quinta-feira, 19 de maio de 2016

Temer e a Casa Grande se iludem: as elites que apoiam o impeachment ainda não compreenderam: seus privilégios continuarão a ser contestados



Temer e a Casa Grande se iludem

As elites que apoiam o impeachment ainda não compreenderam: seus privilégios continuarão a ser contestados




Protesto na avenida Paulista, no dia 13 de maio. João Luiz Guimarães

Primeiro ato: negros protestam contra o racismo diante da FIESP

Sexta-feira, 13 de Maio de 2016. Avenida Paulista, vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo), 12h30. Um grupo de homens negros e de mulheres negras se organiza para marcar com um ato chamado Em Legítima Defesa o momento do Brasil e os 128 anos da abolição da escravatura no país. “O racismo é golpe”, diz o DJ e ator-MC Eugênio Lima. “Ele tira o pertencimento de toda uma população em detrimento de outra.” Eugênio lembra que os afrodescendentes são maioria no Brasil: “A população afrodescendente é 53% da população brasileira”. Negros, negras e negrex – o termo transgênero -- representam a si mesmos no ato “no segundo dia do governo usurpador”. Cada um deles levanta um cartaz. Caminham em fila até o que chamam de “Casa Grande Moderna”: o prédio da FIESP, epicentro dos movimentos peloimpeachment da presidente Dilma Rousseff, quartel-general dos verde-amarelos. Diante do imponente edifício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, postam-se um ao lado do outro e erguem suas frases em absoluto silêncio.
“USP sem cotas é golpe. Rota é golpe. Meritocracia é golpe. Luana morta é golpe. Direita racista é golpe. Feminicídio e hipersexualização da mulher negra é golpe. Ausência de negros nos espaços públicos é golpe. Machismo é golpe. Eu ser suspeito é golpe. Teatro sem negro é golpe. Blackface é golpe. Mulata é golpe. Me seguir no mercado é golpe. Medo branco.” E a pergunta:
– Abolição é golpe?


Manifestantes protestam em frente à sede da FIESP, na avenida Paulista. 


Um dia antes, Michel Temer (PMDB) havia tomado posse como presidente interino, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) pelo Senado, anunciando um “governo de salvação nacional”. Compôs um ministério inteiramente branco e colocou como ministro da Justiça e da Cidadania Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública do governador Geraldo Alckmin (PSDB), relacionado por grande parcela dos movimentos negros e dos ligados aos direitos humanos como o mais recente responsável pela política de extermínio da juventude negra pela polícia do Estado de São Paulo.


A cena perturba os motoristas no trânsito lento da Avenida Paulista. Nas calçadas começa a juntar gente que volta do almoço ou se dirige a algum restaurante. “Que bobagem, não tem racismo no Brasil” e “Vão trabalhar, vagabundos!” são as frases mais ouvidas na plateia espontânea. Ao meu lado, uma dupla de amigos para. Um deles diz, em tom bem alto: “Não existe nada disso! Que frescura!”. Me apresento como jornalista e pergunto: “Por quê?” Ele apresenta-se como José Batista Sobrinho, 76 anos, médico oftalmologista, eleitor do PSDB. E responde:
– Esse racismo no Brasil não existe. Quero dizer, racismo existe no mundo inteiro. Mas no Brasil não é acentuado. Agora, por exemplo: você jamais se casaria com um preto.
– Por que o senhor acha isso?, pergunto.
– Parece que é algo internamente que você, como branca, não aceita. Porque você acha que essa raça é mais feia que a sua raça. Mas não é por isso que você vai discriminá-los. É uma pessoa igual a você. Frequenta a minha casa, frequenta a minha mesa, não tem problema nenhum. É uma pessoa igual a mim. Mas eu não me casaria com uma preta.
– Por quê?
– Não gosto. Tem alguns componentes que eu não gosto, coisas íntimas. Preferia uma pessoa diferente, mais clara. Questão de afinidade, de empatia. Mas não é por isso que vou discriminá-las.


José Batista Sobrinho. 


– O senhor é a favor ou contra o impeachment da presidente?
– É lógico que sou a favor. Ela quebrou o país. A convulsão social taí. E quem é culpado disso é o PT. Não sou contra oBolsa Família. Mas tinha que ser Bolsa-Escola, como era no tempo da Ruth Cardoso. Agora é Bolsa-Voto. Vou lhe dar o nome de uma cidade da Bahia que não tem ninguém trabalhando, todo mundo com Bolsa Família. No Nordeste, você não encontra uma doméstica pra trabalhar, porque tudo agora tem Bolsa Família. Mas não sou de Direita, não, não aceito isso.
– Como o senhor se define?
– Sou um liberal correto.
Três jovens mulheres, duas brancas e uma negra, observam o protesto. Os comentários são altos o suficiente para que se possa ouvi-los: “Quero ver esses negões aí na hora de casar. Se vão casar com essas negonas aí. Querem é brancas”. Risadas.
O grupo começa a repetir, alto, as frases dos cartazes. Na calçada, um homem grita para os motoristas dos carros: “Buzina! Buzina! Bu-zi-na!”. Quer que as buzinas abafem as vozes que denunciam o racismo. De repente, berra, furioso, para uma mulher num carro: “Enfia no cu, sua vaca!”.
Pergunto a ele por que disse isso. Ele apresenta-se como Fábio Andrade da Silva, 46 anos, segurança. E responde:
– Ela mostrou o dedo pra mim. É falta de elegância, é petista, é maloquera.
– E o impeachment?
– Sou a favor! Tou acampado aqui (na FIESP) há 58 dias.
– E o que acha dessa manifestação contra o racismo?
– São tudo desempregado, tudo com cargo comissionado do PT.


Fábio Andrade da Silva. 


Faço uma foto dele. Ele comenta, referindo-se às mulheres negras:
– Eu não vou gastar minha bateria (do celular) pra tirar foto dumas mundrungadessas aí.
– O que é mundrunga?
– Não sabe? Vá no dicionário que vai saber.
E sai gargalhando com um amigo.
O grupo se retira em silêncio. E volta para o MASP. Em legítima defesa.

Segundo ato: entrevista no vão do MASP sobre por que a FIESP é a “Casa Grande Moderna”

O teatro tem sido um dos espaços mais criativos (e contundentes) noquestionamento do racismo que atravessa a sociedade brasileira. Nos últimos anos tornou-se também um espaço de irrupção das tensões raciais que por décadas foram encobertas por mitos como o da “democracia racial”. O DJ e ator-MC Eugênio Lima, 48 anos, é um dos protagonistas dessa cena com múltiplas vozes. Em 2015, ele foi o mediador do debate realizado no Itaú Cultural após os protestos contra o uso de blackface numa peça. O evento foi um ponto de inflexão na luta contra o racismo, ao questionar os privilégios dos brancos nos espaços da cultura. Em Legítima Defesasurgiu a partir de outra polêmica: a peça Exhibit B, o controverso espetáculo do sul-africano Brett Bailey, que foi contestado como “racista” por parte dos movimentos negros brasileiros, ao reproduzir cenas em que os negros eram colocados em jaulas para exibição. Sua apresentação na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo acabou sendo cancelada, sob a alegação de “problemas de custo”. Por não se sentirem ouvidos no debate, os atores que participariam da produção criaram o Em Legítima Defesa e convidaram Eugênio para dirigi-los em ações. Uma de suas performances aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo, símbolo cultural das elites paulistanas. A FIESP foi escolhida por ser identificada como a “Casa Grande Moderna”


Eugênio Lima (à frente). 


Pergunta: Quais são os significados da escolha deste dia para o ato?
Resposta: A performance sobre a Abolição já iríamos fazer. A ironia do destino foi que o dia 13 de maio coincidiu com o segundo dia do governo usurpador. Essa ironia simbólica foi invisibilizada. Talvez o gabinete desse presidente interino seja o mais próximo de uma ação conservadora no Brasil desde 1964, e muito parecido com os gabinetes conservadores da Monarquia. São todos homens, todos brancos, com uma idade mais avançada, com vasto histórico sobre a política. Isso tudo foi construindo mais camadas simbólicas para esse momento. Esse governo não tem voto, não foi eleito pelo povo. Esse processo é um golpe político parlamentar.
P: Como você responde à pergunta escrita no cartaz que você ergueu: “Abolição é golpe?”.
R: A Abolição é golpe no sentido de que é apresentada como uma benesse do estado monárquico. A primeira coisa, portanto, é (a necessidade de) desinvisibilizar o primeiro grande movimento de massa deste país, que é o movimento abolicionista. A segunda coisa é que, ao dizer livres afinal, seríamos livres para tudo. Com o passar do tempo, essa ideia de liberdade vai sendo subtraída pela exclusão contínua. A política de imigração, quando se incentiva a população europeia a vir para o Brasil, é onde mais aparece a cara do Apartheid brasileiro. Foi um golpe na medida em que você tem um país com a maior população escrava do mundo, você faz a Abolição da escravidão e não existe nenhuma política de Estado para um problema que foi criado dentro da concepção de Estado. Isso é golpe.
P: E hoje, você acha que a Abolição já aconteceu?
R: A abolição é um projeto incompleto. Só que os efeitos desse projeto incompleto estão no extermínio da juventude negra, e este é um projeto muito nítido. Esse projeto é o eixo fundamental de uma política de controle populacional, criada em simbiose com um aparato jurídico-policial que está fundamentado em dois pontos centrais. Um deles é o encarceramento em massa: o Brasil é a quarta maior população carcerária do mundo e a única entre as quatro primeiras que continua a crescer. Isso está baseado numa espécie de "naturalização do racismo", seja na ideia de "suspeito cor padrão", seja na ideia de que negro/homem/pobre é igual a ser "bandido". Estas são justificativas para uma atuação diferenciada tanto da polícia quanto da justiça no que diz respeito a negros e brancos no Brasil. Negros têm geralmente penas mais duras do que os brancos, pelos mesmos crimes cometidos.
P: E o segundo eixo?
R: É o da “vida matável”. A polícia vive a lógica de uma guerra, seja contra o crime, seja contra as chamadas "classes perigosas". Ou seja, a polícia combate um inimigo comum, com táticas de guerra e aparatos de segurança importados de outros países, principalmente países que vivem guerras contra populações determinadas, como por exemplo o estado de Israel. Nessa lógica, é preciso se perguntar: quem é a população negra, pobre e periférica? É a população civil do exército inimigo. Uma vida matável é uma vida dispensável. Mas, como o racismo internalizado nas corporações policiais é sistêmico, essa lógica atravessa o tratamento de todo negro/negra, independentemente de sua classe social. É como se ser negro/negra fosse uma “espécie de sujeito a ser combatido”. E isso tem lastro no comportamento social, que, de maneira geral, tenta negar a existência de racismo. Isso é o que a professora Vera Malaguti Batista (socióloga que pesquisa o tema da criminalidade no Brasil contemporâneo) define como "Medo Branco": a ideia dessa conflitividade óbvia, de que um dia o país, que é majoritariamente negro, vai se insurgir, de que um dia haverá um grande conflito social se o "morro descer". E isso só pode ser evitado com uma dura e mortífera política de controle. Daí a nitidez do projeto de extermínio da juventude negra. O genocídio da juventude negra é real e imenso, mas o senso comum trata como se fosse uma exceção, uma anomalia – e não uma política.
P: Qual é a sua análise sobre o fato de o ministério de Temer não ter um único negro?
R: É uma mimese. Não só não ter um negro, como não ter uma mulher. Assim como suprimir, colocar sob a égide do Ministério da Justiça os Direitos Humanos e a Igualdade Racial. (Temer extinguiu o Ministérios das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e colocou tudo sob o guarda-chuva de um Ministério da Justiça e da Cidadania). Esse governo é ilegítimo até nisso. O país é signatário de tratados em Direitos humanos, o país é signatário de tratados de Combate ao Racismo. Não é uma coisa que eu, como governante, posso decidir, mas uma política de Estado. E, como política de Estado, independe de quem está no governo.
P: Por que você diz que a FIESP é a Casa Grande?
R: É a Casa Grande Moderna. Ela representou um projeto que é, numa ponta, a subtração de direitos constituídos, na medida em que essa pauta nunca passou pelo crivo eleitoral. Essa é a primeira coisa. Não é uma pauta do conjunto da população. Assim, só pode ser feita na surdina. A segunda coisa é que ela agiu de maneira clara e nítida incentivando ações fascistas. Insultando, racializando o discurso, diminuindo. E utilizou recursos que são públicos para financiamento de ações constituídas dentro do âmbito privado, como no financiamento dessas passeatas (a favor do impeachment). Esse jeito é o jeito da Casa Grande. Eu não estou chamando a FIESP de Casa Grande apenas porque são os herdeiros dos escravocratas. Mas por causa da lógica da Casa Grande. A Casa Grande organiza a sociedade, organiza o Estado à sua semelhança. O que era a Casa Grande? A Casa Grande era a Igreja, a Casa grande era o hospital, a Casa Grande era o Estado, a Casa Grande era tudo. A Casa Grande é onde tudo orbita. Essa é a metáfora do que essas forças reunidas em torno da FIESP fizeram neste momento histórico. Um momento análogo ao de 1964, já que a FIESP já fez isso antes, porque o golpe de 1964 foi civil, além de militar.

“O ministro da Justiça acha que Política é Polícia”

P: Qual é a importância da denúncia do racismo neste momento?
R: O racismo tem que ser uma pauta transversal, porque ele desmascara todas as relações. O racismo é aquilo que não pode ser dito. Quando você coloca que essa meritocracia é baseada no status racial, você vai começando a colocar por terra um monte de coisas. Que esses privilégios constituem uma espécie de golpe no direito de todo mundo, porque (o branco) já nasce com esses privilégios que estão constituídos no nível de cultura do país, embrenhados nos hábitos. Então, (o branco) tem uma vantagem adaptativa muito grande. Você vê como a ação coercitiva dos braços armados do Estado são violentos com a população negra do país. Assim, se invisibiliza um dado que jamais poderia ser invisibilizado, o de que somos um dos países que mais mata a sua juventude.
P: O que você achou da escolha do novo ministro da Justiça e da Cidadania, Alexandre de Moraes?
R: Eu acho muito ruim que uma pessoa que se dirija a movimentos sociais como “guerrilhas” seja ministro da Justiça de qualquer país. Eu acho ofensivo ao conjunto da população brasileira um ministro da Justiça que condecora policiais que agrediram estudantes secundaristas. Um ministro da Justiça que acha que Política é Polícia.
P: O que fazer diante disso?
R: Esse é o momento em que a juventude negra e a multiplicidade da presença negra na sociedade precisam lutar de todas as maneiras pela desinvisibilização dessas questões. Uma das coisas mais cruéis dessa história é a ideia de que a reorganização das elites pode dar o tom de todas as questões. Como se a nossa história fosse uma sequência de reorganizações das nossas elites. Como se não existisse uma outra historia possível que não seja essa. É um momento muito triste. Por isso é o momento de constituirmos vocabulário político, mas sobretudo poético. Porque encaro isso como uma narrativa, que utiliza todos os seus símbolos para constituir o senso comum. E como o racismo é transversal, assim como o machismo é transversal, eles são capazes de desvelar essa narrativa.
P: E as imagens?
R: As imagens são muito potentes. Você olha o ministério e diz: “Caramba, mas só tem homens? E brancos? E muito velhos?”. Não que a idade seja um problema em si, mas eles são a cara de uma maneira de fazer política. São figuras calcadas numa série de questões que representam interesses coorporativos muito nítidos. Uma pauta que não foi nem eleita, que sequer passaria pelo crivo das ruas, que sequer passaria por uma eleição para governador. Só pra lembrar: o presidente da FIESP tentou essa pauta no governo do estado de São Paulo (nas eleições de 2014, Paulo Skaf era o candidato do PMDB). E nem isso ele conseguiu. Nem a unanimidade dentro da própria Direita. Então, este é um governo ilegítimo e é um governo usurpador. E, neste sentido, é tão claro, e é claro mesmo, é branco, que até as forças do capitalismo reconhecem que esse processo é questionável.

Terceiro Ato: reflexões sobre o governo que se inicia com as bênçãos de Sarney e de Malafaia

O período democrático que se seguiu à ditadura civil-militar no Brasil foi chamado de “Nova República”. É possível que tenha se encerrado. É preciso encontrar um nome para denominar o período ainda indefinido do governo de Michel Temer (PMDB), iniciado em 12 de maio, após o afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado. Como nomear esse momento, ao mesmo tempo novo e velho, na trajetória do país, é algo em disputa. Encontrar esse vocabulário próprio, plural, como já escrevi aqui e como é tão bem dito por Eugênio Lima, faz parte dos desafios do atual cenário. É com políticas culturais que um país constrói voz própria. Como se sabe, Temer extinguiu a pasta da Cultura.


Michel Temer, rodeado de ministros e políticos, ao tomar posse como presidente interino no dia 12 de maio, em Brasília. 


A imagem do ministério de Temer produz estranhamento. É como um retrato que já nasce amarelado. Só brancos, só velhos, só homens. Nenhuma mulher, nenhum negro. Esse retrato é uma imagem poderosa porque não representa o Brasil atual. É também uma mensagem poderosa. Apesar de mencionarem muito o “futuro”, o que interessa a Temer e seus aliados para seguirem garantindo apoio é afirmar o passado. A mensagem gerada pela escolha do ministério reafirma a ideia de que o Brasil voltou a uma espécie de ordem estabelecida. E há até setores que podem comemorar esse feito, como se de fato se tratasse apenas de um retorno ao que sempre foi e jamais deveria ter deixado de ser. Mas, para compreender essa fotografia, é preciso entender que simplesmente voltar já não é possível.

Temer e seu ministério são um retrato que já nasce amarelado e que não representa o Brasil

Temer e as forças que protagonizaram esse momento podem até acreditar que dá para voltar ao passado que representam, mas se equivocam. Não dá para retornar ao Brasil pré-cotas raciais, ao Brasil antes do #meuprimeiroassédio, ao Brasil antes do Bolsa Família e do protagonismo das mulheres chefes de família, ao Brasil em que os mais pobres aceitavam não ter acesso ao consumo, ao Brasil em que pobre não chegava à universidade, ao Brasil em que estudantes de escolas públicas aceitavam calados serem violados em seus direitos mais básicos. Essa ideia pode até ser acalentada por Temer e pelas forças que permitiram que ele assumisse o poder. Mas é desejo, não fato.
A ideia de que as elites podem escrever toda a história do país, e reescrever, e suprimir capítulos, e dizer qual é a narrativa que vai preponderar sobre todas as outras não se sustenta no Brasil do presente. O ato dos negros, negras e negrex diante da FIESP é uma pequena grande cena. Os exemplos irrompem em todos os cantos. Quem acredita que as forças criativas que emergiram em 2013 podem ser silenciadas é um mau leitor do momento histórico. E isso vale para os antipetistas e vale também para os petistas. Os movimentos sociais agora são outros. E se lançam com palavras novas – e próprias.
Há muito de velho e há também algo novo no ministério de Temer, como uma imagem desse pacto de elites. Há pelo menos um investigado pela Lava Jato, Romero Jucá (PMDB). E um sobre o qual há dois pedidos de inquérito, Henrique Alves (PMDB). Há Alexandre de Moraes (PSDB), um ministro da Justiça que condecora policiais que espancam estudantes adolescentes. Há um ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que mudou do PR para o PP para garantir seu nome para o ministério. Maggi, conhecido como “o rei da soja”, já foi o vencedor do prêmio “Motosserra de Ouro”, dado pelo Greenpeace, em reconhecimento à sua colaboração para a destruição do meio ambiente. Há Osmar Terra (PMDB), defensor ferrenho de uma política de drogas comprovadamente ultrapassada, ligada ao extermínio da juventude negra e ao encarceramento massivo dos mais pobres. Há vários que estiveram com Dilma Rousseff até a véspera, como Gilberto Kassab (PSD) e Leonardo Picciani (PMDB). E mesmo os mais jovens são herdeiros de velhos clãs ligados ao PMDB, como Sarney e Barbalho, entre outros. “Notáveis” não há. Mas, como se viu, há notórios.

É urgente compreender o ambicioso projeto político das igrejas evangélicas para compreender o Brasil atual

Mas também há algo que parece velho, mas é novo. Porque não é novo apenas aquilo que achamos que deve ser. Trata-se do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcos Pereira (PRB). Se há algo pouco compreendido e investigado no Brasil é o crescimento das igrejas evangélicas no país. Primeiro, colocam-se todas na mesma caixa, e elas são bem diferentes entre si. O espectro é amplo. As que mais têm crescido não representam um projeto religioso. O que representam é um projeto econômico e, principalmente, político. É aí que mora o perigo. Marcos Pereira é o arquiteto que fez o PRB, partido ligado à Igreja Universal e à TV Record, duas frentes da mesma construção política, ganhar musculatura no Congresso. É urgente que se compreenda melhor o crescimento de algumas igrejas evangélicas no país e seus respectivos projetos de poder para que se entenda o país. Vale a pena perceber também que a Igreja Católica, outrora tão ativa na política brasileira, teve pouca ressonância no desfecho que levou Temer ao poder.
Há dois atos de Temer que têm grande força simbólica para a compreensão do pacto instalado no Planalto. No dia da votação do impeachment no Senado, 11 de maio, ele só deixou o Palácio do Jaburu, onde parlamentares vinham lhe beijar a mão, para beijar uma mão mais poderosa que a dele, a de José Sarney, esse personagem que atravessa a ditadura e a redemocratização. As digitais de Sarney estão por toda parte, em especial no setor elétrico do país. Isso é velho. E forte.
No dia seguinte, após a posse como presidente interino, Temer recebeu a bênção de Silas Malafaia, o mais truculento líder evangélico do país, e rezou com expoentes da bancada evangélica, como o pastor e deputado Marco Feliciano (PSC), cuja atuação nefasta dispensa apresentações. Isso é novo. E forte. É preciso decodificar essas duas cenas com mais profundidade do que temos feito.
A imagem de um Lula alquebrado, quase distraído, ao lado de Dilma Rousseff, durante o discurso de despedida diante do Planalto, dá margem a muitas interpretações. Lula não disfarçava. Talvez porque não quisesse, talvez porque já não pudesse. Seu rosto estava devastado. Era um fim. Independentemente do que vai acontecer com Dilma e principalmente com o PT nos próximos meses, e que está longe de estar dado, ali havia um fim. Se este final significar uma autocrítica feroz do PT sobre suas escolhas no poder, não só o campo das esquerdas ganha, como o país.
Para citar apenas uma cena desse longo e acidentado roteiro: foi Eduardo Cunha quem peregrinou pelas igrejas evangélicas a serviço de Dilma Rousseff e do PT na campanha eleitoral de 2010, assegurando aos pastores que a então candidata era contra o aborto. Naquele momento, o PT rifou uma de suas bandeiras históricas em troca do voto religioso e dos aliados de ocasião. Cunha, obviamente, sempre esteve a serviço apenas de si mesmo. Este é um momento emblemático. E é apenas um. Há que se passar a limpo todos eles.

O PT precisa enfrentar suas contradições no poder e fazer uma autocrítica implacável

Há que se passar a limpo a tal das escolhas feitas em nome da palavra mais horrenda do léxico político recente: “governabilidade”. A única saída digna para o PT é enfrentar as contradições e fazer autocrítica. Mas não parece que seja isso que vai acontecer. Mais uma vez. É bem mais fácil ser apenas vítima. E também mais conveniente para 2018. Mas já era tempo de entender que o mais conveniente e mais fácil custa caro logo ali.
Quem briga com os fatos sempre acaba perdendo em algum momento. Se Dilma foi afastada e o PT encontra-se nesse buraco é também por escolher desviar das contradições – ou mesmo encobri-las. E isso vale também para as esquerdas que preferiram fazer de conta que era possível perdoar o imperdoável, como Belo Monte. E que continuam a fazer de conta, deixando esse campo desorganizado e abrindo um vazio que logo será ocupado, sabe-se lá pelo quê.
O rosto devastado de Lula, ao lado de uma Dilma em seu derradeiro discurso, e a cena do ministério de Temer, com papagaios de pirata como Aécio Neves (PSDB), evocam também uma interrogação sobre quem são os profissionais do ramo. Parte das elites bajula Lula desde que ele era um líder sindical do ABC, vale rever a cena do Gallery, em 1979, quando Lula vai jantar na boate dos ricos a convite da revista Manchete. Na campanha de 2002, ele desfilou em terno Armani pelos salões da elite paulistana abertos por Marta Suplicy, que sabemos bem o que fez nos verões passados e o que faz hoje. Assim como pelo casal Eleonora Mendes Caldeira e Ivo Rosset. Era o operário que chegou ao paraíso.
Dali em diante Lula gostou cada vez mais dessa bajulação dos salões. E o mesmo vale para muitos do PT. Em algum momento, eles acharam que eram os donos da bola desse jogo viciado, sem perceber que eram observados de perto – e com algum divertimento – por cartolas tão velhos quanto o diabo. Na política, no empresariado, na justiça. E Lula acreditou que era mesmo um ungido, bastando abrir a boca para chamar as massas para si, enquanto cada vez mais se distanciava delas também na produção simbólica de imagens.
Tudo indica que Lula e o PT não compreenderam por completo a complexidade do jogo e a fragilidade do seu lugar nele. Escolheram jogar o jogo do adversário e abriram mão de questionar as regras, achando que podiam seguir ganhando. Dilma, por sua vez, provou-se um dos maiores equívocos de Lula, até então famoso por sua intuição política. Até (quase) o final acreditaram que podiam virar a partida decisiva. A ironia maior é o fato de que quem ficou ao lado de Lula, Dilma e o PT foi a torcida a qual tinham virado as costas ao rifar bandeiras históricas.

Lula acreditou que era o dono da bola e descobriu que a bola nunca foi de fato dele

A face devastada de Lula contém muitos significados. Um deles pode ser decodificado como o rosto entre a surpresa e a mágoa do menino que achava que para sempre seria o dono da bola. Mas descobriu que nunca foi de fato o dono da bola. O sorriso de escárnio dos ministros de Temer e de seus apoiadores, a expressão de euforia mal contida do próprio Temer, pareciam dizer: “Tolinhos, os profissionais agora vão cuidar de tudo”. É a arrepiante volta dos que nunca foram.
Houve um momento em que o PT poderia ter mudado o jogo. E não mudou. Não é possível seguir acreditando que tudo o que aconteceu foi por que o PT mudou o jogo. O impeachment se tornou viável exatamente pelo motivo contrário: porque o PT não mudou o jogo no principal. E essa é a parte incontornável.
Mas a história não está dada. O Brasil não é o que era. O passado não volta. O lema positivista “Ordem e Progresso”, que Temer pegou emprestado da bandeira, como lembrou o escritor Sérgio Rodrigues em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, já era conservador quando proclamaram a República, no final do século 19. Em entrevista exclusiva ao Fantástico, programa da TV Globo, no domingo, 15 de maio, Temer respondeu que um dos legados que gostaria de deixar é “a pacificação do Brasil”.
A “pacificação” proposta por Temer é cada um voltar a ocupar seu lugar racial e social como se essa fosse a organização natural das coisas. A “pacificação” de Temer é paz apenas para alguns. A esse desejo de retorno da velha ordem das elites e do progresso para os mesmos de sempre contrapõe-se hoje a frase poderosa, quase um mantra, escrita em um dos cartazes levantados na Paulista na performance dos ativistas negros: “Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém”.
Tanto o PT quanto aqueles que agora estão (ou continuam) no poder ainda não compreenderam a potência de 2013. A polifonia que ocupou as ruas naquele momento, para além de qualquer controle possível, segue nas ruas, apesar das bombas de gás da polícia. É essa a força simbólica dos negros e negras e negrex que se postaram diante da “Casa Grande Moderna”. Em legítima defesa.
Quem acha que é o fim da história ainda não entendeu que ela mal começou.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

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domingo, 8 de maio de 2016

Falsidades, por Janio de Freitas - Fernando Brito para Tijolaço

Falsidades, por Janio de Freitas

trick
Há algo que falta mais ao Brasil hoje que vergonha.
É sinceridade.
As coisas evoluíram de uma forma em que nada mais escapa à suspeita.
Da delação de um corrupto às sentenças dos tribunais, nada escapa à impressão – já quase certeza – tudo tem, mais fraco ou mais forte, o cheiro de arranjos, ou de ânsia,  de poder.
Poder – para políticos, para juízes, para promotores, para policiais e para veículos de comunicação – sem a única coisa que o legitima: o voto.
Janio de Freitas, hoje, na Folha, descreve o triste retrato de estarmos…

No país dos truques

A suspensão do mandato de Eduardo Cunha, motivo de polêmica ainda por muito tempo, sufocou a denúncia judicial de Lula e de Aécio, entre outros, pelo procurador-geral Rodrigo Janot. A repentina pressa do Supremo Tribunal Federal em afastar o presidente da Câmara poupou Janot de questionamentos, do PT e do PSDB, por aquela solicitação. Mas não evita sua inclusão como personagem destes tempos de truques: no plenário e no Conselho de Ética da Câmara, no Senado e suas agendas, na Lava Jato, acusados no governo, e há quem os veja mesmo no Supremo.
Durante um ano, seis meses e meio, ou os 559 dias constatados por Bernardo Mello Franco desde a primeira citação a Aécio na Lava Jato até ser denunciado, os demais delatados por Alberto Youssef foram objeto de atos do juiz Moro ou de Janot. Aécio, não. Poderia ser por investigações em andamento. Mas a denúncia nada trouxe assim. Por que é feita agora? Por causa de Lula.
A dedução é inevitável. A presença de Aécio neutraliza, ao menos atenua, a reação ao novo e grave fato por parte dos convictos de perseguição organizada a Lula, para impedir sua eventual candidatura em 2018. Aécio ficou guardado por mais de ano e meio, até ser, mais do que uma pessoa e um denunciado, uma utilidade manejável e precisa. Olha, o Aécio também está denunciado.
Alguns dirão: Aécio, aquela azeitona. Ele se deixou assimilar no papel com naturalidade, disponível para a resposta única de que a denúncia não o ameaça. Deve estar certo. O que nem de longe significa que na década passada faltassem improbidades tremendas na estatal Furnas. Em cujo elenco, aliás, o astro já era Eduardo Cunha. E não por coincidência, nos últimos tempos, tal como a denúncia diz daqueles idos, com Aécio a ele associado no mesmo roteiro.
São truques demais, nestes tempos. Sem falar na imprensa, Deus me livre. Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo. Há dois anos vemos as prisões persistentes até a delação, que recursos não faltam a juízes para defender prisões. São muitos truques. E agora Aécio com Lula. E já Dilma: é preciso inviabilizar o retorno.
São muitos truques. E mais virão onde o Supremo os supõe extintos. Pois ninguém sabe até quanto se esvazia o poder de Eduardo Cunha sobre grande parte da Câmara. Tal poder está conectado a interesses presentes e futuros, financeiros-eleitorais inclusive, e a um arsenal de informações pessoais inimaginável, recente e passado. Não à toa, contou Cunha que Michel Temer foi dos primeiros a telefonar-lhe depois da suspensão de seu mandato, em evidência da definição do vice entre os vários segmentos opostos.
Sob o predomínio dos truques, Cunha e seus aliados não acusariam o Supremo de outra coisa. Na verdade, o Supremo produziu um sofisma jurídico. A suspensão do mandato de Eduardo Cunha sem duração prevista é, na prática, cassação. Se o Conselho de Ética o cassar, e talvez seja difícil fazê-lo, ou se não o cassar. Neste segundo caso, o Supremo não sustará a suspensão: a maioria das acusações estará imutável. Cunha irá suspenso até o fim do seu mandato. E isso, quanto à condição parlamentar, é o mesmo que cassação.
Estamos sendo embalados por truques demais. Políticos, econômicos, judiciais, policiais, por toda parte. O governo que promete um “ministério de notáveis”, reformas e fim das crises, é mais um. O de maior alcance e, tudo indica, o mais desastroso.
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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Por que só agora o senhor se mexeu, ministro Teori? Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Por que só agora o senhor se mexeu, ministro Teori? Por Paulo Nogueira



Postado em 05 May 2016
Demora criminosa
Demora criminosa
Está havendo uma festa estridente com o afastamento enfim de Eduardo Cunha da presidência da Câmara.
É como se o Brasil estivesse se livrando de um câncer.
O ministro Teori, depois de mais de quatro intermináveis meses, aceitou o pedido de remoção de Cunha feito pelo procurador geral Janot.
Mas o foguetório não pode esconder uma questão crucial: por que só agora Teori se mexeu?
É, neste momento, a pergunta de 1 milhão de dólares.
Não mudou nada desde que Janot entregou a solicitação de saída de Cunha em 15 de dezembro.
Quer dizer: não mudou nada em Cunha. Eram amplamente conhecidos seus crimes. Já fazia meses desde que as autoridades suíças tinham dado de bandeja às brasileiras provas de contas secretas de Cunha na Suíça.
Isso configurou perjúrio num depoimento de Cunha na Câmara em que ele afirmou não ter contas no exterior.
Muitas outras evidências se somaram a estas.
Não mudou, portanto, o quadro de Cunha nos últimos meses. Até os analfabetos políticos que o defendiam como “um corrupto nosso” passaram a sentir repugnância dele.
Na verdade, a única coisa que mudou foi que, de mãos livres o tempo todo até agora, Cunha pôde comandar o golpe que vai exterminando a frágil e jovem democracia brasileira.
Por que Teori não fez o que fez antes que Eduardo Cunha transformasse o Brasil num imenso, desolador, patético Paraguai?
Não se tratava de salvar Dilma. Mas de salvar a democracia,  a dignidade, a honra nacional. E também de mostrar à sociedade que o crime não compensa.
Pela lentidão de Teori, fomos obrigados a suportar espetáculos dantescos como a sessão da Câmara em que o impeachment foi aprovado por bufões corruptos de toda espécie.
Fomos obrigados a suportar, um domingo inteiro, o rosto cínico de Cunha sentado no plenário da Câmara como um imperador, como um Nero ateando fogo no país.
Fomos obrigados a suportar o Brasil se transformando em motivo de piada no mundo inteiro, graças a deputados ridículos que dedicaram seus votos a coisas como famílias quadrangulares, maçons, pais, filhos, netos e agregados.
Fomos obrigador a suportar monstruosidades como Bolsonaro dedicar seu sim a um torturador que colocava coisas nas vaginas de prisioneiras políticas grávidas na ditadura.
Teori permitiu todas essas atrocidades nacionais por deixar engavetado o pedido de afastamento de uma das maiores vocações de corrupção da história do Brasil – provavelmente a maior.
Teori permitiu que a situação econômica se deteriorasse ainda mais com o processo de impeachment paralisando o país. Com isso, milhares, talvez milhões de brasileiros perderam seu emprego.
Por quê?
A resposta só o próprio Teori sabe.
O que é todos sabemos é que no tribunal da história Teori será exemplarmente punido por esse crime de lesa pátria.
(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Dilma já governa com as ruas Leblon: o confronto é aberto - Saul Leblon para Conversa Afiada

Dilma já governa com as ruas

Leblon: o confronto é aberto
publicado 03/05/2016
bessinha assalto
Conversa Afiada reproduz artigo de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:


Dilma já governa com a rua e resistirá se a rua se organizar

Hoje a palavra organizar virou sinônimo de resistir; assim como rua se tornou equivalente ao verbo lutar

por: Saul Leblon

A história apertou o passo no país e quem não entender isso será atropelado pela velocidade dos acontecimentos.
 
Esse é um tempo em que jornais de hoje amanhecem falando de um remoto mundo de ontem; tempo em que a tergiversação colide com a transparência; tempo em que nenhum discurso faz mais sentido dissociado da tríade: ‘rua’, ‘resistência’ e ‘organização’.
 
As sirenes da história anunciam confrontos intensos no front.
 
De um lado, os interesses da maioria da população; de outro, a coalizão da escória parlamentar com o rentismo e a classe média fascista.

No arremate desse enredo a mídia insufla a venezuelanização do Brasil.
 
Não é sugestivo do lugar da Folha na história que a edição desta 2ª feira, por exemplo, de hoje mostre Paulinho Boca festejado pelo 'povo' e Dilma cercada por uma mosca?
 
Dilma fez no 1º de Maio do Anhangabaú o melhor discurso de sua vida.
 
Veja a íntegra de sua fala aqui: https://www.facebook.com/jornalistaslivres/posts/363835267073690
 
Sim, Dilma incendiou um ato que começou morno e sem a presença de Lula. Como explicar essa mutação que passou batida aos petizes da mídia pautados no Anhangabaú para alimentar o golpe –de moscas, se possível—e não para fazer jornalismo?
 
A explicação está no acirramento de um conflito que Lula, Dilma, o PT e todas as forças progressistas e democráticas resolveram encarar de frente, pelo simples fato de que não fazê-lo seria trair o país, o povo e, sobretudo, a esperança na construção de uma democracia social na oitava maior economia do mundo e principal referência da luta pelo desenvolvimento no ocidente.
 
Todo o discurso da Presidenta Dilma irradiou esse discernimento de que o seu governo e mais que ele, o projeto que ele expressa só tem futuro se tiver o desassombro de ser defendido na rua.
 
Foi isso que Dilma fez ao levar seu governo à rua do 1º de Maio e lá anunciar um aumento médio de 9% para o Bolsa Família, ademais de reafirmar a prorrogação do Mais Médicos por três anos, corrigir a tabela do IR e adicionar mais 25 mil contratações à linha do Minha Casa vinculada à autoconstrução dos movimentos.
 
Dilma afrontou assim o martelete midiático do ‘país aos cacos’ , que lubrifica a sociedade para a resignação diante do arrocho embutido na tese do golpe ‘saneador’.
 
Dilma fez mais que isso ao acusar a sabotagem paralisante contra o seu governo, por parte dos interesses que, derrotados quatro vezes no jogo democrático, resolveram destruir a urna e pisotear seus escombros para chegar poder.
 
A propaganda do jornalismo embarcado sonega esse traço central da encruzilhada brasileira: a ofensiva golpista não é uma consequência da crise; ela é a crise em ponto de fusão.
 
Em outras palavras, ao contrário do que solfejam os violinistasdo golpe, não existe uma ‘macroeconomia responsável’ (a do arrocho) que vai tirar o Brasil da espiral descendente.
 
O que existe é um acirramento da luta de classes, a exigir uma repactuação política do país e do seu desenvolvimento. Algo que a plutocracia, a mídia, a escória e o fascismo decidiram elidir por meio do golpe e através dele impor a sua agenda ao país.
 
‘Eu vou resistir’, disse Dilma ovacionada pela multidão no Anhangabaú que teve a prerrogativa de participar desse pontapé da resistência de uma Presidenta que passou a governar na rua, pela rua, com a rua. 
 
Esse é  o requisito para mudar a correlação de forças e destravar as verdadeiras reformas de que a sociedade e o desenvolvimento necessitam.
 
A saber:  reforma política, para capacitar a democracia a se impor ao mercado; reforma tributária, para buscar a fatia da riqueza sonegada à expansão da infraestrutura e dos serviços; reforma do sistema de comunicação, para permitir o debate plural dos desafios brasileiros –que são poucos, nem se resolvem sem ampla renegociação do desenvolvimento.
 
Quem rumina desalento diante do gigantismo dessa tarefa menospreza o salto histórico percorrido nos últimos meses.
 
Há exatamente um ano, um outro comício do dia do trabalhador organizado no mesmo Vale do Anhangabaú foi igualmente desdenhado pelo noticiário –e mesmo por uma parte da esquerda.
 
Foi tratado como mero evento retórico.
 
Um ano depois, as ruas do Brasil já não dormem mais.
 
Um ciclo de grandes mobilizações de massa está em curso no país.
 
Respira-se a expectativa dos campos de batalha no amanhecer do confronto.
 
A engrenagem capitalista puro-sangue escoiceia o chão do estábulo. Aguarda os cavalariços do golpe que vem lhe trazer a liberdade para matar.
 
A chance de que o embate resulte em uma sociedade melhor depende da determinação progressista –acenada no discurso de Dilma-- de assumir a rédea das forças xucras do mercado, para finalmente domá-las a favor do povo e da nação brasileira.
 
O golpe tornou quase inevitável isso que o ciclo do PT sempre adiou em favor de soluções acomodatícias e avanços incrementais.
 
A natureza ferozmente excludente de sua lógica revela os limites estreitos e  irredutíveis de uma parte da elite brasileira, da qual a mídia se fez porta-voz.
 
No 1º de Maio do ano passado, Lula –ausente nesse por recomendação médica-- lembrou que a primeira universidade brasileira só foi construída em 1920.
 
Quatro séculos depois do descobrimento.
 
Em 1507, em contrapartida, 15 anos depois de Colombo chegar à República Dominicana,  Santo Domingo já construía sua primeira universidade.
 
Tome-se o ritmo de implantação do metrô em São Paulo, em duas décadas de poder tucano.
 
Compare-se a extensão duas vezes maior da rede mexicana, ou a dianteira expressiva da rede argentina e  da chilena.
 
O padrão não mudou.

Lula criou 18 universidades em oito anos. A elite levou 420 anos para erguer a primeira e Fernando Henrique Cardoso não fez nenhuma.
 
Há lógica na assimetria.
 
Para que serve uma universidade se não faz sentido ter projeto de nação; se a industrialização será aquela que a ALCA rediviva permitir e se o pre-sal deve ser entregue à Chevron?
 
O que Lula estava querendo dizer ao povo do Anhangabaú, então, tinha muito a ver com algo que agora assume nitidez desconcertante nos ‘planos’ do golpismo.
 
O desenvolvimento brasileiro não pode depender de uma elite que dispensa ao destino da nação e à sorte do seu desenvolvimento o mesmo descompromisso do colonizador em relação aos povos oprimidos.
 
Uma elite para a qual a soberania é um atentado ao mercado não reserva qualquer espaço à principal tarefa do desenvolvimento, que é civilizar o mercado para emancipar a sociedade e, portanto, universalizar direitos.

Reinventar a soberania no Brasil do século XXI, portanto, implica vencer o golpe e seu projeto de terceirização do Estado e do patrimônio nacional aos mercados.
 
A devastação do mundo do trabalho e a supressão da cidadania social é a lógica que move o golpismo e os homens-abutres frequentam seu bazar de ministérios.
 
O que a elite preconiza nos salões onde se negocia o botim é de uma violência inexcedível em regime democrático e muito provavelmente incompatível com ele.
 
É como se uma gigantesca  engrenagem cuidasse de tomar de volta tudo aquilo que transgrediu os limites de uma democracia tolerada por ser apenas formal, mas que o ciclo iniciado em 2003, com todas as suas limitações, desvirtuou em direção a um resgate social transgressivo para o gosto da elite local.
 
No lugar disso, o que se pretende instituir agora é um paradigma de eficiência feito de desigualdade ascendente. A Constituição Cidadã de 1988 será retalhada. Programas e políticas sociais destinadas a combater a pobreza e a desigualdade de oportunidades serão evisceradas. O que restou da esfera pública, privatizado. A riqueza estratégica do pré-sal e o impulso industrializante contido na exigência de conteúdo nacional serão ofertados no altar dos ditpos livres mercados (ou Chevron).
 
A ambição implica regredir aquém do ciclo de redemocratização que subverteu  o capitalismo selvagemente antissocial da ditadura. Como disse Dilma no 1º de Maio: lutamos hoje para preservar  tudo o que conquistamos com a redemocratização; mas também tudo o fizemos antes para ter a democracia de volta’.
 
A petulância chega a tal ponto que na véspera deste 1º de Maio, Michel Temer afagou a bancada ruralista com uma promessa obscena:  o golpe revisará todos os decretos de desapropriação de glebas para reforma agrária e demarcações de áreas indígenas assinados por Dilma nos últimos meses.
 
O confronto é aberto.
 
Não será vencido só com palavras.
 
No 1ºde Maio de 2015, o presidente da CUT, Vagner Freitas chamou para a frente do palco dirigentes da Intersindical e da CBT; chamou Gilmar, do MST; chamou Boulos, do MTST, e outros tantos; e através deles convocou quase duas dezenas de organizações presentes.
 
Vagner apresentou ao Anhangabaú, então, a unidade simbólica da esquerda brasileira, fixada em torno de uma linha vermelha a ser defendida com unhas e dentes: a fronteira dos direitos, contra a direita; a da democracia, contra o golpe.
 
Premonitória, sua iniciativa, já não basta mais para deter uma violência que agora marcha ostensivamente para sua consumação.
 
A  defesa da agenda progressista hoje implica, ademais da unidade das direções, promover a capilaridade da resistência popular.
 
Comitês de resistência da vizinhança; comitês de resistência nos locais de trabalho; comitês profissionais e sindicais; comitês de amigos; comitês de mães de alunos; comitês por escola...
 
Sobretudo, urge dotar essa capilaridade de uma prontidão articulada, exercida  por uma efetiva coordenação da frente progressista nascida no 1º de Maio de 2015.
 
Hoje para afrontar o golpe; amanhã para vencer uma nova disputa presidencial, essa rede da legalidade é a tarefa inadiável dos dias que correm.
 
Por uma razão muito forte: sem ela o próximo 1º de Maio talvez encontre o Vale do Anhangabaú cercado por tropas de um golpe vencedor.
 
O Brasil será aquilo que a rua conseguir que ele seja.
 
Quando o extraordinário acontece na vida de uma nação é inútil reagir com as ferramentas da rotina.
 
Hoje a palavra organizar é sinônimo de resistir, assim como o substantivo ‘rua’ tornou-se equivalente ao verbo lutar.
 
As lideranças populares não podem desperdiçar o significado histórico dessa mutação
 
As ruas do Brasil já não dormem mais, cabe às lideranças dota-las de sonhos reais.