasil de Fato

É preciso construir um modelo alternativo ao do capital internacional. Mas isso não se faz de um dia para outro. Um novo projeto, que só pode ser um projeto socialista, precisa de décadas para ser construído pelos trabalhadores
14/01/2014

Por Vito Giannotti

O ano de 2014 começou. Mil assuntos. Copa do Mundo, eleições, manifestações, repressão, remoções. E mais: aborto, casamento gay, maconha e muitos mais. Sim, mas a grande pergunta é como vai ficar a crise. Vai ser marola ou vai ser tsunami? O mundo todo fala de crise, mas, e para nós no Brasil, como vai ficar?
Vamos primeiro olhar o mundo e depois pensar no Brasil. Os jornais da Europa não cansam de falar de Grécia, Itália e Espanha e até de Portugal e Irlanda. Lá a situação é trágica. Desemprego que vai de 12 a 25% nos três primeiros países. Entre os jovens de até 25 anos chega aos 50%. Ou seja, metade dos jovens não tem emprego. E os bicos que encontram são de um dia ou dois por semana e sem direito algum. Em todos estes países europeus, que são vítimas da crise, os salários perderam de 10% a 20% do valor desde a explosão da tal crise em 2008. Em todos eles, a saúde pública foi destruída ou está sendo. Ou seja, para mais da metade da população não há assistência nenhuma. Em todos – Grécia, Itália e Espanha – a aposentadoria foi detonada. Seu valor abaixou e a idade de se aposentar aumentou. Em resumo, o que se chamou de estado
de bem-estar social foi pro beleléu. Na verdade, nunca existiu. Era um estado com um certo bem-estar social. Ok, mas até isso foi comido pela crise.
Crise para uns e Farra para outros. Mas esta crise tem explicação. A crise é para os trabalhadores, para o povo. Para os banqueiros, empresários, enfim para os de cima, a crise é mais um estímulos para ganhar dinheiro. Claro, nas costas de alguém. E este alguém são os trabalhadores. Daí o desemprego, o arrocho salarial, a subida dos alugueis, a retirada de direitos, a falta de dinheiro para a saúde pública, para a educação, para os serviços básicos. Quem faz a festa são os bancos, as financeiras e o grande capital internacional, que vive dos juros que estes países em crises continuam a pagar.
Mas, isso é lá fora... o Brasil está salvo.
Há os que pensam que no Brasil é diferente. Mas, qual é o projeto do nosso país? Estamos livres do FMI, da dívida externa e do mesmo projeto neoliberal que está detonando os trabalhadores da Grécia, Itália e Espanha? Absolutamente não. É preciso construir um modelo alternativo ao do capital internacional. Mas isso não se faz de um dia para outro. Um novo projeto, que só pode ser um projeto socialista, precisa de décadas para ser construído pelos trabalhadores. É preciso debater este projeto, na imprensa dos trabalhadores, em assembleias populares, em movimentos vivos, movimentos de bairros, sindicatos, movimentos artísticos e culturais. Em tudo, enfim. E aí? Mãos à obra.


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PM: “Nós ficamos sete dias de luto, vocês também irão ficar”!

PM: “Nós ficamos sete dias de luto, vocês também irão ficar”!

Jornal Brasil de Fato

Fotos: Hélio Augusto
A morte de um policial protagonizou uma série de invasões de casas, torturas com fios desencapados e balde d’água, toques de recolher, rondas e abordagens arbitrárias na região da Zona Leste
14/01/2014
Por Bruna Furlan e Willians Santos,
De São Paulo
Especial para Brasil de Fato
Desde os últimos dias do ano passado, o Jardim Elba e a Favela da Ilha sofrem com a repressão, abuso de autoridade e violência policial, em um quadro que já configura violação de diretos humanos, após o assassinato com tiros na cabeça do policial militar Edmar Rodrigo Exposto Gomes, de 21 anos, em uma das vielas da favela do Jardim Elba, após entrar no bairro em ação de perseguição.
A morte do policial protagonizou uma série de invasões de casas, torturas com fios desencapados e balde d’água, toques de recolher, rondas, abordagens arbitrárias, proibição da circulação de moradores na área, espancamentos (principalmente com familiares do principal suspeito), ataques em comércios e residências com uso de armas, mostrando o despreparo por parte dos policiais à procura do assassino de um dos seus, com foco principalmente na área da Ilha e do Elba.
Nesta ação, os policiais militares movimentaram-se para encontrar o colete, a arma e a aliança do policial morto. A ação da PM tratava-se de uma vingança que lavaria a honra da corporação e do policial, e como justificativa alegaram que os moradores deveriam permanecer em ‘luto’, tal como a corporação: “Nós ficamos sete dias de luto, vocês também irão ficar”, resultando em uma repressão sistemática e eufórica criminalizando todos os moradores.
Segundo relatos de alguns moradores, nos dias 24 e 25 de dezembro, os policiais proibiram o funcionamento do comércio local: ordenaram o fechamento ou, simplesmente, abaixaram as portas dos estabelecimentos. Aqueles que recusaram ou questionaram as ações foram ameaçados com armas de fogo. Bombas também foram jogadas em residências e comércios.
Durante toda a semana era visível rondas e helicópteros. Crianças eram ameaçadas e intimidadas e, por medo, entravam em suas casas quando viam a chegada da PM. “Bandido” e “lixo” eram uma das poucas formas que os policiais se dirigiam aos moradores, mulheres gestantes eram chamadas de “vagabundas”. A PM implantava o medo através de ameaças. “Os moradores tem medo da forma como a Polícia Militar entra na favela”, relatou uma jovem.
Cansados da repressão e da violência policial, os moradores decidiram realizar um ato no dia 28 de dezembro fechando a Rua Glauber Rocha até a Avenida do Oratório – a qual faz a ligação entre Santo André e São Paulo - interditando a passagem. O protesto se opôs a polícia, que revidou e reforçou a opressão com mais ataques utilizando bombas de gás e balas de borracha. Alguns moradores acabaram feridos.
“A gente não teve natal”
Jornais noticiaram a revolta de forma errônea, criminalizaram e deslegitimaram o protesto, além do fato de torná-lo espetáculo. Alguns moradores assumem que realizar o protesto foi a única forma de chamar atenção das autoridades para o que estava acontecendo. “A gente não teve natal”, reclama uma senhora. O morador Roberto (nome fictício) conta que na revolta houve a queima de lixo e de um carro velho: “Se a gente não tivesse feito isto não tinha paz na favela...” e completa comentando aos seus vizinhos: “se vocês ficarem de braços cruzados não dá nada. Se a gente se unir vai dar”.
O ato teve sua repercussão através de duas audiências que culminaram na elaboração de um relatório contendo diversas denúncias sobre as agressões e, posteriormente, entregue à Defensoria Pública, ao Ministério Público, a Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, Corregedoria da Polícia e a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a Comissão de Direitos da Câmara Municipal de São Paulo e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.
A reunião foi aberta a toda população com o objetivo de denunciar, por parte dos moradores, a brutalidade policial, mas o desencorajamento era evidente. Nesta reunião, além dos moradores e associações, acompanhando e reforçando a opressão estavam mais quatro viaturas na porta do local, inclusive com um dos policiais que por tantos dias praticou ações violentas contra os moradores.
No entanto, as ações de violência não enceraram. Nos primeiros dias do ano, policiais ainda circulam pela região praticando intimidações e há denúncias de que civis estão sendo baleados durante a noite por homens não identificados em motos.
Histórico de luta e efeito das Jornadas de Junho na Zona Leste
A Favela da Ilha, como parte do Parque Santa Madalena, e em conjunto com o Jardim Elba, o Jardim Ângela, a Vila Industrial e o Jardim Planalto, todos localizados na região do Sapopemba, tem sua iniciação na organização política durante os anos 90. Os trabalhadores imigrantes do Nordeste e Sudeste que vieram para São Paulo e ABC paulista residir nestes locais acabaram se deparando com o descaso e falta de planejamento público, tal que resultou, em especial na área da Vila Industrial, na luta por moradia com ocupação e mutirões de construção de casas durante a gestão Luiza Erundina (PT).
A organização coletiva foi de suma importância para a conquista desses locais que hoje abrigam milhares de famílias. No mesmo período de luta, foram construídos centros comunitários, mas com o passar dos anos a desmobilização tomou conta desses locais inicialmente criados para encontro e organização de base. A região caiu no esquecimento do Estado Democrático de Direito e hoje sofre o efeito da superlotação das áreas, aumentando o número de casas e moradores, resultando em conflitos pessoais.
O descaso com a região vai muito além de superlotação e a precariedade das casas, os moradores sofrem com postos de saúde e hospitais que não atendem a demanda devido a falta de especialidades médicas, a locomoção dos trabalhadores é precária – dependem do transporte público para chegar ao seu local de trabalho – faltam também áreas de lazer e áreas verdes (poucas praças existem em toda a região).
Inundações também são frequentes na Favela da Ilha, apesar da recente obra de contenção do rio que passa por seu entorno, com a construção de dois piscinões (também fruto de luta popular), oferecendo riscos para a população, sendo este um segundo motivo de reorganização social e política por parte dos moradores.
Pelo caráter da repressão policial extremamente agressiva que, embora não seja novidade na região, está colocada uma situação que evidencia não só a questão racial, discriminação social e violação radical de direitos humanos com tons de barbárie, mas principalmente um novo momento de mobilização social e política dos moradores.
O que nos anos 90 era uma luta por moradia, agora é o enfrentamento contra a repressão policial e contra os anos de descaso do Estado que abole política de planejamento urbano popular. Uma mobilização está nascendo e mostrando que os moradores não desaprenderam a lutar por seus direitos.
A revolta da Favela da Ilha ocorre porque os moradores acreditam na justiça, não na justiça abstrata, mas na igualdade de direitos. Para eles não há justificativa para as ações opressivas e sabem que é “fácil a polícia falar contra a favela, que só tem bandido”.
“Será que a gente vai ter de sair longe da comunidade, num parque como o Ibirapuera pra se divertir? Pegar horas de ônibus, metrô, só pra se divertir?”, pergunta um morador referindo-se ao cerceamento e medo realizado nos últimos dias.
A revolta de todas estas populações das favelas que explodem em 2013 e 2014 é o resultado da atual mobilização contra o genocídio e a violação de direitos, são ações políticas. O assassinato e as ações truculentas por parte da Polícia Militar se tratam de práticas históricas atualizadas no contexto da Copa do Mundo, de um conflito de interesses de classe. A violência policial e a revolta dos moradores da Ilha não são casos isolados e têm relação com um caso de maior repercussão: o do pedreiro Amarildo, torturado e assassinado em uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
 

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Rolezinho: ato em SP vai “denunciar o caráter racista” de shoppings

Rolezinho: ato em SP vai “denunciar o caráter racista” de shoppings

Jornal Brasil de Fato

Foto: Reprodução/Facebook
Para um dos organizadores, repressão é tentativa de “impedir a presença de jovens, moradores de periferia, na sua ampla maioria negros” nos centros comerciais 
14/01/2014
Por Igor Carvalho
Da Revista Fórum
Marcada para o próximo sábado (18), às 12h, uma manifestação contra a repressão dos shopping centers ao movimento conhecido como “rolezinho”, realizado por jovens das periferias de São Paulo. Segundo Juninho Jr., do Círculo Palmarino, um dos organizadores do ato, a intenção é “denunciar o caráter racista das ações que vem sendo promovidas pelos shoppings de São Paulo.”
A manifestação seguirá até a entrada do shopping JK Iguatemi, um dos mais ricos da capital paulista, que no último sábado exigiu os documentos de frequentadores do local e até dos funcionários que trabalham nas lojas para evitar o “rolezinho”. Menores de idade desacompanhados não puderam frequentar o espaço.
O “rolezinho”, para Juninho, é a consequência do ideal de consumo propagado pelas elites, frequentadoras assíduas dos shoppings. “A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com esse sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupado pelo andar de cima, ai gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela repressão.”
No último sábado (11), a Polícia Militar chegou a usar gás lacrimogêneo e bala de borracha para dispersar o “rolezinho” em um shopping de Itaquera. Três jovens foram detidos.
Confira a entrevista com Juninho Jr.
Fórum - Qual o objetivo do ato?
Juninhor Jr. - O objetivo do ato é denunciar o caráter racista das ações que vêm sendo promovidas pelos shoppings de São Paulo, que tentam impedir a presença de jovens, moradores de periferia, na sua ampla maioria negros, que estão sendo impedidos de realizar os seus encontros chamados de “rolezinho”.
Fórum –  Na concepção dos organizadores, o que significa o “rolezinho” e, mais ainda, porque a repressão?
A burguesia propaga cotidianamente que para você ser alguém, ser reconhecido, é necessário ter e consumir, e o funk ostentação dialoga com esse sentimento. Porém, enquanto esses jovens sonharem com carros de luxo, roupas de marca, lá na periferia, tudo bem, o problema é quando eles desejam ocupar os espaços que tradicionalmente só são ocupado pelo andar de cima, ai gera uma contradição que a elite não consegue responder senão pela repressão, expondo abertamente a segregação social, territorial e racial que existe no seio da sociedade brasileira.
Fórum – Por que o movimento foi criminalizado?
A criminalização contra expressões culturais da comunidade negra não é novidade, já sofremos isso com a capoeira, religiões de matriz africana e comunidade tradicionais, contra o samba, contra o rap, e a bola da vez é o funk. Os rolezinhos e o funk ostentação estão longe de serem movimentos que propõem mudanças sociais, mas não podemos negar que são expressões das contradições da sociedade que vivemos, profundamente desigual, onde poucos têm muito e a grande maioria vive com muito pouco, sem acesso à cidadania plena e direitos como educação, saúde, transporte, cultura e tantos outros problemas que enfrentamos.
 


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domingo, 12 de janeiro de 2014

Julia Mann: uma pequena biografia

Julia Mann: uma pequena biografia

 
Julia Mann com três dos seus cinco filhos: Julia (no colo), Heinrich (no centro) e Thomas (à direita). (foto: arquivo)Legenda:
Julia Mann com três dos seus cinco filhos: Julia (no colo), Heinrich (no centro) e Thomas (à direita). (foto: arquivo) ()
Julia Mann nasceu em Paraty e foi para a Europa com apenas oito anos de idade. Durante toda a vida as lembranças do Brasil marcaram essa matriarca, que foi mãe de importantes escritores alemães.
Apesar da influência, seu nome quase não é encontrado nas biografias de Thomas ou Heinrich Mann.

„Minha mãe é originária do Rio de Janeiro, mas tinha um pai alemão. Isso significa que apenas um quarto do nosso sangue é latino-americano. Para nós ela contava sobre a beleza paradisíaca da baía do Rio de Janeiro, das cobras venenosas que existiam nas plantações do pai e sobre escravos negros, que eram espancados com bastões. A primeira vez que viu neve, ela acreditava que era açúcar”.

Assim descreve Thomas Mann a sua mãe através do texto “A imagem da mãe”, publicado em 1930. Essa é um das poucas referências do escritor alemão ao Brasil.

Realmente o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1929 não tinha praticamente nenhuma relação com o Brasil. Porém, até mesmo familiares como a filha Elisabeth Mann Borgese ressaltam a forte influência da brasileira em relação aos dois filhos, que se tornariam famosos escritores.

“Mesmo se na Europa essa história é totalmente desconhecida, no Brasil qualquer pessoa interessada em literatura sabe que a mãe do Thomas Mann era brasileira”, explica o jornalista suíço Peter Wehrli.

Paraíso em Paraty

Julia Mann nasceu no Brasil em 1851. Seu pai era o negociante alemão Johann Ludwig Hermann Bruhns, que no Brasil era proprietário fazendas de café e cana-de-açúcar entre Santos e Rio de Janeiro Sua mãe era a filha de portugueses e mestiços brasileiros Maria da Silva, que faleceu aos 28 anos, quando Julia tinha apenas cinco anos de idade.

Um ano depois da falecimento da esposa, Johann Bruhn decidiu voltar para a Lübeck, na Alemanha. No livro autobiográfico “Da Infância de Dodô” (Aus Dodos Kindheit), ela conta como foi a infância paradisíaca na baía de Paraty.

Quando completou 14 anos, Julia saiu do internato e foi viver na casa do tio em Lübeck, onde foi então introduzida à sociedade local. Em 1869, ela casou o negociante Thomas Johann Heinrich Mann. Ela tinha 17 e ele 29 anos. Do casamento saíram cinco filhos: Heinrich, Thomas, Julia, Carla e Viktor.

Depois que seu marido faleceu em 1891, Julia Mann trocou Lübeck por Munique e começou uma intensa vida social e cultural na capital da Baviera. Depois que sua filha Carla se suicida, Julia Mann vivie o resto dos seus anos de vida em hóteis e termina por falecer em companhia dos três filhos restantes.

swissinfo, Alexander Thoele

Júlia da Silva Bruhns

Júlia da Silva Bruhns

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Júlia da Silva Bruhns
Júlia da Silva Bruhns (Parati, 14 de agosto de 1851Weßling, 11 de março de 1923) foi uma escritora teuto-brasileira, e esposa do senador, cônsul e comerciante Johann Heinrich Mann, mãe de Thomas Mann, ganhador do Prêmio Nobel da Literatura, e do também escritor Heinrich Mann.
Era filha de Johann Ludwig Herrman Bruhns, fazendeiro que possuía plantações de açúcar entre Santos e o Rio de Janeiro, e de Maria Luísa da Silva, brasileira com sangue português e indígena, morta quando Júlia tinha cinco anos. Tinha três irmãos e uma irmã.
Diz a Brasiliana, abaixo citada, página 106: "A infância tropical na cidade colonial de Parati, cercada pela pujança da mata, as amas negras e as frutas tropicais, seria depois trocada pelas ruelas sombrias da antiga Lübeck no norte da Alemanha."


Na Alemanha[editar | editar código-fonte]

Um ano após a morte da mãe, o pai decidiu enviar os filhos para a Alemanha, para Lübeck, onde Júlia tinha um tio. Com seis anos de idade, Júlia não falava ainda uma palavra em alemão. O pai regressou ao Brasil. Ela viveu numa pensão até aos catorze anos.

Casamento[editar | editar código-fonte]

Júlia, Julia, Heinrich e Thomas
Casou com Johann Heinrich Mann em 1869, quando tinha dezessete anos e ele 29.
Tiveram cinco filhos:
  • Heinrich Mann
  • Thomas Mann, em cuja obra há uma leve menção à terra da mãe, o Brasil, no livro As confissões do Impostor Felix Krull. O fascínio pelo sul, a presença da latinidade como arrebatamento amoroso e a força de intoxicação passional estão presentes em sua obra.
  • Elisabeth Therese) Mann
  • (Augusta Olga Maria) Mann
  • Viktor Mann

Viuvez[editar | editar código-fonte]

Após a morte do marido, em 1891, em consequência de uma operação mal sucedida à bexiga, Júlia decidiu viver em Munique com os filhos. Seus filhos escritores criaram personagens inspiradas nela em diversos livros, referindo-se afectuosamente ao seu sangue latino (os alemães costumam dizer simplesmente "do sul"). Em Buddenbrocks, de Thomas Mann, Júlia foi a inspiração de Gerda Arnoldsen e Toni Buddenbrock. Já em Doutor Fausto, foi a Senadora Rodde. No romance Tônio Kröger, foi a Mãe Consuelo. Em Morte em Veneza, surgiu na figura da mãe do principal protagonista, Gustav von Aschenbach. Nos últimos anos de vida, Júlia mudou freqüentemente de casa, morando também em hotéis. Morreu num quarto de hotel, sob a vigilância de três de seus filhos.

Obra[editar | editar código-fonte]

Júlia da Silva Bruhns escreveu, já adulta, Da infância de Dodô (Aus Dodos Kinderheit), um livro de memórias de sua infância no Brasil.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Miskolci, Richard. Uma Brasileira: A Outra História de Júlia Mann In: Cadernos Pagu. Campinas: UNICAMP, 2003. Vol. 20 p.157-176.
  • Brasiliana da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2001.

 

“Nos falta um Brasil com visão continental”

“Nos falta um Brasil com visão continental”

Jornal Brasil de Fato

Segundo Atilio Boron, a liderança não significa atropelar os demais países, mas criar um consenso para articular conjuntamente um projeto
10/01/2014
Diego Diehl
de Buenos Aires (Argentina)
Poucos cientistas sociais acumulam uma compreensão tão profunda sobre os processos políticos em curso no continente latino-americano quanto Atilio Boron. Professor de Teoria Política e Social na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), o argentino tem dedicado anos de investigação ao papel que os países da região têm desempenhado no sistema internacional.
Seu mais recente livro descreve o lugar da América Latina na geopolítica do imperialismo, cada vez mais crucial na estratégia de sobrevivência do capitalismo.
É onde está metade da biodiversidade do planeta, incluindo 45% do volume de água doce.
Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Boron atendeu à reportagem na sede do Centro Cultural de la Cooperación Floreal Gorini, onde fi ca seu escritório na capital portenha. Destacou que o futuro da região depende da liderança efetiva do Brasil.
“O país precisa entender seu papel de liderança latino-americana, especialmente a partir da União das Nações Sul-americanas (UNASUL). Se não fi zer, pagará um preço muito caro”, aponta. O sociólogo explica que o contexto mundial põe em risco os recursos naturais brasileiros e menciona as 23 bases militares dos EUA que cercam o país.
Boron também analisou a dimensão dos protestos sociais ocorridos em junho passado no Brasil. “O que houve tem mais a ver com as desigualdades econômicas e sociais, que persistem muito grandes mesmo após quase 30 anos de democracia”.
Para o entrevistado, não há dúvida da legitimidade das mobilizações, protagonizadas pela juventude e movimentos populares. Porém, ele faz um alerta: “o protesto social sem um projeto político está condenado à derrota”. A seguir, a entrevista completa:
Brasil de Fato – Há algum paralelo que possamos fazer entre as mobilizações de junho no Brasil e os processos que ocorreram na chamada da “Primavera Árabe”, os “Indignados” na Espanha, ou os “Occupy” nos EUA? Até que ponto essas comparações são corretas considerando o contexto brasileiro e latino-americano?
Atilio Boron – Em primeiro lugar, me parece que há um clima de época no qual estas manifestações populares contra governos capitalistas estão se difundindo por todo o mundo. Há uma crise capitalista muito forte, e ela é sentida em determinados países de forma mais intensa que em outros. Porém, me parece que os protestos no Brasil têm mais a ver com os “Indignados” e os “Occupy”, já que, no caso da Primavera Árabe, um elemento fundamental foi o súbito aumento do preço dos alimentos, ademais de se tratar de países que viviam sob ditaduras. O que houve no Brasil tem mais a ver com as desigualdades econômicas e sociais, que persistem muito grandes mesmo após quase 30 anos de democracia. O fato é que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e essa situação se agrava com o que a Ciência Política chama de “políticas de prestígio”, a partir do impulso que o governo brasileiro tem dado a megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Ademais, há uma atitude muito ingênua por parte do governo brasileiro, de achar que esses megaeventos são o passaporte para a condição de país desenvolvido, que ignora, afinal de contas, outros exemplos históricos, como é o caso do México, que já teve Copa do Mundo e Olimpíadas e atualmente passa por uma situação desastrosa. Na verdade, essas políticas de “pão e circo” exacerbam as tensões sociais, os conflitos e o ressentimento daqueles que passam necessidades e que, ao mesmo tempo, veem o Estado destinando volumes gigantescos de recursos para atividades que não vão gerar uma melhoria concreta em suas vidas. Pelo contrário, hoje em dia, os preços no Brasil têm subido muito e parte disso já em função do Mundial – que não faz grande diferença para os turistas que estarão na Copa do Mundo –, mas faz para a população mais pobre.
Então, você tem um padrão distributivo muito desigual, uma indiferença do governo em relação a esse tema e um desequilíbrio orçamentário que apenas reforça esse aspecto, já que o programa Bolsa Família equivale a apenas um mês do pagamento de juros da dívida pública brasileira. Tudo isso acaba reforçando as tensões de uma sociedade frustrada por um projeto político aparentemente reformista, mas que não avança em temas como a reforma agrária, a carestia, o péssimo transporte público. E quando há um aumento da remuneração do trabalhador de dois para três salários mínimos, ele não deixa de ser pobre. Diante de tudo isso, vendo um governo pródigo injetando dinheiro em obras faraônicas, em estádios de futebol em vez de escolas e hospitais, creio que essa foi a faísca para a explosão social que ocorreu.
Ademais, esse cenário de fundo que propicia as mobilizações já existia há muito tempo, mas foi de alguma forma contido pela direita brasileira, uma das mais inteligentes do continente, que havia ficado muito assustada com os incidentes argentinos de dezembro de 2001. Esse medo lhes levou a permitir a chegada de Lula à presidência em 2002, e tenho para mim que se isso não tivesse  passado na Argentina, as elites brasileiras não permitiriam que Lula chegasse ao governo. E creio que é isso que os setores mais lúcidos da elite chilena estão fazendo neste momento, resgatando Bachelet para conter os protestos sociais. Mas essa inteligência tem um limite, e esse limite foi expressado pelas manifestações de junho no Brasil. Portanto, esse não foi um movimento fascista, mas um movimento popular, da juventude, de gente de baixo, desorganizada, sem experiência política, que não sabia o que fazer, que tinha medo de colocar projetos políticos e queria manter-se apenas como protesto social. O problema é que o protesto social sem um projeto político está condenado à derrota.
Foi, portanto, uma erupção. Agora, as coisas se acalmaram, mas os problemas não foram resolvidos, o que significa que muito provavelmente teremos um novo ciclo de grandes mobilizações no período do Mundial, quando as pessoas deverão sentir na própria pele os diversos problemas que vão passar.
Diante desses protestos, os movimentos estão propondo a realização de uma Assembleia Constituinte exclusiva e soberana para fazer uma reforma política. Que parece ao senhor essa proposta e que impacto ela poderia ter na conjuntura brasileira e latinoamericana?
Para mim, é muito interessante que se construa uma Assembleia Constituinte. O Brasil precisa dessas modificações na Constituição. Mas a dúvida é se essas mudanças virão sem processos de mobilização popular. Creio que sem essa pressão social dificilmente os meios institucionais farão grandes mudanças, porém há que ser uma pressão organizada, e não anárquica e dispersa, e que viabilize uma convocatória sem restrições, para não cair na trama que os setores conservadores impuseram, por exemplo, na Constituinte argentina de 1994, quando não se aceitou discutir uma série de “pilares fundamentais” do liberalismo clássico. Há que impor uma agenda desde os movimentos sociais, sem aceitar qualquer tipo de cooptação do governo nessa definição. Minha hipótese é que qualquer governo, de qualquer espectro político que seja, sem pressão social, tende a imprimir políticas de direita, pois acaba sendo tomado pela burocracia interna. Portanto, a reforma política necessária apenas sairá com forte pressão social e desde baixo.
Com a reforma política o senhor crê que seria possível destravar as chamadas reformas estruturais, que não foram feitas em 30 anos de democracia no Brasil?
Veja, essa Constituinte geraria uma nova Constituição, que ampliaria a democracia tal como se deu no caso da Venezuela, onde há eleições praticamente todos os anos. Creio que se algo assim ocorre no Brasil, isso seria muito favorável.  Mas há que discutir se a esquerda teria condições de ganhar as eleições, e depois implementar um governo que consiga fazer as reformas necessárias.
Para isso é que as mudanças constitucionais são necessárias, tal como se deu na Venezuela, Bolívia ou Equador, onde há plebiscitos e o mandatário pode passar por referendos revogatórios. No Equador, por exemplo, os programas de governo dos candidatos, quando eleitos, são tomados como obrigatórios; e se não são cumpridos, abre-se um processo penal contra o governante. No caso do Brasil, esse tipo de medida poderia ser feito apenas por lei, porém é evidente que com o atual Congresso uma medida assim não seria aceita.
Então, o maior problema do Brasil hoje é a enorme dificuldade em mobilizar e organizar a população, favorecido pela distância territorial, pela debilidade das organizações etc. Creio, porém, que as coisas não vão seguir por muito tempo assim, e que as organizações vão reagir no próximo período. Afinal de contas, não é possível que um país como o Brasil, com enormes riquezas naturais, com a quantidade de multimilionários, seja o país mais desigual da América Latina! É um absurdo essa situação! E o que as elites tratam de fazer é promover o isolamento do Brasil em relação ao resto da América Latina (não há nenhum canal de televisão de outros países da América Latina que passe no Brasil). Porém, esta muralha está sendo rompida aos poucos, a partir de diversos meios de comunicação – especialmente a internet, utilizada em grande escala pela juventude brasileira. Tenho grande esperança nessa juventude, que, inclusive na periferia, tem ampliado o acesso a esses diferentes meios de comunicação, e isso é perigosíssimo para as classes dominantes de hoje, assim o era a alfabetização do trabalhador no início do século XX. Há, ainda, que garantir que esses processos sejam bem organizados, para não cair na violência, que, no caso da polícia brasileira, levaria a uma repressão brutal.
Qual a sua avaliação sobre as políticas neodesenvolvimentistas brasileiras hoje? O senhor crê que elas podem levar o país à condição de potência mundial?
Penso que o Brasil tem potencialidades extraordinárias. Porém, transformá-las em poder real não é algo fácil. Não se trata de um processo linear e nem depende simplesmente de discursos. Para ser potência, há que ter um povo educado; para ser potência, há que ter um povo saudável; para ser potência, há que ter uma sociedade justa, que não esteja tragada por grandes tensões e contradições sociais; para ser potência há que ter autonomia e exercer soberania real. E quando vemos a situação a partir destes critérios, vemos que efetivamente o grau de autonomia do Brasil é ainda muito fraco.
Exemplo disso é que o Brasil há muito tempo não renova sua força aérea, que é um elemento fundamental para a defesa territorial. Há, ainda, setores das Forças Armadas e do establishment que defendem a compra de aviões dos EUA, que são na verdade o maior agressor potencial do Brasil, já que possui 23 bases militantes ao redor do país, sendo duas no Oceano Atlântico, sendo que de uma delas se pode enviar frotas marítimas que, em três dias, chegariam à costa de Fortaleza, e a outra se encontra nas Ilhas Malvinas, em parceria com os britânicos. E, entre essas duas bases marítimas, há toda a área do Pré-Sal! Então, há que ser tonto para não ver que a única potencial agressão que pode sofrer o Brasil vem dos EUA, logo este é o único país do qual o Brasil não pode comprar equipamentos bélicos! E, para que não permitam que os EUA se apropriem da Amazônia (como é o que se pretende fazer), há que ter equipamentos de vigilância adequados para isso, que nesse momento só podem ser fornecidos por dois outros países: Rússia e China. Então, se se compra esses aviões de última geração dos EUA, com seus softwares de combate de última geração que dependem de atualizações a cada quatro meses, o controle estadunidense torna-se absoluto.
Coloca-se ainda como alternativa a compra de caças franceses, no entanto Hollande está completamente envolvido com os EUA nas agressões à Síria. Quando houver um conflito de interesses entre EUA e Brasil, certamente os franceses irão boicotar os brasileiros.
E esse é um problema para o Brasil, mas também para toda a América Latina, pois o Brasil posto de joelhos pelo imperialismo é uma desgraça para todo o continente. Como os demais países poderão se defender se o Brasil não puder? Se o Brasil se desindustrializou tanto como nos últimos anos? Se o Brasil se dedica a fabricar agrocombustíveis a partir do acordo de Lula com Bush, ao invés de retomar sua vocação industrial? [Na última semana, o governo brasileiro confirmou a compra 36 caças Gripen, fabricados pela empresa Saab, da Suécia].
Outro problema é a visão do Brasil sozinho no mundo. O Brasil não tem condições de atuar sem parcerias. Apenas Índia e China poderiam atuar dessa forma. Quando Lula tentou imprimir uma política mais independente dos EUA, e quando o Brasil foi intervir junto com a Turquia nas negociações sobre o programa nuclear iraniano, foram completamente ignorados por Obama quando foram a Washington levar os resultados.
O Brasil tem, portanto, aspiração de ser potência, no entanto, o único modo de ser uma potência real é se pondo à cabeça de toda a América Latina. E isso é o que não se pode entender: se assumisse essa liderança, o Brasil teria um papel muito mais forte. A esperança de que o pré-sal possa ser uma salvação para o Brasil não está garantida e não é tão segura, já que há uma série de dificuldades na exploração dessa riqueza conforme diversos analistas têm mostrado. Portanto, é uma aposta bastante perigosa.
O Brasil precisa entender seu papel de liderança latino-americana, especialmente a partir da Unasul. Se não fazê-lo, pagará um preço muito caro. Kissinger já dizia há 20 anos (e os diplomatas brasileiros ou têm má memória ou não querem entender isso) que os EUA nunca permitiriam o surgimento de um grande poder abaixo do Rio Bravo.
A única potência no continente apenas poderia ser os próprios EUA. E essa é a política dos EUA, ante a qual a única saída do Brasil é fomentar a integração sul-americana. Esse papel de liderança é do Brasil, e não haverá qualquer competição com outros países por isso, pois a todos interessa de que isso aconteça. Porém, na prática, o Brasil é como um irmão maior que não quer saber dos irmãos menores. Se fi zesse cargo deles, teria uma capacidade de pressão internacional infernal. Com a quantidade de recursos naturais, água, petróleo, alimentos etc, há todas as condições para isso.
Nos falta, portanto, um líder regional. Quem sempre teve isso claro foi Chávez, que incentivava que o Brasil assumisse a dianteira da Unasul e não o faz. Agora está nessa estupidez do tratado com a União Europeia, que irá arruinar ainda mais a indústria brasileira.
O Brasil tem que ser o motor industrial de toda América do Sul. Porque não há como competir com os chineses,  por uma série de fatores e por aspectos históricos (casos concretos em que os chineses passaram por cima das indústrias brasileiras). Mas, o Brasil pode criar um espaço na América Latina. O Brasil deve ser como uma Alemanha sul-americana, e outros países também terão indústria e outras atividades.
Nessa região há terras férteis, riquezas naturais, água, comida, ou seja, todas as condições para isso. Nos falta um Brasil com visão continental, que lamentavelmente não existe hoje, pois os dirigentes brasileiros têm uma visão paroquial, regional, que não entende como funciona o mundo, e que é humilhado pelo Império. O caso da espionagem dos EUA é uma humilhação para o Brasil. Está bem que Dilma não vá encontrar Obama, mas isso é pouco ainda perto do que há que fazer. Há que entender que se hoje está sendo humilhado, amanhã poderá estar sendo agredido pelos EUA. Então, a única forma de defesa do Brasil é uma forte união sulamericana e uma capacidade de diversificar seus laços e, sobretudo, armarse com gente confiável que não lhe vá privar das armas em momentos de conflito que vai surgir. Porque os EUA vão querer a água e o petróleo do Brasil, e se não lhes derem eles buscarão pela força se necessário. Para isso, estão as 23 bases militares preparadas.
Essa liderança brasileira não poderia ofuscar o papel que cumpre a Venezuela no continente hoje?
Certamente que não, pelo contrário. Chávez tinha isso muito claro, e a imagem do “irmão maior” é do próprio Chávez. A liderança não significa atropelar os demais países, mas criar um consenso para articular conjuntamente um projeto, que dirige de forma coletiva, sem estabelecer relações subimperialistas.
Mas isso depende de dirigentes competentes, esclarecidos e de esquerda, e com esta gente não se pode fazer, pois os atuais estão a serviço do capital transnacional, e nem mesmo do capital brasileiro. Mas outra classe de dirigentes poderia fazer. Claro que há setores nacionalistas reacionários em outros países que podem se ressentir, mas a maioria da população não vê isso como um problema.
As eventuais rivalidades que possam ocorrer têm mais a ver com o fato de que a Venezuela não trata de falar, mas de praticar a solidariedade internacional, como no caso da Petrocaribe, que fornece petróleo a diversos países a preços abaixo dos praticados no mercado. Enquanto isso, a Petrobras é uma empresa tradicional, como a Shell, Exxon etc. Portanto, que não tenham rivalidade com a Venezuela, mas que tratem de aprender com essa generosidade venezuelana, e também com a generosidade cubana. Os dirigentes brasileiros não tem sido generosos: como entender a imposição de bloqueios pelos brasileiros ao arroz do Uruguai? Quanto arroz o Uruguai poderia exportar para o Brasil? É um absurdo! Se alguém almeja o papel de liderança, deve saber fazer concessões. Senão se assume uma postura coercitiva.
Nossa esperança, portanto, é que o Brasil compreenda este papel, e reconheça em primeiro lugar que foi enganado de forma escandalosa pelos EUA. O Itamaraty acreditou na promessa de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, mas os estadunidenses não tem como garantir isso, já que os demais membros também terão que aceitar a proposta. Ademais, esse assento não é algo artificial, mas reflete as condições reais de força na política internacional, e hoje, o Brasil não tem peso na política internacional. Todos estes países são potências atômicas, têm grande grau de autodeterminação. A Índia e a China são potências atômicas, fazem o que querem. O Brasil não faz o que quer. Oxalá o Brasil assuma a liderança do processo da unidade latino-americana, e assim o futuro da América Latina será muito promissor. Porém, se não se der conta de quem é seu verdadeiro inimigo, de quem está aí para impedir que o Brasil seja uma verdadeira potência, então o futuro será muito duro para todos nós.
A luta brasileira é portanto uma luta latino-americana...
Sem dúvida. Nós necessitamos disso. Imagine: temos a maior reserva petroleira do mundo na Venezuela, e agora também Brasil. Um continente com quase metade da água doce de todo o planeta. Apenas na região entre o Brasil e a Argentina é possível produzir alimentos para um bilhão de pessoas. Ou seja, todas as condições estão dadas para isso, e para passar por cima da crise capitalista
Foto: Marcello Casal Jr/ABr
 

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O mandato é do capital

O mandato é do capital

Jornal Brasil de Fato

O poder econômico comanda o sistema político e coloca a democracia à serviço de empresários, banqueiros e donos de terra
09/01/2014
Pedro Rafael Ferreira
de Brasília (DF)
A baixa representatividade que sofre a maior parte da população brasileira contrasta com o enorme poder político que as classes mais ricas detêm no Congresso Nacional.
Para se ter uma ideia, dos 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores) eleitos em 2010, 273 são empresários, 160 compõem a bancada ruralista, 66 são da bancada evangélica e apenas 91 parlamentares são considerados representantes dos trabalhadores, a chamada bancada sindical. Os dados são do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
Essa configuração está profundamente ligada ao sistema de financiamento eleitoral de campanhas, baseado no capital privado. “É por isso que lançamos a proposta de plebiscito para que a população convoque uma Assembleia Constituinte Exclusiva. Fazer uma reforma em um Congresso dominado pelos grandes grupos econômicos não será em benefício do povo”, argumenta Rosângela Piovezani, do MMC.
Campanhas milionárias
Em 2008, as empresas doaram 86% dos recursos totais das campanhas eleitorais no Brasil. Em 2010 e 2012, elas foram responsáveis por 91% e 95%, respectivamente. Com um gasto total girando em torno de R$ 735 milhões, o “mercado das campanhas eleitorais” tem seu preço para quem quer “investir”. A média geral do custo de uma candidatura é R$ 4,4 milhões no Brasil.
Ou se é empresário, ou necessita-se financiamento empresarial ou apoio de banqueiros para conseguir chegar ao poder. “Cada vez mais os eleitos se aproximam dos seus financiadores (donos das empresas) e se distanciam do povo, o que provoca uma justa indignação e desconfiança na sociedade”, afirma um trecho da cartilha que os movimentos sociais preparam sobre o plebiscito da constituinte do sistema político. Um momento de expectativa sobre isso se deu ao longo das últimas semanas no STF (Supremo Tribunal Federal). O julgamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, proposta pela OAB
(Ordem dos Advogados do Brasil), pode definir a proibição da doação de recursos de campanha por empresários. A votação foi interrompida quando já havia quatro votos a zero dos ministros a favor da proibição. O resultado parcial foi criticado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e o líder ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO). Ambos reivindicaram que o Congresso é que deve cuidar dessas mudanças.
“Como esses setores não quiseram fazer as mudanças no Congresso e viram o STF atuar, agora querem disputar a reforma política, mas para manter seus privilégios, como financiamento privado e o voto distrital, que perpetuaria as oligarquias políticas regionais”, afirma José Antonio Moroni, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).
Participação popular
Com a representação completamente dominada pelos donos do poder, o sistema político é incapaz de oferecer alternativas para participação direta da população. Mesmo com previsão constitucional para a realização de referendos e plebiscitos ofi ciais, a convocação desses instrumentos está nas mãos do governo e dos congressistas.
“Há uma lógica toda centrada na representação. E o monopólio da representação é exclusivo dos partidos políticos. É preciso um novo pacto social centrado na soberania popular”, defende Moroni, do Inesc

Ensino da cultura afro-brasileira nas escolas depende de “boa vontade”

Ensino da cultura afro-brasileira nas escolas depende de “boa vontade”

Jornal Brasil de Fato

Lei que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira completa 10 anos, mas aplicação da norma se restringe a educadores geralmente negros já engajados no debate
09/01/2014
Daniele Silveira
de São Paulo (SP)
Na luta permanente contra o racismo, ao longo de 2013, os movimentos sociais estiveram nas ruas para denunciar o genocídio da população negra. Ao mesmo tempo, a constatação de que a Lei 10.639 ainda não foi implementada é um dos sintomas da falta de comprometimento dos governantes com essa parcela da população, formada por mais de 100 milhões de pessoas, segundo o IBGE.
Resultado da pressão popular, desde 2003, essa lei tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e particulares. A legislação alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que cinco anos depois foi modificada pela Lei nº 11.645/08, incluindo a temática indígena.
Neste ano, a Lei nº 10.639 completou uma década, e o que se percebe são poucas iniciativas de aplicação da norma, tocadas por educadores geralmente negros já engajados no debate. A situação é confirmada no depoimento da professora da rede pública Adriana Moreira.
“O que eu tenho que fazer é levar a pauta para sala de aula, pensar nos valores civilizatórios afro-brasileiros e como esses valores podem organizar o meu trabalho dentro da sala de aula, metodologia, enfim. Mas normalmente é um ou dois professores. Não tem uma disposição do coletivo de professores ou mesmo da gestão da escola em implementar a lei e tornar esse um conteúdo estruturador do currículo e do projeto político, pedagógico, da escola.”
A educadora ainda avalia que a dificuldade de aplicação da lei também está relacionada à própria formação dos professores, pois cursos superiores de Licenciatura e Pedagogia ainda resistem em incorporar disciplinas sobre o tema em seus currículos. Como ressalta Dennis de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo (USP), em um artigo de balanço dos dez anos da lei: “Observa-se essa dificuldade em maior grau nas grandes universidades, como a USP. Revela-se aí o caráter eurocêntrico e racista hegemônico no pensamento acadêmico”.
Adriana também questiona a falta de ferramentas que possam ajudar a fiscalizar a implementação efetiva da lei, como o próprio Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
“Para além disso, a Lei nº 10.639 não é um critério para avaliação do Ideb. Então, quer dizer, o Estado brasileiro pensa uma legislação, ela não dispõe recursos específicos para trabalhar com a temática e não prevê avaliação do processo. Porque o Ideb precisava ter um componente. A implementação da Lei 10.639 poderia vir a ser um dos critérios de avaliação das unidades escolares, e que infelizmente a gente ainda não viu isso”, sugere.
O Ideb é calculado com base em taxas de aprovação e desempenho dos estudantes na Prova Brasil.
Teimosia paulista
Também na área da educação, a implantação das políticas de ações afirmativas está entre as principais pautas do movimento negro. Em agosto deste ano, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei de Cotas Sociais, que destina 50% das vagas em universidades e escolas técnicas federais para estudantes oriundos de escolas públicas.
Dentro dessa cota haverá a distribuição entre negros, pardos e indígenas. A divisão será feita proporcionalmente à composição da população em cada estado, tendo como apoio as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na contramão da democratização do acesso ao ensino superior, muitas universidades estaduais ainda oferecem grande resistência para a adoção de cotas, sobretudo em São Paulo. Para o professor de História e integrante da UNEafro Brasil Douglas Belchior essa postura é consequência de um projeto político.
“É um projeto do governo do estado e do governador [Geraldo] Alckmin do PSDB que são contra as cotas e a presença de pobres e negros nas universidades. Eles continuam fazendo da universidade essa ilha de exclusão.”
A contraproposta de inclusão apresentada pelo governo de São Paulo no final de 2012 foi amplamente questionada pelo movimento negro. Alckmin defendia o Programa de Inclusão por Mérito (PIMESP), que criaria um curso intermediário entre o ensino médio e o ensino superior, chamado de “college”.
Fato é que no decorrer dos anos, as universidades paulistas adotaram políticas próprias de inclusão. A USP e a Unicamp concedem aos estudantes de escolas públicas – contemplando pretos, pardos e indígenas – um bônus que é acrescido na nota final.
A Unesp implantou cotas, mas a medida foi considerada tímida pelos movimentos por ser gradual. A universidade atingirá a meta de reservar metade das vagas somente em 2018.
Diante da resistência por parte das reitorias, em junho deste ano a Frente Pró-Cotas Raciais de São Paulo apresentou na Assembleia Legislativa um modelo de Projeto de Lei que prevê nas instituições de ensino superior mantidas pelo estado (USP, Unesp, Unicamp e Fatec) a reserva de 55% das vagas para cotas.
De acordo com a proposta, 25% seriam ocupadas por negros e indígenas, 5% por pessoas com deficiência e outros 25% por estudantes formados na rede pública. A metade das vagas destinadas para a escola pública estaria condicionada a uma renda per capita igual ou inferior a um salário mínimo e meio.
Nas ruas
Em paralelo, nas ruas, movimentos sociais realizam a campanha estadual de coleta de assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular de Cotas Raciais e Sociais para as Universidades Públicas de São Paulo.
Contrariando o histórico do governo de São Paulo na adoção de políticas afirmativas, Alckmin anunciou no começo de dezembro um projeto de lei prevendo cota racial no serviço público estadual. A proposta reserva 35% das vagas na administração direta e indireta para negros, pardos e indígenas.
Douglas avalia que a iniciativa é resultado da conjuntura política atual e da pressão popular que o movimento tem feito nos últimos anos.
“Agora ele tem um governo do PT muito próximo a ele, que é a experiência do Haddad na prefeitura. E o PT tem como característica avançar um pouco mais que o PSDB em algumas políticas de reparação especialmente nessas questões relacionadas à questão racial. E isso força ele ainda mais em um ano pré-eleitoral a ter uma resposta mais rápida. Então, não é por acaso que logo em seguida que a Dilma anuncia, o Alckmin vem seguida para fazer esse anúncio.”
No início de novembro, a presidenta Dilma Rousseff encaminhou ao Congresso Nacional projeto de lei que reserva 20% das vagas do serviço público para negros. A proposta foi anunciada durante a abertura da 3ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (III Conapir).
Foto: Reinaldo Canato/Folhapress