segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Ombudsman confirma: Folha ama Aécio! Por Altamiro Borges para Blog do Miro

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Ombudsman confirma: Folha ama Aécio!

Por Altamiro Borges

Nesta quarta-feira (3), o lobista Fernando Moura, em depoimento ao juiz Sergio Moro, confirmou a existência da sempre negada Lista de Furnas e foi didático ao explicar a distribuição da propina: “É um terço para São Paulo, um terço nacional e um terço do Aécio”. A bombástica delação, prestada no curso da midiática Operação Lava-Jato, causou uma overdose no cambaleante tucano e desnorteou a própria mídia venal. Num primeiro momento, ela não teve como acionar a sua “operação-abafa”. Até o Jornal Nacional da TV Globo abordou, a contragosto, o assunto. Na sequência, porém, a blindagem voltou a funcionar e a delação sumiu do noticiário – que segue com sua obsessão para “matar” Lula.

O "terço" do santo Aécio Neves não foi capa da 'Veja', 'Época' e 'IstoÉ', que jogaram a sua combalida credibilidade no esgoto. Ele também não foi motivo de comentários hidrófobos dos "calunistas" das emissoras de rádio e televisão, que adoram satanizar os petistas e endeusar os tucanos – sabe-se lá a que preço. Nos jornalões, a bombástica delação até foi pautada, mas sempre dando destaque ao "outro lado", dos tucanos, e tentando desqualificar o delator, "o lobista do PT". A manipulação neste caso – como em tantos outros – ficou tão evidente que até a ombudsman da Folha, Vera Guimarães Martins, não teve como conter as críticas, sempre "fraternais". Vale conferir sua coluna deste domingo (7):

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Triângulo mineiro

Vera Guimarães Martins

Merecia mais destaque a menção de delator a suposto esquema dos tucanos em Furnas

O lobista Fernando Moura declarou em depoimento à Justiça Federal na quarta-feira (3) que Furnas Centrais Elétricas mantinha um esquema de propina semelhante ao da Petrobras. Na área comandada pelo diretor Dimas Toledo, o usufruto era do PSDB. A divisão era "um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio". O delator disse ter sido informado disso em 2002, pelo próprio Dimas, cujo nome era indicação do senador Aécio Neves.

A citação ao tucano apareceu com maior ou menor destaque na capa dos grandes diários, mas não deu as caras na "Primeira Página" da Folha. A reportagem tinha bom tamanho, mas ficou espremida em uma só coluna ao lado de um anúncio. Foi pouco. Apontei na crítica interna que a notícia merecia abre de página e chamada na capa.

A Direção de Redação concorda com a avaliação nos dois casos, mas Fábio Zanini, editor de "Poder", tem opinião diferente. O espaço interno levou em conta a baixa credibilidade do delator, diz. "Ele mudou de versão em declarações sobre José Dirceu: primeiro acusou, depois recuou em vários pontos e, por fim, ameaçado de ter seus benefícios cassados, voltou à narrativa original."

Moura não é realmente um delator confiável (supondo que essa figura exista), mas, se confiabilidade fosse condição "sine qua non" para publicar notícias da Lava Jato, os jornais teriam engavetado dezenas de reportagens e manchetes nos últimos dois anos. Basta lembrar de Alberto Youssef, que fez acordo de delação em 2004, no caso Banestado, e cujas traficâncias ressurgiram maiores no escândalo da Petrobras.

A menção a Aécio Neves merecia visibilidade por um trio de razões. O senador tucano é o maior líder da oposição, e nessa condição tem sido crítico contundente do governo petista a cada revelação trazida pelas investigações – muitas delas obtidas nas mesmas condições em que seu nome foi mencionado, com réus confessos e disse me disse.

Aqui cabe uma ressalva para evitar mal-entendidos. É comum receber contestação de leitores que, em nome de um suposto equilíbrio no noticiário, cobram tratamento igual para notícias de pesos desiguais: se o jornal publicou algo sobre Lula, defendem o mesmo destaque a qualquer nota sobre FHC ou tucanos em geral. Não é assim que funciona. Cada notícia tem peso próprio, dependendo de variáveis como impacto da revelação, importância do personagem, cardápio de notícias do dia, grau de interesse do leitorado.

Nesta semana, um leitor criticou o destaque concedido a suspeitas que envolvem o ex-presidente Lula e citou como exemplo de parcialidade o jornal não ter publicado na manchete a condenação do ex-governador Eduardo Azeredo no chamado mensalão mineiro.

Ponderei que não via razão para isso. Azeredo é figura secundária na política nacional, sua carreira não ultrapassou os limites regionais. Nem no jogo político ele estava mais em dezembro de 2015, quando foi condenado (em primeira instância): após renunciar ao mandato, virou consultor da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Por que mereceria o título principal de um jornal com leitorado nacional?

Não é o caso de Aécio, que ganhou projeção nacional com a candidatura à Presidência da República em 2014. Há ainda outros fatores de peso para o depoimento de Fernando Moura merecer atenção. Furnas tem um histórico recheado de denúncias de desvio de recursos. Dimas Toledo (que nega qualquer acusação) era diretor da empresa desde o governo FHC e perdeu o cargo em 2005, no escândalo do mensalão, depois que o deputado Roberto Jefferson declarou à Folha que soube por ele do esquema de caixa dois que vigorava na empresa.

Por fim, é preciso levar em conta as mudanças no país. Toda vez que um delator levanta história com alguma raiz conhecida, a reação dos contrariados é dizer que se trata de notícia requentada com interesses políticos, para prejudicar esse ou aquele. Pode até ser, mas os tempos agora são outros.


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Algumas contribuições "fraternais" às críticas corajosas da ombudsman da Folha:

1- De fato, Fernando Moura tem "baixa credibilidade" – assim como todos os mafiosos que tentam se safar da cadeia com suas "delações premiadas" e premeditas. Mas a Folha e outros veículos tucanos nunca tiveram essa cautela quando o mesmo lobista acusou o ex-ministro José Dirceu. Ele foi capa dos jornais e destaque nas emissoras de tevê, sendo paparicado pelos moralistas sem moral. Antes ele serviu aos intentos da mídia golpista; agora, ao delatar Aécio Neves, ele é um "delator não confiável".

2- Quanto à famosa Lista de Furnas, que envolve o ex-governador mineiro e outros tucanos graúdos, até hoje a mídia não acionou seu time de "jornalistas investigativos" para apurar a sua autenticidade. Pelo contrário. Ela sempre tentou negá-la e desqualificá-la, repetindo as desculpas esfarrapadas dos caciques do PSDB. Será que agora, com as novas delações, a imprensa vai cumprir o seu papel? A ombudsman da Folha ganharia mais alguns pontos se fizesse esta justa cobrança!

3- Quanto ao tucano Eduardo Azeredo, ele realmente é "uma figura secundária" – tanto pelo que fez quando governador de Minas Gerais, como por sua atuação parlamentar como senador da República e deputado federal do PSDB. Mas, concordando com o "leitorado" da Folha, não dá para omitir o seu papel na política brasileira. Afinal, ele foi presidente nacional do PSDB e coordenador da frustrada campanha de Aécio Neves. Petistas sem maior projeção já ganharam manchetes na Folha. Não deixa de ser uma injustiça com Eduardo Azeredo, que já escapou dos holofotes no "mensalão tucano" – que a mídia venal batizou carinhosamente de "mensalão mineiro".

4- Por último, aproveitando as cobranças da ombudsman da Folha, uma pequena lista de temas que o jornal da famiglia Frias sempre esquece: a) o helicóptero apreendido com 450 quilos de cocaína que pertence ao apadrinhado de Aécio Neves; b) o aeroporto construído com dinheiro público na fazendo do tio-avô do ex-governador de Minas Gerais; c) as centenas de voos dos amigos do senador mineiro-carioca, inclusive de barões da mídia e estrelas globais, em aeronaves do governo mineiro; d) a grana em publicidade oficial concedida as emissoras de rádio da família do grão-tucano...

Peço ao "leitorado" deste blog para acrescentar outros temas nesta longa lista da blindagem da mídia! 

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Destruir o Lula para se reapropriarem do Brasil - Emir Sader para Brasil 247

Destruir o Lula para se reapropriarem do Brasil

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A direita sempre dirigiu o Brasil, que considerou como seu. Quando houve risco de perder o controle sobre o país, ela apelou para todas as suas armas - golpe, ditadura, massacre midiático - para destruir reputações.
Levaram Getúlio ao suicídio logo depois da criação da Petrobras. Tentaram impedir que JK fosse eleito, que tomasse posse e que governasse. Tentaram impedir que Jango tomasse posse na renúncia do Jânio, terminaram derrubando-o e destruindo a democracia para se reapropriar plenamente do Brasil. Sempre com o apoio ativo das empresas da mídia, das famílias Mesquita, Frias, Marinho.
Quando era insustentável continuar com a ditadura, bloquearam a possibilidade de o povo eleger democraticamente o presidente pelo voto direto, impuseram o Colégio Eleitoral e terminaram elegendo seu candidato a presidente da República. Quando havia o risco de Lula ou Brizola se elegerem pelo voto popular, promoveram o fantoche do Collor para salvá-los.
Fizeram de FHC a salvação contra Lula, até onde puderam, mas o fracasso do governo tucano fez com que perdessem o controle do país. Imediatamente começaram a campanha para derrubar Lula, pensaram em impeachment, mas tiveram medo da reação popular e quiseram asfixiá-lo no Congresso e derrotá-lo nas eleições de 2006.
Perderam, mais uma vez, mas seguiram com o intuito de recuperar o governo, nas eleições de 2010, com Serra, e na de 2014, com Aécio e Marina. Derrotados, tentaram impedir o governo de Dilma e agora buscam destruir a imagem de Lula para se reapropriarem do Brasil.
Tem que fazer como fizeram com a democracia em 1964: desqualificá-la, dizer que era a ante-sala do comunismo, que era uma cobertura para a corrupção, que era o oposto da democracia, para aí promover a derrubada da democracia e a instauração da pior ditadura que o Brasil já viveu.
Agora tratam de dizer que Lula, ao invés de ter sido o presidente que mais consolidou e promoveu a democracia no Brasil, é um risco para a democracia. Que sua popularidade serviu como cobertura para negócios ilícitos que ele teria feito. Que destruir sua imagem seria um serviço para a democracia, que estaria em boas mãos nas mãos dos que a destruíram com a ditadura instaurada em 1964.
A direita usa todos os seus meios para tentar destruir a imagem de Lula diante dos brasileiros, sem o que não conseguiriam destruí-lo como liderança política e como grande obstáculo que impede que eles voltem a se apropriar do governo e do Estado. Daí a sórdida campanha levada a cabo pelas famílias Frias, Marinho, Mesquita, Civita e suas empresas falidas, que lutam pela sua própria sobrevivência econômica.
Colocam em prática o lema de Goebbels de que "Mente, mente, mente, que sempre algo fica", sempre fica uma suspeita, menos se nada é provado. Precisam tirar a imagem do Lula de mais popular e mais democrático presidente que o Brasil já teve e que, por isso, se perfila como o favorito para voltar a ser presidente do Brasil, para que de novo o Brasil possa ser propriedade deles.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A persistência do ódio na sociedade brasileira - Leonardo Boff para Adital

A persistência do ódio na sociedade brasileira

Adital
É fato inegável: há muito ódio, raiva, rancor, discriminação e repulsa na sociedade brasileira. Ela sempre existiu de alguma forma.
Ou alguém acha que os milhões de escravos humilhados e feitos "peças” e as mulheres à disposição da volúpia sexual dos patrões e de seus filhos, não provocava surdo rancor e profundo ódio? É o que explica as centenas e centenas de quilombos por todas as partes no Brasil. E o ódio dos patrões que com a chibata castigavam seus escravos desobedientes no pelourinho?
O ódio pertence à zona do de mistério. A própria Bíblia não sabe explica-lo e o vê já presente desde o começo, no jardim do Éden.
O primeiro crime ocorreu com Caim que por inveja, que produz ódio, matou a seu irmão Abel. O mandamento era claro: "Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Levítico 19,18; Mateus 5,43). O ódio é inimigo dos homens e de Deus e ele semeia a cizânia na terra (Mt 13,19).
Mas eis que vem Jesus e reverte a lógica do ódio: "Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Ele mesmo sucumbiu ao ódio de seus inimigos mas, aceitando livremente a morte, "venceu a morte pela morte” e assim derrubou "o muro da inimizade que dividia a humanidade” (Ef 2,14-16). Prega e vive o amor incondicional para amigos e inimigos. Inaugurou assim uma nova etapa de nossa humanização.
Mas esse ideal nunca se transformou em cultura nos países cristianizados. Estamos ainda no Velho Testamento do "olho por olho, dente por dente”.
No Brasil, a raiva e o rancor histórico foram acrescidos depois das eleições de 2014. Houve quem não aceitou a derrota e deslanchou uma torrente de raiva e de ódio que contaminou não apenas o partido vencedor, mas toda a sociedade. Inegavelmente criou-se um consenso ideológico-político de alguns meios de comunicação que, com total desfaçatez, difundem esse sentimento.
O que leva um radialista da Rádio Atlântica FM, ligada à RBS gaúcha, conclamar a população a "cuspirem na cara do ex-Presidente Lula”, senão um ódio explícito e incontido?
A verdadeira perseguição judicial que Lula está sofrendo, tentando enquadrá-lo em algum crime, é movida não tanto pela fome e sede de justiça, mas pela vontade de punir, de desfigurar seu carisma e liquidar sua liderança. Grassa um maniqueísmo avassalador que amargura toda a vida social. Bem dizia Bernard Shaw: "o ódio é a vingança dos covardes”.

Mas tentando ir um pouco mais a fundo na questão do ódio, precisamos reconhecer que ele se enraíza em nossa própria condição humana, um feixe de contradições. Somos, por natureza, e não por desvio de construção, seres contraditórios, compostos de ódios e de amores, de abraços e de rejeições. É a escolha que fizermos que irá dar rumo à nossa vida: ou a benquerença ou a aversão. Mesmo escolhendo o amor, o ódio nos acompanha como uma sombra sinistra. Se não cuidamos dele, ele invade nossa consciência e produz sua obra nefasta.
Esse realismo o encontramos na Bíblia. Mas também num pensador como Bertrand Russel que observou com acerto: "o coração humano tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que pra a fraternidade”.
Lógico, se ela colocou como eixo estruturador a concorrência e não a colaboração e a luta de todos contra todos em vista da acumulação privada, entende-se que predomine a tensão, a raiva, a inveja a ponto de o lema de Wall Street ser "greed is good”: a cobiça é boa.
Mas há um ponto que precisa ser referido, observado já por F. Engels quando escreveu uma introdução ao livro de Marx sobre "A luta de classes na França”: "Se houver alguma possibilidade de as massas trabalhadoras chegarem ao poder, a burguesia não admitirá a democracia sendo até capaz de golpeá-la. Ora, através de Lula, o PT e seus aliados, vindo das massas trabalhadoras, chegaram ao poder. Isso é inadmissível pelos "donos do poder” (R. Faoro). Estes procuram inviabilizar o governo de cunho popular, desconsiderando o bem comum.
Aqui valem as palavras sábias do velho do Restelo de Camões: "Ó glória de mandar, o vã cobiça/Desta vaidade a quem chamamos fama./Ó fraudulento gosto, que se atiça/Com uma aura popular que honra se chama” (Cântico IV, versos 94- 95).
Por detrás da busca "da glória de mandar” e do poder, revestido de raiva e de ódio, se esconde, atualmente, a vontade daqueles que sempre o detiveram e que agora o perderam e fazem de tudo para recuperá-lo por todos os meios possíveis.
Leonardo Boff é colunista da Adital e escreveu: Virtudes por um outro mundo possível (3 vol.),Vozes 2005.

Leonardo Boff
Doutorou-se em teologia pela Universidade de Munique. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Conta-se entre um dos iniciadores da teologia da libertação. É assessor de movimentos populares. Conhecido como professor e conferencista no país e no estrangeiro nas áreas de teologia, filosofia, ética, espiritualidade e ecologia. Em 1985 foi condenado a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício, por suas teses no livro Igreja: carisma e poder (Record).
A partir dos anos 80 começou a aprofundar a questão ecológica como prolongamento da teologia da libertação, pois não somente se deve ouvir o grito do oprimido, mas também o grito da Terra porque ambos devem ser libertados. Em razão deste compromisso participou da redação da Carta da Terra junto com M. Gorbachev, S. Rockfeller e outros. Escreveu vários livros e foi agraciado com vários prêmios.

Twitter @LeonardoBoff

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Os microcéfalos - Fernando Brito para Tijolaço

Os microcéfalos

aedes
O “panelaço” contra a fala de Dilma Rousseff na TV – mesmo dizendo que não iria falar de política ou economia, mas apenas do combate ao vírus zika que, segundo os Centros de Controle e Prevenção do Governo Ameicano, atinge 30 países e agora, possivelmente, o próprio território americano, com um possível caso de transmissão sexual – foi tão pequeno quanto a capacidade intelectual dos que o promoveram.
A epidemia, disse hoje Alejandro Gaviria, o ministro da Saúde da Colômbia, devidamente direitista e ex-ministro do Planejamento  do “governo-modelo” do conservadorismo, o de Álvaro Uribe diz hoje que a expansão da doença nada tem  a ver com os sistemas de saúde dos países atingidos.
Não têm, mas terão, porque o tamanho da epidemia terá a ver com a capacidade dos governos e da população de combaterem a proliferação do mosquito, do atendimento primário e  – imaginem se é uma autoridade brasileira que diga isso – diz o que falou o ministro colombiano Uribe ao Estadão:
“Gaviria sugeriu que os casais que estejam pensando em filhos adiem o plano, orientou habitantes das áreas mais altas a não visitarem a regiões mais baixas e desaconselhou viagens a outros países com focos da infecção. Defendeu que uma gestante tem direito de abortar, em decisão conjunta com um médico, se enxergar na gravidez de uma criança com microcefalia um risco para sua saúde mental.”
Estaríamos em um clima de galhofa, de um lado, com piadas sobre sexo, bloqueios na Rio-Teresópolis e, de outro lado, uma ofensiva de pastores desejando obrigar mulheres a darem a luz – que é, aliás, um direito delas –  a crianças microcéfalas.
Há, porém, outro tipo de microcéfalos, não no sentido da atrofia física da massa cinzenta,  mas da amputação de capacidade de pensar  o suficiente para deixar os ódios políticos fora das questões de saúde pública.
Foi o que fizeram na noite de ontem, felizmente em proporções não de epidemia, mas apenas de surto.
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O Lula real e o espectro Lula - Rede Brasil Atual

O Lula real e o espectro Lula

Imbatível nas urnas, espectro Lula tem de ser abatido nos tapetões do Judiciário. Lula, o real, vai sobreviver a seu espectro fajutado por essas tentativas canhestras de golpe
por Flavio Aguiar, de Berlim publicado 02/02/2016 14:44, última modificação 02/02/2016 14:55
REPRODUÇÃO/FACEBOOK
lula galera.jpg
O espectro Lula ameaça a paz dos cemitérios que a direita brasileira sonha ser o Brasil
Dizem os psicanalistas que as nossas fantasias são sempre mais intensas do que a realidade, sobretudo quando são para o pior. Hoje no Brasil se vê a demonstração desta tese.
A velha mídia, o promotor açodado de São Paulo, o Supremo Tribunal do Paraná, que às vezes parece mais poderoso do que o STF de Brasília, todos lidam com um espectro que fabricam e ao mesmo tempo são vítimas dele: o espectro Lula, um horrível monstro, pior que Godzilla, Drácula e Darth Vader todos juntos, que suga a seiva do Brasil. Bom, é verdade que este monstro suga esta seiva para dar-se ao luxo de navegar em barquinhos de alumínio e descansar (?) em apartamentos que não comprou nem de que desfruta. Mas não importa: eles vão em frente, para impressionar a parte crendeira da classe média, aquela propensa a acreditar que estamos mergulhados num mar de lama como nunca houve no país, assim como acredita que PSDB, DEM, o PMDB da direita são mosteiros de probidade, onde Cunha é o Pai, Aécio é o Filho e os juízes e os promotores assanhados são os Espíritos Santos.
O espectro Lula é terrível: imbatível nas urnas, tem que ser abatido nos tapetões do Judiciário,por meio do “Golpe Paraguaio”, que na verdade deveria ser chamado de “Golpe de Miami”, já que quem inventou isto de substituir os tanques nas ruas pelos juízos à socapa nos tribunais foi a eleição trucada de Bush Filho na Flórida em 2000.
O espectro Lula ameaça a paz dos cemitérios que a direita brasileira sonha ser o Brasil. Não só a direita brasileira: os porta-vozes da City Londrina e de Wall Street também são assombrados pelo espectro. Porque o Brasil é um porão (assim eles o vêem) imenso, que, vindo à superfície, vai destruir os alicerces da Casa Grande que é o mundo financeiro internacional e seu primado sobre corações e mentes – não só na América Latina, mas na Europa e no resto do mundo, do Oiapoque ao Vulcão Fuji, de Vladivostok a Ushuaia.
Mas por trás ou à frente do espectro Lula, existe um personagem real, chamado Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil e talvez (sei lá, o futuro a Deus pertence) futuro presidente também. É um personagem extraordinário, ou seja, uma figura humana como qualquer outra, que pode ter defeitos assim como tem qualidades. Mas que liderou uma das maiores transformações sociais do seu país e do mundo, ao mudar o patamar de vida de mais de 60 milhões de pessoas em meia América do Sul, transformando sua terra numglobal player que agora não pode mais ser jogado para baixo do tapete, embora haja gente e mais gente desejosa de que isto acontecesse. Dentro e fora do Brasil.
Prova disso é que enquanto se tramavam as farsas ridículas das acusações sobre o apartamento no Guarujá e o barquinho no sítio em Atibaia, o Prêmio Nobel da Paz Kailash Sathyarthi, reconhecido pelo combate à exploração do trabalho infantil, convidava este Lula, que a caterva crápula do Brasil acha que deve cuspir em cima, para integrar associação mundial contra aquela atividade criminosa, por ser ele uma referência mundial em matéria de temas e iniciativas sociais.
Prova disso é que sou testemunha do respeito com que Lula é recebido aqui na Alemanha. Em dezembro, acompanhei-o em sua visita à sede do SPD e depois da Fundação Friedrich Ehbert, em Berlim, quando foi recebido pelo vice-chanceler Sigmar Gabriel e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, e por mais uma enorme comitiva de representantes dos partidos social-democratas europeus, além dos jornalistas, com os tapetes vermelhos do reconhecimento e admiração.
A verdade é que o Brasil teve, até o momento, entre muita gente boa, três mandatários fundadores ou refundadores do país e de seu papel no mundo. O primeiro foi D. Pedro II. O pai, Pedro I, deu o brado do Ipiranga, outorgou uma Constituição de cima para baixo, embora os reacionários senhores de terra fossem contra, mas foi só, além de ter um dos casos amorosos mais espetaculares da nossa história política. Já o filho, Pedro II, consolidou o país (e olhem, leitor@s, que se eu vivesse em 1840, estaria combatendo contra ele, ao lado dos republicanos farroupilhas antiescravistas, como o coronel Teixeira Nunes e o general Netto…) e foi dos mandatários nacionais de mais alto reconhecimento internacional. Escorraçado do país pelo golpe republicano, ao morrer, foi declarado por editorial do New York Times ser “o mais republicano dos imperadores”…
O segundo foi Vargas que, como toda a carga autoritária de seu governo, introduziu a legislação trabalhista que nada tem de fascista e muito de positivista e de Bismarck, negociou de igual para igual com Roosevelt, fundou a Petrobras que hoje querem de novo destruir, e deixou a vida para entrar na história, neutralizando com seu sacrifício o golpe de estado contra o povo brasileiro.
O terceiro, para desespero de certo professor de Sociologia, é Lula, o real, não o espectro, que projetou Brasil como liderança do Terceiro Mundo, abriu caminho para a negociação bem-sucedida com Irã e liderou esta marcha de ascensão social digna de um filme de Cecil B. de Mille dos anos 50 ou do Spielberg atual. Isto no cinema; Lula, na vida real.
Erros? Sim, afinal, trata-se de um ser humano, não do monstro infalível que os arautos da Casa Grande querem impingir ao povo brasileiro. Talvez o principal erro cometido, junto com seu partido, o PT, tenha sido o de imaginar que toda esta gigantesca operação positiva na sociedade brasileira não despertaria ódios nem a aversão por parte de quem não aguenta, no fundo, ter de disputar espaço com o povão das filas de aeroporto, nos vestibulares das universidades, nas escadas rolantes dos shopping centers, ou ter de pagar salário mínimo com carteira assinada para empregada doméstica. Parecia apenas que a “beleza do quadro” da melhoria social seduziria todo mundo.
Muito pelo contrário.
Quem detesta o bonito, feio lhe parece. Tem gente que não suporta a igualdade. Tem gente que prefere matar a conviver. Nos casos extremos, outras gentes. Mas no meio do caminho, também ideias.
Como não há mais estacas nem água benta disponível para conjurar o espectro Lula, o caminho é mesmo o de procurar destruí-lo juridicamente. Fazer o seu impeachment antes mesmo dele assumir qualquer cargo. Como se fosse um exorcismo avant-la-lettre.
Não vai funcionar. É possível enganar todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas não a todos o tempo todo. O Lula real vai sobreviver a seu espectro fajutado por essas tentativas canhestras de golpe.
regis

O futuro de Moro, o midiatizado da Lava Jato - Paulo Henrique Amorim

O futuro de Moro, o midiatizado da Lava Jato

Moro, sabe o que aconteceu com Antônio Di Pietro, da Mãos Limpas?
publicado 03/02/2016
moro, aécio e o psdb_phixr.jpg
(Imagem: Alex Damaceno, no twitter)
Do site Café na Política, por Francisco das Chagas Leite Filho:

Umberto Eco, Di Prieto e Sérgio Moro: da Mãos Limpas à Lava Jato

Umberto Eco me sugere, no seu mais recente best-seller Número Zero, o provável futuro de Sérgio Moro, o midiatizado juiz da Lava Jato. Quando a operação apagar o seu fogo sagrado, ele vira senador, depois deputado, funda um partido – “Brasil dos Valores” -, para, em seguida cair no anonimato, senão na desmoralização.

Bom, este pelo menos foi o destino de Antônio Di Pietro, de quem Moro se declara uma espécie de alterego. Sabem quem ele foi, aliás, quem é, porque Di Prieto ainda está vivo? É o célebre juiz italiano, ator principal da Mãos Limpas, um tufão judicial-midiático que incendiou a Itália e a Europa, de 1992 a 1994.

Era aquela cruzada moralista, tão trombeteada como a salvação da Itália e da democracia como um todo, que, em vez de limpar a política e a justiça, as chafurdou de tal maneira, a ponto de permitir a ascensão do caricato e corrupto Sílvio Berlusconi, três vezes primeiro ministro, em diferentes oportunidades, de 1994 a 2011.

Também desmontou a próspera economia do país – só perseguia os empresários nacionais, deixando de lado as transnacionais -, rebaixando-a  à condição de um mero país emergente e dependente da troika (FMI, Banco Europeu e União Europeia). A operação ainda quase seccionou o país em dois – um no norte onde está a rica Milão, sob o comando da direitista Liga do Norte, protegida de De Prieto, e outro no pobre sul, com a mesma sede em Roma.

Para a gente, por enquanto, só ficar na desmistificação do mito e de sua criação italiana, basta lembrar que a promoção publicitária de Antônio de Pietro e das Mãos Limpas (veja que título mais impactante),como a de Moro no Brasil, santificou-o aos olhos da comunidade internacional, antes que ele virasse o santarrão que é hoje.

Iniciada, em Milão, por volta de 1992 – quando Di Prieto tinha os exatos 42 do Moro de hoje -, com maior estardalhaço que sua congênere brasileira, prendendo e arrebentando políticos, grandes empresários, alguns dos quais cometeram suicídio, a Mãos Limpas (Mani Pulite, em italiano) ainda precipitou o fim da chamada Primeira República: fez ruir praticamente todo o sistema partidário, à frente o governista e poderoso Partido da Democracia Cristã, ligado ao Vaticano. Só se salvou o Partido Comunista, que, mesmo assim, se autodissolveu, pouco depois.

A abrangência da operação foi inacreditável: cinco mil políticos e empresários foram denunciadas, incluindo mais da metade dos membros do Parlamento e 400 câmaras de vereadores de diferentes cidades foram dissolvidas, todas sob acusação de receber propinas e fazer lavagem de dinheiro.

Di Prieto, porém, teve vôo curto, ao contrário de Moro, pois se viu em maus lençóis, quando assumiu Berlusconi, ao que se diz para proteger seu império empresarial de alguns bilhões de dólares, evidentemente ameaçado pelas investigações da Mãos Limpas. Berlusconi, que assumiu em 1994, dois anos depois do início da operação Mãos Limpas, retrucou mandando investigar alguns juízes, entre eles, Di Pietro, que foi obrigado a renunciar naquele mesmo ano.

Depois de inocentado na justiça, Antônio Di Pietro, de origem humilde, tendo sido pedreiro na juventude, e depois policial federal, quebrou sua promessa de nunca se tornar um político, já que se julgava um juíz impoluto e consequentemente infenso às tentações eleitoreiras. Elegeu-se, primeiro senador e depois deputado. Fundou, o “Itália dos Valores”, partido que  depois abandonou diante de várias trapalhadas envolvendo denúncias de malversação de fundos.

Mas o que diz mesmo Umberto Eco, célebre filósofo italiano, além de escritor, no seu último livro, Número Zero, uma deliciosa paródia de redação de um jornal cujo propósito não era de ir para o prelo mas extorquir dinheiro de gente graúda através de ameaças de revelação de escândalos. Acho que está aqui o x da questão tanto da Mani Pulite como da Lava Jato.

Usando seu personagem Simei, o diretor de redação do, Eco diz lá pelas tantas:

“Há quem diga que, depois da queda do Muro de Berlim e do desmantelamento da União Soviética, os americanos já não precisam dos partidos que podiam manobrar e os deixaram nas mãos dos magistrados, ou, talvez, poderíamos arriscar, os magistrados estão seguindo um roteiro escrito pelos serviços secretos americanos…”

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Brasil que deu certo vs o Brasil que deu errado - Emir Sader para Brasil 247

O Brasil que deu certo vs o Brasil que deu errado

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Na contraposição imposta pela mídia entre ela e Lula, são dois Brasis que se enfrentam. Lula representa o Brasil que deu certo e a velha mídia é o mais expressivo retrato do Brasil que deu errado.
A trajetória da elite brasileira e da construção do Brasil como o país mais desigual do continente mais desigual pode ser acompanhada diretamente pela própria trajetória da mídia brasileira, que sempre esteve do lado dessa elite, comprometida pelo lado pior da história do Brasil. A mídia esteve contra as transformações econômicas e sociais conduzida por Getúlio, como o maior estadista brasileiro do século XX; esteve com todas as tentativas de derrotá-lo eleitoralmente, em 1945 e em 1950; esteve a favor de todas as tentativas de golpe contra o Getúlio e a democracia. Não por acaso, assim que o povo do Rio de Janeiro soube da morte de Getúlio, saiu em milhões às ruas da cidade, atacando as sedes dos jornais, centro das campanhas contra o maior líder popular da época.
A mídia seguiu as tentativas golpistas durante o governo de JK e apoiou a golpe que se tramou contra a posse Jango, em 1961. Foi brecada pela reação popular e pela resistência dirigida pelo Brizola. A mídia esteve pela manutenção do parlamentarismo, como forma de diminuir a capacidade de governo do Jango e mais uma vez foi derrotada.
Em um momento significativo da sua história, a mídia promoveu ativamente o movimento de desestabilização política que levou ao golpe e saudou o golpe que terminava com a democracia no Brasil, como um movimento que, ao contrário, salvaria a democracia. Apoiou a ditadura na sua selvagem repressão contra a oposição. A Folha de S. Paulo chegou a emprestar seus carros para que, disfarçados de jornalistas, policiais da sangrenta Operação Bandeirantes prendessem, matassem, levassem à tortura milhares de opositores à ditadura.
A mídia apoiou o modelo econômico da ditadura, centrado no arrocho salarial, na intervenção em todos os sindicatos e no fim das campanhas salariais. Elogiou permanentemente o "milagre econômico", que super explorou os trabalhadores e mais concentrou renda na nossa história. A mídia estava, mais uma vez, do lado oposto ao povo e à democracia.
Diante da possibilidade de que um candidato do campo popular – Lula ou Brizola – fosse eleito, em 1989, a mídia apoiou e promoveu a imagem do Collor, como seu novo preferido. Deu cobertura às operações de marketing midiático que acobertavam um governo com medidas duramente antipopulares e antinacionais.
A mídia apoiou com todas as suas forças a candidatura de FHC, como meio de impedir a vitória do Lula. Cantaram, em prosa e em verso, o governo do FHC como a redenção maior do Brasil, o avanço para um país do futuro. A Folha chegou a criar um caderno chamado A Era FHC, para saudar os novos tempos, que foi desaparecendo melancolicamente aos poucos e teve fim. A mídia escondeu os processos de desigualdade social que o Plano Real promovia, enquanto apoiavam o maior escândalo de corrupção da história do país, com as privatizações a preços irrisórios do patrimônio público de empresas estatais. Mais uma vez a mídia estava contra o povo e contra o Brasil.
O governo Lula resgatou a economia brasileira da profunda e prolongada crise recessiva a que o governo FHC a havia jogado, com inflação de 12%, com desemprego de 18%. Lula conduziu o Brasil ao período de maior auge econômico e social da sua história, elevando como nunca a imagem do país diante dos próprios brasileiros e projetando a imagem mais positiva do Brasil no mundo. A mídia fez oposição feroz ao melhor governo que o Brasil já teve. Lula terminou seu mandato com mais 80% de referências negativas na mídia, mas com mais de 80% de apoio popular. Lula representava o Brasil que dava certo e a mídia estava contra.
Quando ataca Lula com a mesma ferocidade com que fazia contra o Getúlio e contra o governo Lula, a mídia dá continuidade à sua trajetória que se identifica com o Brasil que não deu certo: o Brasil golpista, o Brasil da concentração de renda, o Brasil da subserviência aos EUA, o Brasil dos monopólios antidemocráticos dos meios de comunicação, o Brasil da ditadura, o Brasil da repressão, o Brasil da calúnia, da impunidade, da submissão da mídia aos grandes grupos econômicos que a financiam, o Brasil do ódio ao povo e à democracia.
São dois Brasis que se enfrentam hoje: o Brasil do Lula, que deu certo, para o seu povo, para a democracia, para sua auto-estima, e o Brasil que deu errado, que só favoreceu suas elites conservadoras e hoje quer impedir que o Brasil que deu certo volte a se impor. Lula representa o Brasil que dá certo, a mídia representa o Brasil que sempre deu errado. E que quer impedir que seja o povo que decida, pelo voto democrático, que Brasil os brasileiros preferem: o que deu certo ou o que sempre deu errado para o povo e para a democracia.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ataques a Lula entram no 'guinness book' - Blog do Miro

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ataques a Lula entram no 'guinness book'

Por Osvaldo Bertolino, em seu blog:

Se alguém fizer um rigoroso exame na mídia hoje, 31 de janeiro de 2016, talvez levante o recorde de ilações em toda a história do país. Certamente, tamanha desfaçatez para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encontra semelhança nem na onda de sujeira acumulada de 1945 - quando a direita iniciou sua marcha golpista para barrar o progresso do povo brasileiro representado pelo então presidente da República Getúlio Vargas (ele foi deposto por um golpe militar em outubro daquele ano) - a 1964 - quando o golpe se consumou, deixando no caminho o cadáver do líder da Revolução de 1930.

Só uma passada pelo principal portal de notícias da mídia, o UOL, na noite deste dia revelou, em suas manchetes, três torpezas cabeludas da “Folha de S. Paulo”, daquelas dignas de entrar para o guinness book, o famoso livro dos recordes, se houvesse nele a categoria de canalhice política. A primeira é um curto registro da milésima nota do “Instituto Luta” mostrando que o ex-presidente nunca teve apartamento no Guarujá seguido de uma imensa matéria repisando, tim tim por tim tim, todo o enredo montado pela mídia para produzir aquilo que o nazista Goebbels dizia ser a técnica de transformar mentiras em verdades à força de repetição.

Colada à primeira safadeza vem a fala de um “engenheiro” - mais um personagem obscuro que se junta à “ex-dona de uma loja de materiais de construção” da cidade de Atibaia (SP) e ao “prestador de serviços” (leia aqui) - segundo a qual é “possível inferir que a obra (no apartamento de Guarujá) estava sendo feita seguindo o gosto do ex-presidente”. A manchete, contudo, é categórica: “Obra em tríplex atendia ao gosto de Lula, diz engenheiro”. O bloco de jornalismo fétido, de chiqueiro, fecha com a “notícia” de que “Uma carta apreendida pela Polícia Federal na Operação Zelotes indica que o lobista Mauro Marcondes Machado, preso em Brasília, usava de sua suposta proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para vender seus serviços a potenciais clientes”.

Tesoura nas mãos de bandidos

Essa é apenas uma amostra, que leva à suposição realista de que a mídia hoje se enfiou na lama como nunca antes na história deste país. Isso ocorre porque a essência deste tipo de jornalismo é a falta de caráter, a ausência de valores básicos que deveriam ser preservados sob quaisquer circunstâncias. Caráter é a capacidade de manter princípios, independente da situação e do momento. O contrário disso é o casuísmo - quando se troca de premissas, de opinião e de ponto-de-vista ao sabor daquilo que está acontecendo ao seu redor naquele instante. Casuísmo, como está claro, é um dos aspectos da falta de caráter.

Outro valor fundamental da civilização é a democracia. Esse deveria ser um alicerce inegociável na construção de cada um de nós. No entanto, é de assustar o quanto a democracia é pisoteada pela mídia. Estamos vendo isso ao vivo e em cores nessa cruzada contra Lula, com depoimentos habilmente colhidos de inocentes úteis - ou culpados inúteis - para serem impiedosamente manipulados. Num conceito mais elevado de justiça, tal prática é flagrantemente criminosa. Falta para essa gente civilidade.

Liberdade de expressão não é um direito hierarquicamente superior aos demais direitos e garantias individuais e coletivas. Na Constituição está no mesmo patamar o direito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas. Todos igualmente invioláveis e indispensáveis. É preciso haver um equilíbrio entre eles. A defesa da liberdade de expressão exige protegê-la contra abusos como estes. Na democracia, são tarefas conciliáveis. Fora disso, a “liberdade de imprensa” não passa de tesoura nas mãos de bandidos.

Mídia induz a sociedade à barbárie

Para atingir seus objetivos ignóbeis, essa gente da mídia cassa os direitos dos seus adversários - como ocorre em relação a Lula -, como se uma situação de confronto ou de disputa permitisse, possivelmente por algum direito divino, a esse tipo de jornalismo abrir mão de todos os parâmetros de conduta ética. O direito à voz do outro, ao contraditório, à visão oposta é uma prerrogativa fundamental do jornalismo - mesmo que este outro esteja dizendo algo que nos pareça um absurdo, uma sandice.

Não raro, esse é o primeiro direito do outro que a mídia revoga unilateralmente. Podendo calar o oponente, em nome de vencer no grito ou de encerrar mais rapidamente uma discussão que não lhe interessa, esse tipo de jornalismo o faz. Ao abdicar do princípio ético, ele abdica da democracia. E, por conseguinte, da própria civilização. Ao agir assim, a mídia induz a sociedade à barbárie, à regra da rasteira, do vale tudo, do dolo como substituto da democracia, do crime como alternativa à justiça.